Outros Tempos – parte III

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…O dia sangrou e “passou sem passar”. Dom Tostóvio acompanhou o rei Sol em seu percurso e nesse ínterim planejou, matutou, “matreirou”. Imaginou na sua cacholinha que jamais meteria o focinho nem em riba do menor coxilhote, até porque alguém poderia estar de tocaia e ele bem que apreciava a vida, isso agora, por que em outra época! Um bando desconhecido a gente não enfrenta de peito aberto, no meio deles, sempre tem algum medroso, “encagaçado”, e esses, ainda que não tenham boa pontaria, errando, podem acertar a gente, e um bando sempre será um bando.

A ausência de aves e bichos deixou nos ares um silêncio profundo que penetrou nas têmporas e se trancafiou nos baús, enquanto os segundos se transformavam em eternidade. Esse fato deixava Dom Tostóvio ainda mais encasquetado, aquele bando e a natureza! O que sabia ela do bando? Nada!

No seu campito que tanto lhe aprazia, no qual residia desde o casório, os cuidados iam além, havia esmero, capricho, reparava os aramados, consertava o rancho, o galpão estava zelado, o pasto se oferecia lindo, sequer um caraguatá, nem mesmo outras ervas daninhas, dava fim em tudo, os açudes com o nível d’água no máximo, havia coxo para o gado beber água corrente, cercara o açude para que o gado não adentrasse, evitando o assoreamento.

Agora, ele e a velha Pascácia, solitos, no lugar onde criaram seus filhos, haveriam de pelejar contra quem? Desconhecia! Ao longo dos tempos, Dom Tostóvio aprendera a manejar seus instrumentos de defesa, em alguns era considerado um adestrado, exímio, diziam outros. Contudo, ele mesmo percebera, havia boas luas, que o guapo de então, perdera forças e agilidade, mas isso não confidenciara a ninguém, afinal, se tornasse público, perderia a sua credibilidade. A gente passa trabalhando e nem perceber o tempo e a vida fugir (retrucou para si).

Reparou na velha, afinal, tivera ela um desfalecer no dia anterior, percebeu que estava apoucada nos movimentos, parecia meio trôpega. Andava daqui pra li, espiava pelas frinchas, olhava de esguelha, ainda antes do almoço, avistou-a afiando uma faquinha, lembrança do tataravô, meteu-a no vestido, junto a cintura, antes, porém, se certificara de que não fora vista, por certo estava preparada para a peleja.

Enfim, a noite caiu tal um carvão, contudo, Dom Tostóvio embalara Pascácia na cadeira de balanço, presente do seu pai, nos idos que iam longe, além dos morros, deixando-a em profundo sono, aproveitando o momento para percorrer com os olhos sobre o que ainda restara da sua tropinha e o bando. Ele possuía um mirante natural, desconhecido até mesmo da “velha”, localizada num caponete, onde plantara uma trepadeira e junto de uma figueira e nela havia uma escada e para chegar até lá, escavara um túnel. Tomou pé, fez um balanço da situação, avistou os invasores, contou um número exagerado desses “infames”. Impossível enfrentá-los! Novamente se interrogou, quem são, donde vieram, o que pretendem, por que na minha propriedade?

Passara o dia matutando e agora, avistando todo o bando, traçou um modo de ação, não iria para o embate, pelo contrário, iria espionar a catrefa durante a noite. Retornou ao rancho, saboreou o jantar posto à mesa, preparou um chá, mas na verdade eram dois, espécies diferentes, Pascácia nem desconfiou, dormiu de ressonar. Bueno, disse a si, agora vamos fazer a nossa parte! Saiu aos despacitos, na sombra da noite, enquanto a Lua dormia, Dom Tostóvio se transformou no maior detetive que o Rio Grande de São Pedro já conheceu! Prossegue na próxima semana.