Outros Tempos – parte I

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Dom Tostóvio era morador lá do rincão da Cotovia. Naquelas plagas, tudo era lindaço, desde a natureza ostentando espécies arbóreas diversificadas e, se diga de passagem, desde as frutíferas nativas às madeiras de lei. Havia de tudo, para dar um tom, guajuvira, angico, pau-ferro, ponteavam as construções, os aramados, enfim, tudo o que dizia respeito à qualidade. Do alto do cerro (bem parecido com o do Jarau), desciam fios de águas, serpenteando ao vento, para o deleite do riachito que se “construía” ao pé do morro, as águas em queda exalavam brisas refrescantes.

A festa da passarada, de cunho constante, formava a própria imagem daquele recôndito, espécies em permanente sinfonia, alaridos desconcertantes, cantares magistrais, sons alegres, outros de contenção, uma euforia sem fim movimentava as redondezas do Cotovia. A região prosperava, senhores da produção realizavam investimentos, instalaram cataventos e a energia elétrica se mostrou verdade. A peonada do Cotovia, orgulhosa de si, realizava cursos para melhorar o desempenho dos ofícios, a boiada engordava, as montarias ganhavam viço, as coxilhas se tornavam verdes, depois adoiravam para o brilho dos olhares campesinos e das mesas dos urbanos.

Nas redondezas do Cotovia, todos se conheciam, sabiam um da vida do outro, cada qual respeitava o alheio e as propriedades nem sequer necessitavam de aramados delimitadores, era apenas no fio de bigode. Por aqui passa a nossa divisa, e os produtos, ainda que da mesma espécie, eram colhidos por seus verdadeiros donos. Cada pé de planta merecia o reconhecimento do lindeiro.

A comunidade praticava atos de fraterna comunhão, quando um necessitava de víveres de vacuns e procedia na carneada, repassava para alguns vizinhos determinada quantidade, recebendo desses o retorno na mesma moeda, quando estes procediam no mesmo sentido. Essa prática habitual entre os campesinos irmanava as gentes, resolvia as questões da falta de armazenamento e conservação dos víveres, exceto a carne frita, pois essa era conservada nas latas de banha, enquanto o peixe frito ia para vidros com vinagre! Oigalê, o conhecimento empírico resolvia muitos problemas.

As gentes rurais também se serviam dos mutirões (puxirões), auxílio mútuo de uns para com os outros, visando agilizar os serviços e encontrar meios de resolução das atividades comuns. O campo possuía ares fraternos e conjugação de esforços se robusteceu, formando vilas, associações, cooperativas, congregações religiosas, agremiações desportivas, sociais, greis político-partidárias, construíam escolas, cediam espaços e assim por diante.

Os possuidores de glebas maiores empregavam os filhos de famílias mais numerosas e que não dispunham de maiores oportunidades, senão aquelas relativas ao meio comum à época, todavia, mão de obra, no caso, ociosa! As diversões comuns da região eram as atividades religiosas, desportivas, carreiradas, danças, festas de cunho folclórico, comemorações de datas dos santos protetores. Um tempo para ser relembrado na memória dos ancestrais. Algumas famílias enviavam um ou mais filhos para as cidades em que havia educandários. Nos rincões feito o Cotovia, havia lá os seus manducas, mas também havia ordem, respeito e disciplina.

Certa tarde as aves destoaram! Dom Tostóvio, sentado no seu cantinho predileto, suspirou fundo, para o espanto de dona Pafúncia, recostada na janela, atitude incomum! Reparou no seu parceiro de tantas jornadas e sem querer esvaziou o pulmão. O que haveria de ser – pensou! Manteve a postura e soturnamente reparou em Tostóvio. Esse, feito um caçador, espiou Pafúncia, lançou os olhos mais uma vez sobre o paraíso das aves, dos bichos, deles próprios. Num sem menos, as aves em disparate dispensaram a banheira e, em voos mais ágeis, desapareceram. Os dois assistentes, com ares incomuns, se fitaram em profundo silêncio!… Segue na próxima semana.

A noite deitou em completo e profundo pesar. Na manhã seguinte, estranhamente, nada de aves e bichos. Dom Tóstóvio espichou o olhar e falou contundente à sua confabulante: o que haveria de ser! Ela, desconcertada, manteve o contumás, boca calada. A manhã fugira pelo vão dos dedos ao mesmo tempo em que se tornara uma eternidade. Ocorre que na parte vesperal o burburinho aumentava significativamente.

Quanta monotonia e uma eterna. Ao cair do crepúsculo, os guardiões da pampa se fizeram em alaridos e o casal que muito não se enlaçava ficou de mãos pegas com elo de corrente. Avistaram ao longe uma multidão, algo nunca naquelas paragens. Sobre um coxilhote, o grupo fez parada e Dom Tostóvio não se encorajou em averiguar de perto a situação, embora fosse conhecido na região por seu valentia.

Uma noite interminável que nunca transcorreu! Antes, Pafúncia se esmerara no jantar, “abusou” no uso do tempero que cultivava na sua horta e não havia horta igual à dela, pois conhecia seu Tostóvio só no respirar, sabia que haveria encrenca e da grossa. Tentou, de todas as formas, amenizar a questão!