Nas velhas raízes

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Que dia! Acordara ao primeiro canto do galo senhor no terreiro do seu Felisburgo, nas imediações da velha atafona, aliás, atafona única num raio de duzentos quilômetros. Sua morada rupestre distava mais de uma centena de metros do poleiro onde o cantor prenunciava o amanhecer, mas o som estridente do canto cortava os ares do rincão, ecoando nos rochedos que se esbaldam contra o horizonte. Sempre que o calendário permitia refresco, ela buscava o frescor junto às matas. Tinha predileção por aquele ambiente, onde se impunha em levantar cedo e caminhar pelas campinas orvalhadas, sentir as brisas na sensibilidade da pela, adorar o rei Sol quando este apontava sobre os morros, colher flores de qualquer matiz.
A primavera! Uma espécie arbórea de pequeno porte que empresta o nome para a mais florida das estações e toda vez que o setembro se faz sentir, ela se abre em poesia de múltiplos matizes. Quanta inspiração ela coletava nos campos, a singeleza das flores lhe traziam uma paz profunda, e ao planar das aves deitava em “largas” gargalhadas, se abria em risos ao perceber o borbulhar das águas impelidas pelo ventre da terra, apreciava o mover das sombras das árvores, bebia água na fonte com um canudo do talo da folha de abobreira, cozia ao fogo de chão com em panelas dependuradas em fios de arame. Quanta felicidade, sem perceber que a felicidade está no singelo.

Quando tomara a decisão de abandonar o meio natural se embrenhando na selva de pedra, jamais pensara em retornar aos fundões das grotas. Sonhara com roupas deslumbrantes, vistosos adornos, palácios, restaurantes requintados, saraus, príncipes encantados, e outros tantos, alguns tão secretos que jamais tivera coragem para revelar a qualquer confidente. Adeus rincão, até nunca mais… dissera na partida! A vida no centro urbano efetivamente trouxe outros “contornos”, e os dias se fizeram lindos aos seus olhos, transbordou em emoções sem limites.

O fascínio e o esplendor das luzes deixam-na tão radiante ao ponto de se esquecer do passado. Agora frequentava as rodas sociais com enlevo, distribuindo alegria em todas as direções, jamais recusara convite, sua presença era uma exigência, galgou posições, ocupou cargos, tomou decisões, arrasou corações, assumiu compromissos, aprisionou sentimentos, não tardou, se agregou aos políticos influentes, assolou sentimentos, recusou ofertas, aceitou jantares, se sentiu poderosa – fez esperar.

Quando as primeiras luas foram deixando seus rastros, sequer havia percebido o tempo passar. Ao espelho rugas. Retornou ao espelho disposta em xingá-lo, mas feito um flecha, silenciou. Retornou outras vezes ao espelho e aí viu a imagem da sua mãe. Mamãe exclamou! A senhora aqui? Aí despertou, sou hoje o que minha mãe foi ontem! À janela, experimentou um olhar além dos gigantescos edifícios, em vão, mas a memória se estendeu ao longe. Cabisbaixa, deixou os pensamentos fluir e estes retornaram ao passado.

Fez prece pro tempo, invocou os deuses, visitou as tumbas, pediu clemência, nada! Perdera as raízes, se desapegara dos seus. Sequer fora ao velório do pai, a comunicação veio tardia, havia compromissos para cumprir. Contudo, quando mamãe partiu, estive presente, afirmou para si mesma, em tom de desabafo! Ah o tempo cruzara sem deixar aviso, apenas lembranças. Retornou ao espelho, sentiu saudades, saudades da infância, do velho rincão ao qual prometera nunca mais retornar, buscou no recôndito, buscou consolo! Encontrou conforto, nas velhas raízes.