Conheça um Parkinsoniano em Movimento

0
116
Foto: Arquivo pessoal

Física não é uma disciplina fácil. Depois da matemática, empata com química na hora de aterrorizar alunos no Ensino Médio. Por 33 anos, elucidar dúvidas de alunos foi o propósito de Jesus Acosta de Moura, professor de Física e de Ciências (no Ensino Fundamental).

É difícil encontrar alguém que não tenha passado pelos ensinamentos dele. E, como educador, essa sempre foi (e é) sua função, dar o exemplo. Não seria diferente depois de aposentado. Jesus, por três décadas, lecionou em escolas públicas e privadas. Em 2012 chegou a hora do merecido descanso: a aposentadoria. Mas como ele conta, nas páginas do caderno que mantêm as recordações, não foi como o esperado.

“Desde 2010 sentia-se estranho para caminhar e falar. Tinha pequenos temores e lentidão dos movimentos”, revela. Procurou ajuda de especialistas e passou por uma série de exames. O diagnóstico apontou o que ele já desconfiava: Parkinson. Doença progressiva do sistema nervoso, que afeta principalmente o cérebro. É caracterizada por prejudicar a coordenação motora, provocar tremores e dificuldades para caminhar e se movimentar.

“Do diagnóstico da doença até a minha aceitação foram cinco anos”, revela Jesus. Período que passou por altos e baixos. “Como a adaptação com os medicamentos até a execução de tarefas simples, como vestir uma roupa tornou-se difícil”, lembra. “Senti na pele o preconceito de ser parkinsoniano.”

Até que em um momento a luz no túnel apareceu. Em uma consulta com o médio Maurício Lunardi, que sugeriu que ele fizesse uma atividade física.

– Qual?, questionou.

– Corrida, respondeu o médico.

Foi aí que surgiu o Projeto Parkinsoniano em Movimento. Os treinos começaram em março deste ano. Treinava duas vezes por semana. Até que veio a oportunidade de participar da primeira rústica. O resultado não foi o dos melhores, porém, ele afirma: “gostei do que vi”. Quando percebeu já estava se preparando para a segunda competição, a terceira, a quarta… Em seis meses já participou de provas em Ijuí, Cruz Alta, Santa Rosa e em Santo Ângelo.

Começou a treinar com seriedade. Hoje possui 11 medalhas (isso em 2018), mas não é esse o principal resultado que ele vem conquistando. A maior vitória é a autonomia que o esporte tem lhe dado. “Os resultados começaram a aparecer. Dos 41 minutos gastos para percorrer os 5 km da primeira rústica em março, já baixei para 26 minutos e 10 segundos na Rústica do dia 25 de agosto (em comemoração ao Dia do Soldado)”, conta.

As vitórias foram alcançadas com a dedicação que dispende nos treinos. E olha que ele não treina pouco. Todas as tardes encontra os amigos, o médico – que também é corredor e Ricardo Rudeck Sobucki (que recentemente conquistou a terceira colocação na Mizuno Uphill). “Ele é um exemplo”, afirma Sobucki. “Acredito que a história dele é uma inspiração para todos”, completa.

Primeira Prova de 15 km

No dia 2 de setembro, Jesus participou da primeira prova de 15 km – a Rústica de Incentivo à Doação de Órgãos. Encerrou em quarto lugar na categoria 60/64 anos. Durante o percurso, o professor lembra dos cinco personagens que marcaram a prova.

“1º: Miguel Belincanta: Segui-o como um aluno segue um mestre, mantendo uma distância de 20 metros até os 7km da prova. Depois o perdi de vista. 2º: Proprietário de um mercado na Salgado Filho. Permitiu que eu usasse o banheiro para esvaziar minha bexiga. 3º: Ex-aluno, policial da Brigada Militar que ao me ultrapassar disse: ‘Não desista professor. Voltei a correr inspirado no senhor’. 4º: Cidadão visivelmente embriagado, que vendo minhas passadas com dificuldades, me larga esta: ‘Ei. Tu está com o virabrequim quebrado’. (Foi o único momento hilário). 5º: Anny Lubschinski, que já tendo completado a prova, me acompanhou nos metros finais, com palavras de incentivo. Como se vê, ninguém vence sozinho na vida.”

No dia das competições

Em um dia de prova, Jesus chega no local da competição acompanhado do seu Parkinson. “Um pouco trêmulo, um pouco travado, um pouco lento, com os músculos enrijecidos. Faço um breve aquecimento”, conta.

É dada a largada.

“Pouco a pouco vou destravando. Meus músculos já não estão mais enrijecidos. Uma sensação boa toma conta de mim. Independentemente da posição que vou chegar, neste dia sinto-me como se não tivesse Parkinson”.

De certa forma, a física nunca abandonou o professor Jesus. Quando antes era a ciência que estuda a natureza e seus fenômenos em seus aspectos mais gerais, hoje é a atividade física (qualquer movimento corporal produzido pela musculatura que resulte num gasto de energia acima do nível de repouso).

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here