O Reencontro De Dois Titãs

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Roque Gonzales de Santa Cruz caminha a passos largos e riso triunfante na direção de uma choupana no Largo Etéreo, onde o aguardavam João de Castilhos e Afonso Rodrigues, estes, na companhia de Romero, Anton Sepp Von Rechegg, Montoya, Mendoza e outros da agremiação inaciana. De longe se percebe que o ambiente está animado e a voz mais destacada parte do homenzarrão Anton (Sepp), mas os risos estridentes fazem eco coletivo, espalhando contagiantes ressonância e, diferente não poderia ser, velhos companheiros de jornada, relembrando tempos idos.

Num repente, Roque Gonzales ouve um “buenas” em linguajar Guarani e sente calafrios! Ficou estático. Lentamente foi girando a cabeça, mas de forma tão lenta, imperceptível a olho nu. Suas vestes tremiam, seu corpo tremia! Isso sim, perceptível.

-“O provincial ainda me reconhece?” – Nesse momento Roque Gonzales mantém-se em silêncio cadavérico. – Sou eu, diz a voz guarani. Sou Ñhesu! – O suor tomou conta do padre, que, entre pálido e desfalecido, mais parecia uma miragem. – Vamos tirar um dedo de prosa, provocou Ñhesu! – Em si, o inaciano travou uma eterna batalha, até voltar aos batimentos cardíacos. – Vvvaammmos – retribuiu.

Em leve aceno de quem está se refazendo de um susto inimaginável, sinaliza para Ñhesu, e seguiram na direção de um açoita-cavalo, este, galhos pendidos, mas firmes, artisticamente desenhados, sob o qual havia alguns cepos bem conhecidos de ambos. Um porongo, uma tacuapý, cambona recostada ao borraio agonizante. Em pé, olhos caídos, silêncios… Roque Gonzales sinaliza levemente na direção dos cepos e ambos dobram os joelhos, assentando-se. Os prosadores, aos poucos, mas comedidamente, levantaram os olhos, houve um fitar-se!

Os titãs se puseram-se em pé feito lépidos felinos! Anjos guardiões de ambos, empunharam espadas, prontos na defesa de seus senhores. Estremeceram! Haveria nova contenda? Novo embate? Punhos cerrados, frente-a-frente, olho-no-olho, ringir de dentes, dois guerreiros imovíveis, sem um mover de cílios, sem arfejo, corações paralisados! Havia ali respeito mútuo, reconhecimento, autenticidade, coragem, bravura, valentia, dignidade. Para surpresa dos anjos guerreiros, seguiu-se um longo e afetuoso abraço.

Batido o tição, Ñhesu fez questão de cevar o mate no velho estilo dos rincões do Pirapó! Alcançou o mate de primeiro sorver, ao padre Roque, esse fez alusão: “ainda fazes o melhor chimarrão!”- risos irrigaram o ambiente. Os anjos, sentindo-se intrusos se retiraram mansamente, cada qual, tomando seus trilhos, olhares francos sinalizaram paz no reduto. O padre e o maior dos Caciques (na fala de Roque Gonzales), viajaram na linha do tempo, reconstituindo a história. Os primeiros diálogos vieram a mente, os acordos, pactos, traçados, suas gentes, ideais, paragens, o velho mirante no Nhacurutum, os ventos sinalizando a vinda dos intrusos (Padres e espanhóis). Os sustos, a estranheza, as linguagens díspares, a compreensão via gestos, as riquezas, as desavenças, a astúcias de ambos.

As primeiras construções, as hostilidades, porém, isso é assunto para a próxima edição!

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