A vida longe de casa: Estudantes universitários que decidiram ficar na região durante a pandemia

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Geovan Rodrigues que veio do Pará para estudar Ciências Biológicas. Fotos: Arquivo pessoal

Em 2010 Cerro Largo recebia os primeiros alunos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Vindos de diferentes regiões do país, desembarcaram na região para conquistar a desejada graduação em universidade pública. Ao longo dos 10 anos de implantação do campi, anualmente jovens chegavam à cidade para iniciar seus estudos, porém, 2020 trouxe uma situação atípica.

Geovan Rodrigues que veio do Pará para estudar Ciências Biológicas, tinha acabado de chegar na cidade quando a OMS decretou a pandemia de Covid-19 e com ela todas as restrições de isolamento social.

Calouro, ele conta que sente-se sozinho. O período de isolamento está “sendo ruim”. Chegou a adoecer e teve de contar com o auxílio de outra pessoa. “Não tinha ninguém para estar ao meu lado. Choro quase todos os dias”, relata. Financeiramente, Geovan afirma estar “sobrevivendo” já que recebe auxílio da Universidade.

Por outro lado, o isolamento tem trazido reflexões importantes para ele já que pensa em realizar algum trabalho social “para poder ajudar jovens que se encontram em situações parecidas ou piores que a minha, pois é a forma mais inteligente de ocupar minha mente: ajudando o próximo”, ressalta o estudante.

Géssica Kupski que está no 9º semestre de Agronomia

É assim para quem está começando o curso, e também é para quem está terminando sua graduação. Como para Géssica Kupski que está no 9º semestre de Agronomia. Ela, que também morava no Pará, resolveu permanecer em Cerro Largo, mesmo com as aulas suspensas, pois está no período de realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e por condições financeiras. A estudante não vê seus pais desde 2016, quando veio estudar na UFFS. De acordo com Géssica, o período de recolhimento “está bem estranho, perdi o foco nos estudos. Fazia bicos em um trabalho que agora também não tem. Fico esperando que tudo melhore, um dia após o outro”.

É mais seguro permanecer em Cerro Largo

Na UFFS, os servidores passaram a trabalhar em casa (trabalho remoto) e o Calendário Acadêmico de 2020 está temporariamente suspenso. Com isso, as aulas presenciais também foram suspensas, desde o dia 18 de março.

Matheus Araújo do Amaral está nas fases finais do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária

Matheus Araújo do Amaral está nas fases finais do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária e, para ele, “foi chocante” receber a notícia da suspensão das aulas.

A família dele é de Caraguatatuba, em São Paulo, mas o jovem decidiu ficar na cidade Missioneira porque temia um possível contágio da doença, já que, no estado de São Paulo, o número de contaminados é mais alto. “É mais seguro eu continuar em Cerro Largo”.

Com a rotina de estudos reduzidos, ele se dedica às atividades do programa de extensão do qual participa, que também passou por adaptações para o formato homeoffice, e adianta a escrita do seu TCC. Financeiramente, Matheus relata que a alimentação tem sido seu maior gasto, já que no momento, não há fornecimento de refeições pelo Restaurante Universitário (RU). No entanto, reafirma a importância do auxílio complementar que a UFFS tem oferecido neste período.

Ingrid de Camargo Soffner, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária

Também de São Paulo, mas da cidade de Dois Córregos, Ingrid de Camargo Soffner, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária, conta que a decisão de ficar em Cerro Largo surgiu da incerteza da volta às aulas.

“Além disso, a viagem até minha cidade é cansativa e cara. E caso voltasse logo as aulas, precisaria estar aqui, então optei por ficar”, conta.

Ingrid afirma que sua rotina mudou bastante desde o início do recolhimento: “No começo estava até empolgada, acordando cedo e tentando me manter atualizada com os estudos das matérias, depois, a incerteza da volta às aulas, fui deixando as matérias de lado. Conforme foi passando o tempo não via razão para começar o dia cedo. Hoje estou acordando tarde e dormindo tarde. Agora, com o frio, quase nem levanto para fazer comida também.”

Equilíbrio emocional

Vitor Brunow da Silva, também estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária e natural de Belo Horizonte (MG) levou em consideração, na hora de decidir ficar em Cerro Largo, esta ser uma cidade pequena, consequentemente mais tranquila, o aluguel do local onde reside aqui, que mesmo longe teria de continuar arcando, e os custos com a viagem de ida e volta até Minas.

Vitor Brunow da Silva, também estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária

Para o equilíbrio emocional, ele afirma que está aproveitando o isolamento para praticar yoga, meditação e autoconhecimento. “Estou treinando hábitos alimentares melhores, sem contar a oportunidade de executar algumas receitas de meu gosto. Também estou fazendo em média 2 a 3 treinos por dia, incluindo calistenia, yoga e hit”. Vitor participa de um projeto em parceria com o Setor de Assuntos Estudantis (SAE) do Campus, em que realiza lives de Yoga para todos os campi. As lives ocorrem nas terças-feiras, às 19h.

Além disso, o que o ajuda a se manter equilibrado é a presença da namorada, que também é de outro estado, Rio de Janeiro, e não pôde retornar para casa.

Acolhimento de medos e preocupações

Psicóloga da UFFS – Campus Cerro Largo, Elenice Scheid

A psicóloga da UFFS – Campus Cerro Largo, Elenice Scheid recomenda para lidar com esse momento “é importante investir em estratégias de cuidado psíquico como: acolher seus receios e medos, procurando pessoas de confiança para conversar; retomar estratégias e ferramentas de cuidado que tenha usado em momentos de crise ou sofrimento; investir em exercícios e ações que auxiliem na redução do nível de estresse (meditação, leitura, exercícios de respiração, exercícios físicos, yoga, etc); reduzir a leitura ou o contato com notícias que podem causar ansiedade ou estresse. Importante lembrar que o distanciamento social é diferente de distanciamento afetivo, por isso, mantenha contato virtual com a sua rede socioafetiva”.

Elenice explica por que está sendo tão difícil lidar principalmente com as emoções neste período: “a mudança brusca nas atividades do dia a dia, como na rotina estudos, trabalho e convívio social, por vezes sem previsão de quando ocorrerá o retorno à ‘vida normal’, pode provocar sofrimento e insegurança, visto que é preciso lidar com o futuro imprevisível”.

Além disso, segundo ela, o distanciamento social, sem as interações face a face tende a gerar sensação de isolamento emocional e de privação de liberdade. Essas sensações aliada a outras preocupações como com a própria saúde, com a saúde dos familiares e preocupações econômicas, “podem gerar solidão, desesperança, ansiedade, exaustão, irritabilidade, tédio, raiva e sensação de abandono, tristeza”.

A psicóloga também ressalta que caso as estratégias não estão sendo suficiente para o processo de estabilização emocional, estudante tem de buscar auxílio de um profissional de Saúde Mental. Elenice indica o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional pelo telefone 188. “Cuidar da sua saúde mental e do seu bem-estar psicossocial neste momento é tão importante quanto cuidar da sua saúde física”, conclui.

 

Informações: AI/UFFS- campus Cerro Largo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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