ARTIGO: Crianças do futuro

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Opinião de Cláudia Rodrigues, jornalista, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas

“A criança do futuro é doce, plena de amor, capaz de dar-se plenamente e com prazer. Seus movimentos são harmônicos, sua voz é melodiosa, seus olhos resplandecem uma luz tenra, olhando o mundo de um jeito calmo e profundo, irradiando sua energia vital e transmitindo força aos outros. É suave no contato com as mãos e irradia amor.” Wilhelm Reich

Essa frase de Reich, escrita na década de 1950, fala de uma criança respeitada o máximo possível. Ele imaginava que após a grande peste emocional que se estabeleceria pelo mundo, os adultos não bateriam mais nas crianças, não as insultariam e mais do que isso se apaixonariam por acompanhar seu desenvolvimento apoiando-o sem perversões, chantagens e com algum empenho, afinal atender às necessidades das várias, velozes e importantes fases do desenvolvimento infantil não é suquinho.

Ajudar a criança a desenvolver-se livremente acaba sendo mais fácil, a longo prazo, do que ignorar suas necessidades e encerrar discursos sobre educação com o famoso “cada um com seu cada qual”, frase das mais comuns nos grupos virtuais que debatem temas relativos à maternidade. Nunca falta alguma mãe para gritar “eu não sou menas(sic) mãe porque não brinco, porque não pari ou porque não amamentei.” O que era para virar uma discussão elevada sobre a educação, nossas dificuldades comuns, nossas tendências culturais, nossos novos papéis sociais e profissionais e suas conseqüências na educação, vira um palco de competições e vaidades entre mães e filhos.

Não, não existe criança melhor ou mãe melhor, afeto de mãe não se mede, cada uma dá o que tem, traz do caldo cultural e familiar que recebeu as compensações, as recompensas, as repetições e os desagravos do seu próprio e único tecido psíquico. E não importa que mãe podemos ser, que pessoa conseguimos construir com o que recebemos, se mais crítica ou mais pacífica, mais repressora ou mais permissiva, mais indolente ou mais exigente; a criança tem um compromisso antropológico com seu desenvolvimento e se nós, por nossos excessos e faltas, impedimos, ainda que inconscientemente, que ela se desenvolva, isso a afetará.

A criança que Reich nos traz é uma criança ouvida, levada a sério em suas necessidades desde o nascimento. Uma criança que é tratada como ser inteligente, capaz de pensar, refletir e agir de maneira inteligente de acordo com o desenvolvimento de seu cérebro e seu corpo. Não é tratada aos trancos e barrancos conforme as necessidades exclusivas dos adultos, não é chantageada, ameaçada, não apanha, não é insultada e ofendida por ser criança, por pensar como criança. Principalmente não é moldada para repetir o padrão de neurose familiar.

Também não é mimada, não ganha tudo que pede, não é recompensada com mimos e guloseimas por ter sido ofendida. Ela é tratada com solidariedade, então naturalmente cresce desenvolvendo sua solidariedade, por isso é doce no trato com os outros. Ela pode sentir raiva, tristeza, frustração e expressar isso livremente, nem que seja esperneando num colchão. Não é levada a crer que esses sentimentos maus são pecaminosos e muito menos que devem ser despejados nos outros às escondidas, perversamente. Por outro lado não cava na relação com o adulto um relacionamento de desprazer, afinal o prazer existe e é desfrutado, os adultos que a acompanham são solidários com suas necessidades de desenvolvimento, buscam atendê-las desde o início de sua vida terrena e o fazem com prazer, com alegria, por satisfação.

No final das contas, quando a criança sente-se uma fonte de alegria, de satisfação, se percebe os pais ou cuidadores delas como companheiros felizes, não terá necessidade de chateá-los e testá-los o tempo todo. Ela chega à adolescência mais solidária e responsável e, se rebelde, com causas, e certamente não será uma causa contra os pais.

Aquilo que plantamos na infância de nossos filhos colhemos na adolescência. Se plantamos palmadas, insultos, desvios de atenção às necessidades antropológicas naturais, colheremos agressões, insultos e desvios de atenção às nossas necessidades. Os filhos, que na infância eram vistos como “um saco”, na adolescência se transformam em problemas enormes, afinal eles na adolescência começam a tomar consciência do acompanhamento que receberam e literalmente viram sacos vivos de rebeldia contra os pais.

Inicia o acerto de contas que pode durar para o resto da vida em eternas mágoas, ofensas, brigas, competições e cobranças. É aquela velha máxima: “se você não acredita em educação, tente a ignorância.”

Educar é legal, não existe receita pronta, mas as fases da criança, aqui ou na China, no Japão, na África, nos cinco continentes, serão as mesmas velhas fases de nosso corpo ancestral. Tudo o que precisamos fazer é entender e tentar acompanhá-las dominando o nosso bicho cultural preguiçoso, vaidoso, egoísta, egotista e afastado da natureza.