Uma cachoeira pras almas

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Foi à luz do luar, num sábado à noite quando alguém nas imediações pronunciou: é preciso construir uma cachoeira pra almas. A frase afundou na razão e se entordilhou nas entranhas da emoção. Enquanto a razão buscava uma lógica, a emoção corcoveava! Suspirava! Queria galopar! Uma cachoeira pras almas. Onde construí-la? Nalgum lugar especial, as almas merecem zelo, cuidado e carinho. Pode ser no topo do Alpes! Talvez no Salto Pirapó! Quem sabe no cerro Nhacurutum ou nalguma coxilha erma da pampa, mas poderia ser também, nalgum terraço bem cuidado em Santo Ângelo Custódio.

A frase martelava e ainda martela – uma cachoeira pras almas! Lindo, lindíssimo! Alma nem todo vivente tem! Mas bicho, sabemos – tem alma. Eles, os bichos são carinhosos, adoráveis, amigos, até fiéis amigos. Os pássaros são dotados de almas. Algum vivente fica devendo muito para os bichos e os pássaros. Eles acreditam na gente, confiam, andam próximos, são inocentes. Fazem paródias, cantam belíssimas canções, revoam. Talvez estejam se exibindo para os humanos na esperança de aplausos para suas pirraças, no entanto, os humanos – nem aí.

O imaginário toma as rédeas e traz ao lume um cenário fantástico – um açude de águas cristalinas, feito esses cristais reluzentes, transparentes, nele, uma multidão de almas renovando as forças num banho em fins de tarde. Banheira para recuperar das canseiras. Ah! Orlando as matas num rincão escondido onde a saudade faz pousada. Um entrevero de almas cantantes aliciando uma multidão de espectadores invisíveis. O açude! As almas! O banho! O rejuvenescer da alma das almas. Uma profecia poética hilariante! As almas se banhando com as asas, qual os passarinhos. Até o Criador tira uma folga para apreciar tamanha candura! Quiçá, estivesse também disposto aos afagos das asas das almas.

Para você que expressou essa mensagem cheia de lirismo e ternura, há de banhar-te junto com as almas e delas receberes – um banho com incensos nativos das flores ilustrantes dos nossos campos. Veja-te em banho nas águas/cristais sob as carícias das asas das almas, carícias restauradoras ante o calor dos dias tórridos. Bendiga-te revitalizada nas águas das cachoeiras pras almas tão inocentes, ainda que ilusória – uma banheira, fruto da tua mente bendita, louvando a vida nos encantamentos das vestes nostálgicas dos cílios serpenteando os arroios da sensibilidade.

Inexistem rubores nos rodeios de almas, sequer malquerenças, há os benfazejos bem-quereres e alegrias enebriantes, sem tédio, nem vaidade! Junto das cachoeiras pras almas florescem os jardins em matizadas cores e as flores emborboletadas, se ensaiam para lançar os mais sofisticados pruridos, e o colorido das borboletas deixa o singelo – purpuramente, belo! O canto das borboletas jamais macula, tonaliza suavemente e paira nos ares, onde as aves do arrebol, agradecidas silenciam. Até os cantores de Viena suplicaram reserva de espaço para ouvir o espetáculo da mais nova orquestra denominada – Borboletas Cantadeiras da Cachoeira Pras Almas.

Diante de tantos afazeres cotidianos, se houver a possibilidade de lograr o tempo, construiremos uma cachoeira no coração de quem espargiu a ideia, um espaço mágico para a fidalguia!