Nos pitacos do tempo

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O peregrino encajadado, solenemente relembrava no local do antigo vilarejo, os sinais ainda vivos, até robustos dos arruamentos e construções. Aqui o bolicho do fulano, ali perto da restinga, a cancha de carreira, nas terras do falecido…, o campinho de futebol, era do outro lado, perto da igrejinha. Mas bailanta, ficava ao do bolicho, quanto casamento resultou dessas danças. Bocha de madeira, jogávamos no chão batido (nos fundos dos lotes). As casas eram secundadas de galpões, galinheiros, estrebarias, chiqueiros. Nas redondezas, sem aramados, estacas cravadas, serviam para amarrar as vacas, que, pacientemente permitiam as ordenhas.
Nas edificações simples ou mais requintadas, sem exceção, havia um chaminé fumegante, prenúncio e certeza do sagrado alimento, ainda que fosse “apenas” feijão, mandioca, arroz e uns ossos fervidos e os produtos da horta. Cada qual conhecia perfeitamente a sua rotina. Todos, indistintamente, cumpriam tarefas, desde a mais tenra idade. Belos, aqueles tempos. Os quintais, as hortas, os jogos de bolitas, as mais diversas brincadeiras infantis, os brinquedos dos tempos (folclóricos), a lousa, a escola, entre o lazer e o compromisso, tudo se tornava uma diversão.
A comunidade conhecia os habitantes, os habitantes se respeitavam, todos olhavam por todos e todos eram responsáveis por tudo e todos. A professor (a), autoridade simbólica, os mais vividos mereciam respeito, o vigário então, nem se fala. Na caderneta de tamanho gigante, do bolicheiro, constava o nome do chefe das famílias (naquele tempo era assim, chefe de família), onde ele relacionava as compras de mantimentos, e nalguns, haviam tecidos e calçados, instrumentos e produtos agrícolas, para consumo e plantio. Anotações é que não faltavam nas ditas cadernetas.
Quanta lembrança corre nas veias da memória, quando o mate do tempo retorna aos lugares andejados! O citadino, ainda que se poste por originário urbano, no lastro da vida, encontrará sempre uma raiz voltada ao campo. A vida rural, quer nos fundos das grotas ou nos mais recentes vilarejos, ganha uma invulgar nostalgia, nos tempos das invernias, dada aos velhos fogões e aos galpões de chão batido, com seus guarda-fogo, no bater de queixo, pela ausência de vestimentas adequadas, na falta de descalços apropriados, então havia pés descalços, quebrando geadas.
Remanesce nos vitrais da história, um tempo de gente de fibra, enfrentando as adversidades com trabalho, para o frio, diziam, toma o machado e vai cortar lenha, abre uma vala com a picareta, capina aquele eito, esquenta o corpo e assim se procedia e acontecia. A riqueza de imagens perlustrando os campos de antanho, a vida das gentes, as edificações comunitárias, as ações sociais, os mutirões de lindeiros, a construções coletivas de estradas, bueiros e a sua manutenção, a construção de ideais vizinhais, as escolas distritais, as carneadas e a troca da carne entre vizinhos, o auxílio nas colheitas, as festas, os casórios, as construções de canoas, as travessias. Urge resgatar o brilho do passado, seja nas letras musicais (tal no Trem de Santa Rosa – Claudino de Lucca), em poemas para declamação, em resgates junto a comunidade.
A moldura do passado é tão rica, mas resta esquecida nas perimetrais urbanas, o caminho de retorno ao passado, resta inviabilizado até mesmo, na ação das pessoas, quando nos impõem uma discriminação entre as gentes que sempre conviveram harmonicamente, independente das origens raciais, aliás, foram os diferentes segmentos, os responsáveis pela edificação da sociedade gaúcha hoje existente. Vale lembrar, os primeiros imigrantes foram jogados nas selvas e cabia-lhes a própria sobrevivência, ninguém lhes ofertou abrigo, alimento, defesa, saúde, nem mesmo lhes asseguraram a compra da produção. É preciso um contraponto a tudo aquilo que está se levantando por bandeira social, somos todos brasileiros, sob a égide da mesma Carta Magna, quem penou menos? Vencer é uma consequência de atitudes! Exemplos de Brasília, sem valia.