Rancho de Capim

0
118

Ao longo de um corredor ele montou um ranchinho de capim, no longo do imaginário, afinal, a bombacha remangada e os pés descalços retratavam-no fielmente e sua autenticidade não lhe permitia, em momento algum, ostentar outra verdade que não, a própria. Onde iria edifica-lo, com quatro estacas? Nada possuía! Terras infindas se estendiam na vastidão, quanto mais perambulava, mais longe sua vista se estendia. Nas andanças, quantas vezes sentira uma vontade incontida em plantar seu ranchito, em tantos lugares aconchegantes, mas sempre se conteve, ante a verdade inconteste, da falta do registro da terra. No alheio…!

Aprendera ainda piá, nas prosas do velho avô (o pai tombara defendendo as fronteiras), nas charlas ao pé do fogo, quando a manhã mostrava os primeiros fios de claridade e na boca da noite, sob meia lua e também quando ela se escondia por inteira, que o homem de valor, ainda que na dor sentida da fome, não mete a mão no alheio. Quando a lua vinha roliça, o vô aproveitava pra trançar cordas, donde ganhava seus trocados, na verdade, gostava do ofício de guasqueiro, os fazendeiros da região sabiam da vocação e do capricho nos trançados, porém, ninguém lhe destinou um eito para erguer seu rancho.

O netinho sentia a dor sentida do avô, toda vez que seguia seus passos para entrega de mais um trabalho, distava quilômetros uma propriedade da outra, eles, passa a passo, percorriam as lonjuras, sempre na esperança de ver a cor das patacas tratadas pelo trançado e junta-las com outras bem guardadas, no bocó da guaiaca, a fim de comprar ossos, graxa, sal e farinha. O menino, muitas vezes vira, os olhos do avô lagrimando, imaginava fosse a fumaça do palheiro, sempre presente nos beiços do veterano. Diziam, do octagenário guasqueiro, ser um fala sozinho e juravam, ser visitante de uma tapera, depois da meia noite!

O ancião perdia mais tempo, indo e vindo na propriedade dos estancieiros, do que com o tempo gasto nos trançados, no que era exímio, ágil e mui guapo, seus comedidos passos, ante as definhadas forças, possuísse pelos menos um pilungo, perderia menos tempo, mas se assim fosse, onde o deixaria pastando! Ao lado do sonhado rancho? Nos seus falares a sós, talvez, falasse com Deus e suplicasse pela vida do netinho, seu único companheirinho, nos confins dos corredores, rogando por melhor sorte ao pequenino, já traquejado nas lides com couro, sorria solito, vendo-o trançar cordinhas para laçar, piolhos, pulgas, até uns maiores, a fim de laçar lagartos.

Quando o leva e traz contou-me esses fatos, debruçou em chusmas de lágrimas, pois soube que o velho (o avô), lagrimava esperanças, de um dia alguém das redondeza houvera lhe destinado um lote, fosse pequenino e na margem de um sangão, até permissão pra construir seu rancho de capim, com paredes de taquara, rebocadas com argila, esterco e suor, portas de couro, onde o netinho poderia fazer morada. Nas suas falas solitas, estava postulando ao Criador, algum benfazedo. Na tapera, suplicava por mais uns anos de vida, até que o menino tivesse mais tutano e fosse capaz de prover a sua defesa! Partiu sem ver seu ranchito, mas morreu digno de esperança!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here