Gana Missioneira

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 Música – a pouco mais de meio século, a música popular gaúcha não possuía maiores expressões no cenário artístico riograndense. Suas execuções eram restritas a circos e alguns espetáculos em cinemas ou salões do interior. As condições de apresentação eram amadorísticas e enormes as deficiências técnicas (som, iluminação, arranjos, etc…).

Os artistas, individualmente, em duplas (muitas vezes) ou ainda em pequenos grupos, procuravam à sua maneira levar à população um pouco da musicalidade do Rio Grande do Sul. A partir da fundação do 35 CTG em 1948, em Porto Alegre, o estado passou a presenciar um fenômeno de busca das origens, valorização de sua história e preservação de sua identidade. Os programas radiofônicos surgiram em massa, dando maior expressão a música regional, e com isso os músicos passaram a se dedicar a criação de composições que falassem da cultura, do folclore e da história gaúcha. Ao final da década de 50 já possuíamos um considerável acervo de música popular ou regional. Desde então, houve uma progressão no surgimento de composições e a criação sucessiva de conjuntos, grupos musicais e programas de rádio e TV, dedicados exclusivamente à música riograndense.

Gauchinha Bem-Querer (Samba Canção de Tito Madi) – no ano de 1957, o cantor romântico Tito Madi, de São Paulo, foi convidado a participar em Porto Alegre, dos festejos de aniversário da Rádio Farroupilha. Após sua apresentação, alguns amigos o convidaram a tomar um ‘chopinho’, num dos bares com mesas ao ar livre, existentes na zonal sul da cidade, à beira do Guaíba. Motivado pela beleza local – olhando a meia distância os contornos do centro da cidade, o visitante pegou o violão e começou a dedilhá-lo, e uma nova canção nasceu. “Gauchinha Bem-Querer” foi gravada a seguir, acoplada a uma outra canção inédita de Tito Madi, “Chove lá fora”, tornando-se um sucesso nacional. Conseqüentemente o Brasil inteiro ficou conhecendo de imediato a canção ‘gauchinha-amor’, que num de seus versos diz: “…Rio Grande do Sul…vou-me embora sem amor, vou-me embora do Rio Grande, vou tão só com minha dor. Levarei a lembrança comigo, de um olhar que de olhares nasceu, de um amor que depressa floriu, mas tão cedo morreu…”.

Canto Missioneiro – o festival oportuniza, além do surgimento de novos talentos, a apresentação de artistas consagrados e integração entre o meio artístico, a singela ocasião de reencontrar amigos ou então conhecer novas pessoas, desfrutando da oportunidade do diálogo de experiências. Na quinta-feira, comentava com a cantora Loma de um projeto nascido há 10 anos, que marcou a musicalidade do Rio Grande do Sul. Na época, Luiz Carlos Borges reunia no palco alguns amigos, para juntos resgatarem diversas pérolas musicais do final da década de 50. O show ‘Palco do Rio Grande’, era composto por Shana Muller, Piriska Grecco, Loma, Vinicius Brum e Vitor Hugo, entre outros artistas. De lá para cá, outros grupos surgiram, outros projetos foram apresentados, e todos com a certeza de que, em termos de cultura musical, não precisamos buscar longe o que temos tão perto de nós.

Música Missioneira – certa feita, há mais ou menos 10 anos atrás, já comentava com o professor Mário Simon, profundo conhecedor da historicidade de nossa região missioneira, sobre a questão da ‘música missioneira’ e do ufanismo que se cria em torno do personagem ‘missioneiro’. O que seria ‘música missioneira’ ou ‘ser missioneiro’? Neste momento, devemos levar em consideração o conteúdo filosófico e sociológico do trabalho de Jayme Caetano Braum, Noel Guarany, Pedro Ortaça e Cenair Maicá. Os ‘Quatro Troncos Missioneiros’, em suas andanças cantaram e declamaram as coisas do Rio Grande do Sul a partir de uma visão da região das missões. Esta visão, os fez cantar além da música alegre (fanfarronices do gaúcho), a denúncia, a história das missões, o protesto e o registro de um povo esquecido: o povo guarani. O gosto pela temática histórica e social foram marcas presentes nos trabalhos destes ‘troncos’. A partir deste princípio, acredito que ‘música missioneira’ possa ser compreendida a partir de uma temática voltada para o ser humano, a historicidade e as questões sociais. Precisamos resgatar a pesquisa, a denúncia (com fundamento) e fazer do canto missioneiro, um momento único de clarear consciências.

“É na educação dos filhos, que se revelam as virtudes dos pais” (Coelho Neto)