Um piazito a sonhar

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Havia um piazito a sonhar! Um sol escaldante em plena invernia; Uma réstia de sol na escultura do breu; A lua embelezando a feiúra; As tardes silenciando com o romper das manhãs; Noites se aquietando nos alvéolos dos sóis desérticos. Piazito sonhador!
O piazito, ingênuo e telúrico a fitar o horizonte infindo, sem entraves pro olhar. Quando se ponha a pensar, suspirava os doces perfumes campesinos e orquestrava com maestria suas concatenadas orquestras. Embalava os dançantes em melodias ritmadas, entrelaçava as noites com os dias produzindo estranhas imagens, mesclava a dor e a alegria harmonizando os extremos, e fundia o amor com o ódio colhendo a compreensão. Eta piazito!
Ao mirar as gargantas das grandes montanhas, navegava sobre elas planando com extrema facilidade. Brincava entre as nuvens circundando umas e outras com uma habilidade invejável. Escalava as montanhas, feito os falcões. Irmanava-se com as emplumadas, para os banhos vesperais. Repousava sobre as aguadas dos funis. Inocente esse piazito.
Palpitava em anseios ao ver o enlace nas matas, ora das emplumadas, outra, nos moldes dos quadrúpedes, mas o que mais o instigava eram os alaridos dos gatos e os uivos dos graxains, em romances noturnos. Um piazito a pensar!
Ao rondar um vilarejo cheio de “cousas,” diferentes em cores, luzes, edificações e tantas outras engenhocas, sentado entre as folhas, na copa de uma árvore sobressaída, avistou uma movimentação gigantesca de seres andejantes, mirou com profundo cuidado, instigado, não quis acreditar, tão iguais a si, mas com o corpo envolto, tornando-os diferentes. Mirou-se numa folha com gotículas matinais, dessas, filhas do orvalho, nela refletia a sua imagem com perfeição, nada havia de rejeição. Um piazito do complexo.
Lentamente se achegou ao local, antes, porém, se anunciou em folhas e flores, alentando a natureza de lhe dar guarida. Defronte a um assentado de pedras, avistou algo instigante, trazia, segundo as informações obtidas depois, ao pé da montanha, um chamado calendário, trazia anotações e sequência em numeral! Assim procediam em anotações, os ditos humanos, dando destaques para certas datas. Com a cautela necessária, postou-se de retorno ao seu habitat, consultou os sábios das matas e deles obteve luzes, diziam, eles que os chamados urbanos – “os civilizados” –, procediam nos registros, por não confiar na própria memória. Um piazito instigado!
Aguardou o momento oportuno, numa reunião dos grandes mestres das florestas, o do pico da lua, nesses, talismãs da comunicação interplanetária, elevou-se em audição (eis-lhe concediam a presença silente, por menino conhecido), sustou ele, até mesmo a transpiração, as quedas das folhas despidas de vida e seus farfalhares cessaram, e a mãe natureza se prostrou em prece, anunciando um novo tempo. Uma nova era, o homem terá outra missão: será ele quem dará a luz! Um piazito em deleite!
Enquanto o piazito ainda se desmanchava em risos! O homem dará a luz!?! Sim, disse ele, o homem dará a luz a uma ideia brilhante, algo assim, inovador, onde cães não ladrem e de homens virtuosos. O homem gerará um novo cérebro, dotado de quimeras alvissareiras, carregaditas de virtudes benévolas, quitandeiras do bem. Esse é o um novo alvorecer! Doravante, disse, os ditos humanos transmigrarão para uma nova era. O piazito saiu aos pacitos da mansidão, ainda em risos, espargindo o néctar do porvir, seguido de insetos, aves e animais. O momento dos humanos virá depois…! Preparem-se, bradou!