O coaxar e o coagir

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Os sapinhos das sanguinhas, coitadinhos, por humildes e acanhados, precisam se submeter ao viver na singeleza dos seus cantinhos. Tadinhos! Por outro lado, nem sabem eles da sua importância no contexto das redondezas. Pudera: ultimamente, não têm a oportunidade de soerguer os olhos além das ribanceirinhas. Contudo, já denotaram que de tempos em tempos alguns sapões aparecem pelas margens e coaxam com notoriedade, causando espanto.

Outros sapos de maior porte, vivendo em aguadas maiores tal os açudes, mas restritos aos abaulados dos beirais, tiveram ciência da consideração que lhes é atribuída pela sapaiada-mor, nos momentos das enchentes e, em especial, no que condiz ao equilíbrio daquele cantão. Entenderam que de quando em vez são chamados a dar a sua contribuição, ainda que com seus pequeninos olhos sejam chamados a iluminar as noites de “pescarias” dos sapões.

Por sua vez, os sapos grandes, com suas sapas, além de manter guarda sobre cada um daqueles espaços, possuem um lago próprio onde a sua prole de sapos faz morada e circula livremente, exibe altivez, constrange, autentica, usa alegorias, contagia, motiva, modifica, destrói, por vezes constrói, altera, permite elasticidade, alterna, impõe um norte à circunvizinhança.

Quando os sapinhos e sapos um pouco mais viçosos são convocados para recepcionar os sapões, eventualmente acompanhados de suas sapas, se dizem eufóricos, benquistos, amados, rubros olhos em soluços. Emotivos, dançam de alegria. Embora a lama das águas, salpicam vivas de liberdade. Contudo, respiram os féis da desgraça! Inebriados diante do cortejar, taquaras espocam!

Nesse conluio de sentimentos, sapinhos, sapos mais avantajados, os sapões e suas sapas saem todos convencidos da necessidade de se aliar incondicionalmente em torno da salvação da grande aldeia e que, desde as sanguinhas, sangas, açudes e aguadas maiores e do lago grande, precisam andar tal os soldadinhos de chumbo, de passo certo, do contrário as águas das cabeceiras ser-lhes-iam cortadas e todos emagreceriam. E aí do Joãozinho! – Haverá uma desgraça, águas nebulosas, águas contaminadas, o secar de sangas, aguadas maiores, açudes, lagos e até mesmo os rios. Por ingenuidade, essa coletividade de sapos bebe o leite da ignorância.

Havia um tempo em que os sapinhos se escondiam em sanguitas, por afinidade, semelhantes apenas nas aparências, nunca nos pensares. Cada sapinho possuía um oco, saía dele quando bem quisesse, andarilhava sem vigilância, cuidava do seu reduto, se alimentava com as suas esperanças, coaxava com quem lhe desse azo de simpatia.

Nas vertentes do tempo e nas trilhas perdidas, ficaram a nostalgia e a saudade, lembranças tão bem-vindas, quando no peito acampa o olhar da meninice, esse, faceiro, entendido no horizonte, feito um leito de rio, todo espichado, longe, bem longe, quase uma névoa entordilhada, centenário momento, véu sem chamuscas estendido no descortinado onde a vista alcança. Um menestrel esse tempo, de louvável sabedoria, ensinando graciosamente os prelúdios da verdade: onde houver coagir indecente, a sapaiada tropeça logo ali adiante!