Gana Missioneira

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 Música – para o crítico musical José Ramos Tinhorão, os compositores das cidades, a partir do século XIX, passaram a aproveitar os gêneros de músicas da zona rural, de caráter folclórico. Na época, o povo urbano já demonstrava interesse pelos temas dos costumes do campo, os quais eram retratados em teatros de revista. A maestrina Chiquinha Gonzaga foi a primeira compositora profissional a estilizar e tornar sucesso da música popular brasileira uma música rural: O tango ‘Gaúcho’. Esta música trazia no subtítulo o nome de ‘Dança do corta-jaca’, e era uma dança sapateada.

Urbano e rural – conforme José Tinhorão, o interesse do público da cidade pelos temas rurais indicava a frustração da classe média com a expansão das primeiras indústrias, e colocava em comparativo a dura realidade da vida urbana (desemprego, falta de dinheiro, moradias caras, etc…) com o sonho idealizado das populações do interior, certamente pobres, mas gozando da sombra dos arvoredos, da calmaria dos riachos e barrancas de rios ou ainda, da beleza das noites de luar. Um exemplo de composição rural que até hoje é lembrada, cantada e regravada por artistas contemporâneos é ‘Luar do Sertão’, do imortal Catulo da Paixão Cearense:  “Não há oh! Gente, oh! Não, luar como este do Sertão….”.

Rural e Urbano – o interesse do povo urbano pela música rural não foi repentino. Na verdade, é uma construção histórica, ligada por uma série de fatos na dinâmica relação campo-cidade. O fato mais contundente pode ser definido pelo regime de escravidão, que enquanto durou, distribuiu mão-de-obra estável, ou seja, não havia movimentação em massa de trabalhadores de uma região a outra, dependendo exclusivamente dos interesses dos grandes proprietários e fazendeiros. Com a abolição da escravatura, a desestabilização econômica durante o Governo Provisório da República e a liberação de mão-de-obra, ocorreu um incentivo à migração do campo para a cidade, cuja luz atraía o interiorano em busca de uma vida mais digna. O centro industrial do Brasil até fins do século XIX era o Rio de Janeiro, pois além de ser a Capital do país, constituía-se no maior parque industrial brasileiro. Além do desejo de uma vida melhor, o povo rural trouxe a saudade e a lembrança da vida no interior, traduzida pelos compositores através da literatura e da música.

Inspiração – através desta analise da história da música popular brasileira, citando apenas a música rural, deixando de lado a modinha, o lundu, o maxixe, o tango brasileiro, o choro, a marcha, o samba, frevo, baião e tantas outras, podemos ver que a sociedade expressa em seu gosto musical o seu sentimento, e tornará popular aquilo que toca sua alma, sua sensibilidade. Por isso, Luar do Sertão, Cabecinha no Ombro, Beijinho Doce, Índia, Chalana, e muitas outras, cruzam tempo afora e permanecem vivas nas gargantas de interpretes contemporâneos, e são presenças constantes em tertúlias ou rodas de cantigas de amigos. 

“Ai Se Eu Te Pego” – fiz esta pequena abordagem em face de reportagem de uma revista de circulação nacional, afirmando que a música do paranaense Michel Teló “traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Ora, antes de tudo, precisamos nos conscientizar de uma coisa: a sociedade de consumo massificada altera qualquer significado ou sentido apenas para poder aplicar seus próprios valores. Em outras palavras: para esta sociedade, o lucro é o objetivo final. Assim, pouco importa a estética e o comprometimento com a cultura. A música é apenas mais um meio de fazer valer o consumismo. 

Gravadoras – desde que as gravadoras massificaram a música, tanto quanto outros produtos, visando apenas e tão somente o lado comercial, a sociedade em geral passou a conviver com esse estilo musical, que definimos de ‘horrível’, ‘sem fundamento’. Mas a verdade é que este tipo de música não é para acalentar gerações ou seguir um padrão cultural. Faz sucesso porque tem ritmo dançante, apesar da letra ser paupérrima. A dança faz você agitar o corpo e não a mente. Quer agitar a mente? Senta e escuta “Para el que mira sin ver”, do cantor argentino Atahualpa Yupanqui, regravada por Noel Guarany.

Comparativos – hoje é ‘Ai Se Eu Te Pego’, ontem foi “Florentina”, um pouco antes “Fricote – Luiz Caldas” e na década de 80, “Não Se Reprima – Menudos”. Pergunto: alguém ainda canta “Não Se Reprima”? Seriam músicas populares, ou apenas reflexo da imposição de produtores, gravadores e mídia em busca do lucro fácil? 

Mídia – enquanto grande parcela da mídia aproveita a onda e lucra com qualquer produto, definindo-o de ‘valor da cultura popular”, os investimentos em cultura e educação no Brasil continuam vergonhosos. Mas para que investir? Afinal, povo que não lê e não critica, é feito boi na canga, vai conforme as ordens de quem lhe dá comida, numa escravidão consentida. 

“Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés.” (Joseph Joubert)