Os pirilampos e as luzes dos cataventos

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 Outrora os pirilampos transformavam o espaço noturno numa fascinante paisagem. Talvez a gurizada e a mocidade de hoje não tenha a mesma oportunidade de dantes, em ver um maravilhoso espetáculo proporcionado pelos pirilampos. Os privilegiados de ontem devem lembrar perfeitamente, quão lindas se tornavam as noites pós-invernia, talvez o encantamento maior ocorresse no período natalino, mas é bem verdade que esses momentos eram ternos para a criançada.

Aliás, a gente praticava atos inadequados com esses ínfimos distribuidores de candura, pois, inadvertidamente, “caçávamos” os vagalumes, e esses indefesos insetos eram colocados em vidros transparentes para apreciarmos de perto suas luzes relâmpagas, o nosso delírio. Mas é bem verdade que não os matávamos, eles eram soltos e na noite seguinte a cena se repetia: eles voavam, piscavam luzes, eram presos pela gurizada e depois, retomavam sua jornada. Os(as) leitores(as) veteranos(as) devem ter presente na memória, esses tempos idos.

Corria o tempo na luz dos antigos candeeiros, alguns tinham por combustível a graxa, outros, a querosene, também a óleo diesel, além de outros inventos da época. Em período contemporâneo, vieram os lampiões denominados: liquinhos! Esses tinham por combustível, o gás. Havia um camisinha (não é essa que você imaginou) onde se concentrava o foco de luz, diziam que “queimava”. Eram alimentados por bujões, tipo: dois quilos. A poluição ambiental era aparentemente, menor. Isso, certamente, porque não ficava o cheiro do óleo, querosene, graxa, mas sim, o do gás.

Entretanto, ainda ao tempo dos mais antigos candeeiros, já existiram os cataventos! Ocorre que estancieiros, homens e mulheres (está pensando o quê: a mulher teve seu espaço desde antigamente, esse pode ter passado despercebido de muitos, mas que existiu e existe, não há dúvidas, lá se vão léguas de sesmarias) com maiores posses (igualzito aos tempos atuais), possuíam seus cataventos, gerando a própria energia elétrica. Causa espanto que após a instalação da energia elétrica no meio rural, aquele modo de produção de energia tenha sido abolido. Quando da instalação das redes elétricas, surgiram comentários de que não poderiam continuar a geração própria, se verdadeiro, “seria criminoso”. Talvez não fosse compensador, do contrário…

Viver também contempla a nostalgia e essa está presente na amplidão, nas longínquas paragens, com a presença de tênues luzinhas, geradas através dos cataventos, que a seu tempo, sua época, transformaram 0 cenário dos campos em alguns pontos, causando um enorme impacto, ainda que, somente houvesse a presença de algumas lâmpadas na vastidão do breu! Por certo, a notícia se espalhou pelos rincões e nas coxilhas ocorreram vigílias, visando elucidar os enigmas da anunciada presença de pirilampos gigantes, com luz permanente. Pensando bem, a novidade na época, deve ter rendido muitos causos e motivos para encontros nos bolichos de antanho.

Para os piás da época, a novidade também se manifestava durante o dia, pois, todos queriam conhecer os novos inventos. Logo descobrimos que a força dos ventos, ao mover as hélices dos cataventos, era algo semelhante a um brinquedo da nossa infância, quando nos utilizávamos das sementes da guajuvira, é que essa possuía um formato bastante parecido, por isso, a força dos ventos as levavam quilômetros, num ardil astuto da natureza para espalhar sementes e semear novas árvores. A gente colocava tais sementes na pontinha de um raminho finíssimo, e aí se empreendia uma corrida fazendo-a girar pelo deslocamento do ar.

Não era um brinquedo eletrônico, não tinha sofisticação, não tinha grife, ainda que sua era: Guajuvira! Porém, aguçava a imaginação, exercitava a coordenação motora e o corpo dos piás (naqueles idos, era difícil se ver guri obeso), não tinha custo algum, não poluía com luzes, sequer deixava resquícios de lixo, quando destruído. Era um bom motivo para de entretenimento, incitava a participação, o envolvimento e a competição. Nivelava todos os participantes. Simples, quiçá, apropriado.