O Reencontro de dois titãs – Parte Dois

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…sorrindo o solo, os confabulantes, em profundo silêncio, silêncio aterrador, fitam o infinito do nada e o nada responde com o mais pesaroso dos silêncios. Após um suspiro distante, o Cacique soergue o rosto ostentando o cenho carregado de amargas hostilidades, contempla a imensidão, num repente, muda a fisionomia, solta um urro, é o Salto! Vibra imensamente, como se ali estivesse o velho Salto Pirapó, de sonhares e pescares tantos. Ali a fartura ditava as regras, a fome jamais encontrara abrigo nas gentes nheçuanas, liberta de qualquer aramado, os “nheçuanos” viviam a conjugada liberdade. No Salto, a liberdade das águas desciam solto, o Salto! O Salto roncava sob a queda das águas e as águas seguiam abertas em liberdade.

Roque Gonzales de Santa Cruz, ficara imóvel com o berro do Cacique, não ousara, sequer, lançar olhares. Embora a fala mansa travada na véspera, entre ambos, entretanto, não se permitia indagar o rei do Salto, o espert do Nhacurutum, profundo conhecedor dos saltos do rio Uruguai e tantos outros recantos, refúgios onde Ñhesu sabia de toda sorte de riquezas, armadilhas, encantos, esconderijos, guardados, segredos próprios do selvícola e sua gente!

Entre suspiros profundos dos silentes interlocutores, a tempo esvaia lentamente, enquanto as brisas do Plano Alto foram amenizando os ânimos, tosses sem graça, olhares de soslaio, entre levanta e senta, ocorre, um breve mirar de olhos, Padre Roque, com ares de sentimentos, mas com brandura se dirige ao Cacique em tom mais que amistoso questiona: podemos retomar nossa charla? Sem pestanejar, Ñhesu, o maior dos caciques, responde positivamente. Retomam os cepos da véspera, a água pro mate já estava no ponto e Ñhesu não deixou por menos: eu cevo o mate! Com leve sorriso, Roque Gonzales acende positivamente, sabia, o mate do Cacique, é sem igual!

Constrangido, o Padre Roque Gonzales alisa a cuia, mira com atenção a Tacuapy e resvala em espanto: “coooousa caprichada Ñhesu! Refiro-me a Tacuapy, aprimoraste, ainda mais tuas habilidades, essa é uma verdadeira obra de arte!” “Qual nada vigário – respondeu o senhor das matas -, já vi coisa mais linda.” Sentindo o momento propício, Roque Gonzales de Santa Cruz, pede licença e diz ao interlocutor que não gostaria de ser interrompido, enquanto estivesse expondo. Com um aceso positivo de Ñhesu, passa a discorrer.

“Sabes Cacique, lembro bem do nosso tratado, ponto por ponto. Reconheço que eu e os meus erramos, a congregação errou ao desrespeitar o nosso pacto, quando nos instalamos e sentamos pé na margem direita do Ijuí! Por igual, que as vossas crenças e vossos costumes jamais poderíamos ter sido desrespeitados. Estávamos eufóricos e convictos do acerto, pretendíamos que você e sua gente se rendessem aos nossos conceitos de vida e forma agir. Pensávamos na supremacia da Congregação Inaciana!

Erramos, meu caro Cacique! O teu povo te cobrou, os caciques te cobraram, o futuro te cobrou, antecipadamente! Fostes um visionário! Ao ouvir o clamor de tua gente, daqueles caciques rebelados, juntamente com teus companheiros foste obrigado a tomar uma atitude e a tomaste! A reação recaiu sobre mim e dois dos meus companheiros da Ordem. Perecemos nós, por culpa nossa, mas quem pagou pesado fardo, foi tua gente! Sim, em torno de um mês depois, mais de mil e cem selvícolas tombaram! É bem verdade, que pouca gente sabe desse massacre no Nhacurutum. O revide da Congregação, foi muito bem escondido, manifestamente insano, ao liderar aquele enorme massacre, reunindo soldados espanhóis, índios adversários, gente nossa, munidos de armas de guerra, contra as lanças e arco e flecha dos teus valentes! A coragem ao reagir, de vocês, foi um ato de resistência, talvez a primeira resistência.

Nos livros, sobre Ñhesu, há poucos registros desses fatos, quase nada encontrarás, entretanto, muitíssimo verás sobre a minha morte e dos meus dois companheiros da Ordem, daí a incriminação tua e de tua gente! Escreveram muito deslouvando as tuas razões, mas nesse momento, te dou meu testemunho: o erro foi meu e de minha gente! Peço-te, caro Ñhesu, por hoje vamos encerrar nossa prosa, porque me sinto cansado. Sei dos meus erros e isso fadiga. Vamos retomar outro dia…”

Antes de qualquer reação de Ñhesu, o Padre se retirou apressadamente!

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