Sonhos de guri

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Um guri dos fundões, de tanga índia, corria alegre pelas campinas, solito qual filho de perdiz, porque naquele distante, distante ficava o próximo rancho, onde morava um nativo, com quem dividia todas as terras da redondeza, ainda que em sonhos. Dançava com as folhas, voava com os pássaros, no topo da coxilha curtia o balouçar das folhas. Ficava a imaginar, quem estaria movendo-as, isso lhe causava inquietação. Por vezes, estavam elas imóveis, mas num repente, do nada, estavam dançando louca e lindamente. Vivia alegre e feliz com aquelas proezas.

Recolhido no seu imenso reduto, ele desconhecia a grandiosidade da terra, jamais vira uma cidade, apenas um vilarejo de meia-dúzia de casebres. Olhava o horizonte, tão ínfimo, visto do fundo do vale, contudo, avantajado no visual, quando olhado dos montes, essa diferença intrigava o menino, ninguém lhe disseraporque a terra cresce visto do alto. Embora ainda pequenino, se perguntava se havia algo depois das matas. Montado no seu peticito, cavalgada a esperança de alcançar a estrela encostada no monte, nas prosas com o amiguinho dividiamas terras, as águas,as estrelas edecidiam qual delas tomariam nas mãos.

Por vezes, olhava para os pais e sentia uma vontade imensa em ser do tamanho deles. Questionava as diferenças! Sentia uma estranha sensação, ao ver a silhueta do pai se perder no horizonte. A tristeza lhe invadia, porém, da tristeza não sabia. Também ele, desaparecia dos olhos desavisados da mãe, e ela, por igual ao filho, desconhecia do mundo, ali nascera, crescera nos moldes dos animais, correndo campos, matas e num dado momento, encontrou o pai do seu filho, a partir daí um seguia o outro e outro seguia aquele, certo momento, o ventre se avolumou vindo a nascer esse piá taludo.

O pai demandava dias para retornar, então, fazia das pernas deste, cavalinhos, matando a saudade ou essa estranha sensação (ninguém lhe dissera o era saudade), masaquele que lhe ampara. Gostava de andar com o pai, pois ele lhe dera aquele petiço, com o qual brincava todos os dias e ainda deixava que o montasse. Depois de alguns dias, novamente ele via ao longe, a imagem daquele homem seguindo rumo ao nada, fixava o olhar até a última curva que o engolia. Para onde iria? Por que não o levava e nem mesmo acenava!

Novamente o piá, chamado vaqueano, sem melhor nome, Vaqueano ficou de nome, sumia por horas, quando não, dias, reaparecia sobre a coxilha, seu lugar predileto e se punha a prosear com as folhas em danças. As tardes em despedida lançavam imagens enrubecidas, tinha gosto ver aqueles momentos tão seus. Ao ver o dia lançar as suas lágrimas, logo após, surgiam as estrelas e lua com os seus lindos brilhos.

Feito mocito, Vaqueano soube de lutas, de guerras e de homens que pelejaram. Mas nunca soube o nome do seu pai, sequer onde se meteu. Mas continua sonhando em dividir com o seu amiguinho, as terras, as estrelas e as matas. A coxilha e as folhas em danças ainda o fascinam… os sonhos de guri.