Outros Tempos – parte II

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…se a noite deitou em completo e profundo pesar. Na manhã seguinte, estranhamente, nada de aves e bichos. Dom Tostóvio espichou o olhar e falou contundente à sua confabulante: o que haveria de ser! Ela, desconcertada, manteve o contumás, boca calada. A manhã fugira pelo vão dos dedos ao mesmo tempo em que se tornara uma eternidade. Ocorre que na parte vesperal o burburinho sempre aumentava significativamente.

Quanta monotonia! Ao cair do crepúsculo, os guardiões da pampa se fizeram em alaridos e o casal que há muito não se enlaçava ficou de mãos pegas como elos de corrente. Avistaram ao longe uma multidão, algo nunca visto naquelas paragens. Sobre um coxilhote, o grupo fez parada e Dom Tostóvio não se encorajou em averiguar de perto a situação, embora fosse conhecido na região por sua valentia.

Uma noite interminável! Antes, Pafúncia se esmerara no jantar, “abusou” no uso do tempero que cultivava na sua horta e não havia igual à dela, pois conhecia seu Tostóvio só no respirar, sabia que haveria encrenca e da grossa. Tentou, de todas as formas, amenizar a questão!

A bem da situação, dom Tostóvio não pregou o olho e a velha companheira nem sequer fechou os seus. Essa foi a mais longa noite do casal, porém, nenhuma palavra. Na linha do tempo andavam tropicando nos oitenta anos. Andavam par e passo.

Nem bem o primeiro canto do velho carijó (um despertador) ecoou, o chefe se pôs em pé e, com ares de prontidão, encostou a taquari na parede, próxima da janela, tomou o facão, esse já gasto e vencido pelo tempo, eram as armas que possuía, além do bodoque (e a segurança nacional? – ingenuamente, insinuou!). Seu exército, composto por ele próprio e Pafúncia! Mas com a “velha” não podia contar. E o inimigo! O inoportuno? Pelo antevisto, mais de uma centena. O gado recolhido ao seguro antes do sol descambar, pensava, estivesse livre de alguma atitude premeditada dos intrusos. Quando uma lágrima fez morada no rosto, lentamente abriu uma fresta na janela, aí uma chuva delas o banhou! De seu rebanho, tinha certeza, faltava um lote. Desgraçou o mundo com impropérios.

Por costume, o primeiro passo do dia consistia no cevar do chimarrão, mas este ficou ali, recostado. Um nó de angico estalava naquele fogão cinquentenário, que seria substituído antes da invernia, com a venda de algum vacum, parecia entender o patrãozito, em seu choro heptagenário. Jamais alguém o vira lagrimando em toda a existência. Era duro na queda e nenhum perigo haveria de fazê-lo recuar. Isso, noutros tempos (argumentou consigo). Fosse quando da gravata colorada, enfrentaria um a um, mas agora, disse a si, minhas forças definharam. Os filhos andam longe, embrenhados na tal cidade, nem sequer se lembram da nossa existência. Alguém…

Quando o dia fez morada, a desgraça mostrou a sua faceta, sobre a mais bela coxilha, havia um acampamento e não era desses para piquenique! Arriscou o olhar mais adiante e a visão lhe falhou, uma porção de cabeças das suas tropinhas… Apontou na direção delas e Pafúncia soltou um soluço e desandou. Socorreu-a, contudo, parecia que do desfalecido não retornaria. Refeita, esbravejou assustadoramente e se lançou na direção dos invasores. Num gesto impulsivo, dom Tostóvio conseguiu interromper a investida, retornando-a ao rancho.

Naquele dia, as aves e os bichos se fizeram ausentes, as águas silenciaram as cantatas, o Sol se escondeu, o dia restou “indolente”, a Lua não retornou, as estrelas fizeram greve, o infinito fez esconde-esconde, os sapos não coaxaram…

Enquanto nos ribeirões escorria o sangue dos vacuns, a tristeza das coxilhas, a verdade mais que centenária se esvaía, dos olhos d’água gotejavam lamúrias, autênticas súplicas ao além! … ou teria outrem? Prossegue na próxima semana.