Oigalê acampamento na querência

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Nestes campos buenachos, das dobras do relevo, deste Rio Grande – sesmaria, onde os vacuns não conheceram aramados, e os corcéis senhores desses campos, relinchavam para reunir a manada quando avistavam algum intruso, e em disparada se dissipavam no horizonte, nenhuma vista seria capaz de alcançar aquela xucra potrada, aos olhos restavam as nuvens. Saudosos olhos em lembranças! Hoje, “vistos em suspensos jardins” onde as almas provincianas se aquerenciam.

Ó velho, xucro, mas doce Rio Grande, querência de refregas tantas, viste teus filhos tombar em tua defesa, mas tombaram sorrindo, tombaram dando um viva pra ti amado pago sulino e pra liberdade, embora com o próprio tombar. Querência de flores em jardins, querência da flor mulher, querência da Lua cheia em esplendor, querência do Sol a pino, querência do mal-me-quer, querência do bem querer! Vedes, ó querência, o brilho no olhar da tua gente? Querência do indômito cavalo e querência do indomável peão, ó querência, és o lugar onde o tigre abriga o leão!

Pois, nessa querência indômita, num desses recantos pós-debruçados, uma plêiade de poetas fez revoada, acampou com alma e coração, com ares de bulício, cantarolando nos mais diversos tons, em frenética concorrência com os habitantes do lugar. Os cantores nativos, instigados, jamais silenciaram e denodadamente, demonstraram sua pujança diante dos intrusos poetas, duelo bem posto, duelo bem duelado, sem vencidos e sequer – vencedores. Um belo espetáculo do agrado de ambos os lados.

O Acampamento da Poesia completou onze anos ininterruptos de encontro de poetas. A maioria deles, gente comprometida com a discussão do mundo do poema, não se trata apenas de pessoas reunidas para construir versos, isso são coisas que podem ser realizadas em qualquer lugar e a qualquer tempo, mas sim, de um grupo cada vez mais consciente da sua missão de contribuir e alavancar o tema, debatendo-o com profundidade – sem que haja um dono da verdade. Dos mais veteranos participantes desses momentos de acirradas e profundas manifestações, dentre o poético, romântico, o filosófico, se extraiu o néctar na construção de uma identidade de poetas em defesa o fazer poético.

De que importa o tempo – intensa chuva; sol ardente; nuvens nimbos ou a Lua cândida, sempre haverá uma razão para o Acampamento, pois é lá onde o vento espalha e reparte as mensagens dos “peregrinos poetas d’outras paragens”, e cada participante sente a magia e se encanta “com as rezas desses nobres visitantes”, ávidos em sentar sobre os ombros dos ativistas culturais.

Esse evento que superou uma década e sobreviveu, precisa mais do que nunca, se fortalecer nos vínculos de cumplicidade dos seus poetas e nas razões e motivos destes para manter essa auréola, fortalecidos no lirismo e no alumbrado. Haja neles, lucidez e prazer em amealhar os sentimentos matinais que passeiam sobre as campinas orvalhadas. Ainda, se firmar nos arreios da garra, persistência e pertinácia para manterem unidos e comprometidos com a causa e os fatores determinantes para ligar os elos que unem os poéticos pela verbosidade.

O Acampamento da Poesia é um projeto pensado e gestado na Academia Santo-angelense de Letras (leia-se – Mário Simon), mas “edificado” conjuntamente com a Secretaria de Educação, Cultura, Turismo e Esportes do município de Entre-Ijuís, e o Parque das Fontes, nesta edição, apoiado pelo Sicredi.