Outros Tempos – última parte

0
136

Sob o ressonar de Pascácia, sequer a noite silenciosa ouviu os passos de “Jacques Douglas”. Embora homem do campo, na sua juventude Dom Tostóvio, certa feita, lera uma edição da revista Jacques Douglas, um investigador e desde a invasão, sem melhor recurso decidiu ele mesmo investigar a estranha e inusitada situação, pela qual e ele e a sua “velha” estavam passando.

Dito e feito, igual um graxaim, sorrateiramente (em sua propriedade), se aproximou do bando e foi possível desvendar, durante a noite, toda a orquestração que havia e quais as figuras que se escondiam por detrás do grupo invasor, ainda, saber dos objetivos, que eram diversos e as metas que pretendiam alcançar. Ademais, o humilde campesino restou estupefato, mas a sua grande surpresa ficou por conta das pessoas envolvidas com os fatos.

Ocorre que na investigação secreta de Dom Tostóvio, no fervor da noite, entre goles e a carne dos seus bovinos, a língua dos malevas foram dando dentes e ele “saboreou” os resultados da ação investigatória. Custou acreditar nos motivos de uma invasão, o porquê das matanças dos animais, quem deveria ressarci-lo, e segundo levantou, ele seria indenizado, rês-por-rês, além disso, todos os estragos seriam reparados. O matuto campesino, quando, de alegria, ia soltar todo o ar dos pulmões se deu por conta de que se encontrava de campana e teria que segurar o ar sob pena de ser descoberto. Diversos bombeiros procediam na vigília do grupo, mas jamais o encontrariam. O astuto era ele! Estão pensando o quê!

Quando a noite foi perdendo as cores do picumã, tratou de retornar ao rancho e lá ainda encontrou Pascácia em profundo sono. Tratou então, de espichar a carcaça, já doída e logo o sono se apossou. O rei do dia já se adiantava no horizonte quando acordou meio assustado e a “velha” com o mate meio lavado, tratou de encilhá-lo, tomou a chaleira e serviu-o com olhos de preocupação. Estás doente “veio” e ele arregalou os olhos, respondendo de sopetão: não, não! Deu de ficar dormindo até essa hora. Foi o chá que tomei a noite! Nenhum piu! Disse a si. E assim foi.

Enquanto mateavam tentava encontrar uma saída para a questão. Devo levar ao conhecimento das autoridades, devo silenciar! Afinal, já vi tanta “cousa” na minha vida. Dando conta as autoridades eles podem me condenar, afinal, a corda rebenta na parte mais fraca. E se eles estiverem envolvidos?! Há poucos dias ouvira um vizinho dizer os condenados, processam os bons. Até porque alguns nomes que desfilaram no rosário da noite, ele sabia bem, há tempos andavam envolvidos com alguns assuntos perigosos. Mas e os outros! Num estalo da memória, soltou um suspiro e Pascácia quase caiu do cepo, encarando-o, ele retrucou, aquele chá faz efeito.

Dom Tostóvio, se considerou o maior dos detetives do Rio Grande de São Pedro, mal sabia o bom campesino, que as suas descobertas, embora valiosas e lhe possibilitaram desvendar fatos, conhecer algumas pessoas envolvidas com invasões urbanas e rurais, possuíam um fim totalmente diverso, por se dizer, põem o ovo num coxilha e vão cantarolar na várzea, para enganar bobo. O ingênuo, porém humilde cidadão, convictamente, imaginava ter descoberto o ovo de Colombo, mas qual nada, somente a sua ingenuidade poderia concluir por tal! Ora, bom Tostóvio, foste igual a outros tantos de nós – bucólico.

Entretanto, Dom Tostóvio, por questões óbvias, guardou para si os resultados da secreta ação desenvolvida e ainda se autoelogiou, merecidamente. Pôs-se em pé, de costas para a confidente de sempre, firmou os olhos no além, respirou fundo, as lágrimas lhe inundaram o rosto e as faces já enrugadas, parecendo curvas de nível, lançavam-nas em todos os sentidos, enquanto via seus filhos, netos e bisnetos, sob a implacável marca que jamais desejaria ao pior inimigo. Não resistiu, sem dar um único passo, acenou para Pascácia e ali mesmo tombou!