Manhãs Serenas na Tapera Solidão

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A lida bruta nos fundos dos rincões, sol a sol, mês a mês, janeiro a janeiro, merecem compensação? Ainda que campesino, surrado dos duros ofícios, cativo dos galpões, garrão de potro, chapéu pança de burro, um misto de bombacha remendada com tirador, a cobrir-lhe os arredores da cintura, olhar de águia, franzino, melena nos ombros, adaga na cintura, musculatura saliente, de movimentos ágeis, perfil quase imperceptível, estampa lendária, mereceria mesmo compensação! Alargou o olhar, um infinito…, esbugalhou olhares, embaixo do vasto e bigode retorcido, dentes a sorrir.

Com uma educação beirando aos atuais doutorados conceitos, o xiru velho, aprendiz da sorte, dessabia donde viera, sabia sim, do foguinho do galpão, ao lado do catre, a mais antiga lembrança, ainda viva, melhor dizendo – fogo ardendo no galpão da memória -. Silenciou um pouquito, franziu o cenho, retorquiu o imenso bigode, jogou os cílios, leve carranca e, num repente, exibiu um olhar irresistível aos risos e explodiu numa gargalhada, própria de terra chão, exprimindo no branco dos olhos, a mais fiel matriz da felicidade, em lágrimas de esperanças.

No laço do pensar, contava os anos na tarca, espiava no arrebol, aprendera nas palavras do Patrão, mais Pai do que Patrão, Pai? Sepulcro! Os filhos do Patrão chamavam-no de Pai, e ele, teria Pai. Calou! Cavou no fundo do oco da memória, ainda piazito, o Patrão dizia-o, filho! Novamente os dentes arderam em doces risos. O Patrão dizia filho aos filhos e dizia filho a si, o galponeiro. Qual basto sobre o lombo do pingo, sentiu-se igual aos rapazes, ainda que não o dissessem irmão. Outra vez as lembranças antes amargas, louvaram alegria. Meu patrãozito me chamou de filho!

A vizinhança, os fazendeiros da região, os tropeiros de gado vacum, os vendedores de sal mineral e compradores dos ossos que ele mesmo juntado na estância, até as moças das sesmarias vizinhas, o vigário, as senhoras dos estancieiros, o senhor do Cartório de títulos, o bolicheiro, o professor, todos que vinham visitar o patão, ou negociar ou proferir palavras pra Deus, trazer documentos, tratar casórios entre filhos das Sesmarias, pra mode de não deixar repartir as terras, aumentar sim, nas prosas da casa grande e no cavalgar dos campos, falavam, que peão educado… o seria educado!!!

Arriscou! Vou falar com o Patrão! Estufou o peito de coragem, caprichou o galpão, o fogo no gosto do “home,” um chimarrão topetudo, a erva preferida, o cepo especial, somente usado em dia de cerimoniosa charla, em vós moderada, lascou: Patrão o Senhor me concede uma prosa! Sentados frente a frente, o galponeiro assuntou, pra alegria do Senhor daquela estância, por quê não falaste antes! Toma o pingo que quiseres, quantas patacas precisas? Podes partir ainda hoje… mas não te esqueça: esse lugar é teu e parte dos campos também, lote de vaca que cabem na tua tarca. Ouvi esse relato, nos ermos da tapera solidão, em falas confidentes!

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