Enem: como chegarão os alunos em ano de aulas presenciais suspensas

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Eduarda Teixeira de Almeida, de 17 anos; Maria Eduarda Corrêa Rodrigues, 16 anos; Felipe Soares da Luz, 17 anos. Fotos: Arquivo pessoal

O governo federal abriu, ainda na segunda-feira (11), o período de inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mesmo escolas com aulas suspensas, MEC mantém aplicação das provas para os dias 1º e 8 de novembro (presencial) e dias 22 e 29 de novembro (digitais). Para entender como os estudantes chegarão a avaliação – principal ferramenta de acesso ao Ensino Superior -, o Jornal das Missões conversou com quem vai ser diretamente atingido pela medida do governo em manter as datas do Enem.

Eduarda Teixeira de Almeida, de 17 anos, aluna da Escola Técnica Estadual Presidente Getúlio Vargas, é cética quando questionada se jovens estarão preparados para o Exame neste ano: “acredito que não”, diz ela. “Estou tentando me preparar, então espero que eu chegue bem”, acrescenta.

Com as aulas suspensas desde março, uma alternativa encontrada pelas escolas é manter o diálogo entre alunos e professores por meio de atividades on-line. “Tivemos algumas aulas por videochamada das matérias de Química e matemática. Mas estudar tem sido difícil, conseguir se concentrar e não ficar procrastinando, tendo o sono desregulado”, explica. Quanto a metodologia empregada, Eduarda diz que infelizmente não é satisfatória, “por mais que tenhamos atividades não tem alguém para te dar o suporte necessário”.

Posição que a professora de Artes e vice-diretora da manhã da Escola Estadual Pedro II, Andreia Benedetti defende: “nada substitui a presença do professor”. Por mais que alunos, pais, escola e educadores se esforcem para continuar a desenvolver o conteúdo, a relação aluno-professor em sala de aula se perde com as atividades on-line. Andreia afirma que educandário tem se esforçado para orientar os estudantes durante este período.

Felipe Soares da Luz, 17 anos, também aluno da Escola Getúlio, diz que sem o auxílio do Estado, dificilmente a preparação para o exame será a mais adequada. “Vejo que a palavra que define a gestão pública nesse momento é um total ‘improviso’, sem atenção alguma com os professores e alunos em relação a preparação para o Enem”, afirma.

Na outra ponta, Maria Eduarda Corrêa Rodrigues, 16 anos, aluna do Colégio Marista Santo Ângelo, diz que “os estudantes que têm recursos e tecnologia, e estão sabendo usar esse privilégio estarão muito bem preparados esse ano. Aqueles estudantes que infelizmente não tem acesso a materiais de estudo e nem internet terão mais dificuldade.”

Ela acredita que pode conseguir alcançar uma boa nota, “porém, tendo conhecimento de um panorama maior, muitas pessoas serão desfavorecidos de forma injusta”, acrescenta a estudante.

Desigualdade entre escolas públicas e particulares

Com as aulas suspensas a alternativa foi uso de plataformas digitais. Mas a diferença entre as escolas públicas e particulares é grande. Maria Eduarda Corrêa Rodrigues, diz que os estudos estão sendo mais corridos e mais cansativos. “Dado privilégio que desfruto, estou tendo aulas EaD e bastante trabalhos escolares”.

Eduarda e Felipe, porém, alunos de escola estadual, tem uma situação oposta: “os professores só mandaram atividade, matéria nova era mais só fazer resumos, então tenho procurado bastante videoaula pra conseguir me manter bem”, conta Eduarda.

“Os estudos, sem dúvidas, estão sendo aplicados de uma maneira desorganizada, sem qualquer espécie de cronograma ou algo do tipo. Os professores não recebem auxílio de como aplicar os conteúdos no formato EAD, com isso cada um utiliza algum método de sua escolha, gerando desordem no ensino”, acrescenta Felipe.

Ele, inclusive, apesar de ver semelhança nas metodologias (presencial e distância) diz que no formato EaD as atividades são comumente relacionadas a pesquisas feitas pelo próprio aluno, “o problema em relação a isso é que muitos não conseguem assimilar os conteúdos corretamente sem a ajuda de um professor”, reforça.

Maria Eduarda (do Colégio Marista), acredita que haverá uma grande desigualdade entre estudantes da rede pública e particular: “estou tendo aulas, trabalhos e diversos materiais de estudo. A rede pública tem menos recursos e não consegue fornecer para seus estudantes a mesma qualidade de ensino”, avalia.

Felipe pensa que esta será mais evidente em 2020, “pois existem estudantes que ao menos possuem acesso à internet em suas casas, com será a preparação deles? É evidente que os mesmos iram ter dificuldades enormes para competir com alunos de escolas privadas.”

Eduarda, também aluna do Getúlio, completa dizendo que “as escolas privadas estavam tendo aula a distância quase sempre podendo tirar dúvidas e tudo mais, enquanto nós da escola pública, dificilmente recebíamos uma que outra atividade. Portando estaremos bem atrasados quando retornarmos.”

Professoras acreditam que novo cronograma seria mais equânime

Magali Torres professora de Sociologia da Escola Técnica Estadual Presidente Getúlio Vargas; Denise Soares dos Santos professora de Língua Portuguesa e Literatura Escola Getúlio; Andreia Benedetti vice-diretora Escola Estadual Pedro II e professora de Artes. Foto: Arquivo pessoal

Enquanto alunos sentem o choque da suspensão de aulas, professores se dedicam ao máximo para que jovens não sejam prejudicados com a pandemia, especialmente aqueles que estão na reta final do Ensino Médio.

Professora de Língua Portuguesa e Literatura na Escola Presidente Getúlio Vargas, Denise Soares dos Santos, educadores têm utilizado todos os recursos que disponibilizam para orientar e atender os estudantes, “porém, com certeza, não é suficiente, pois temos que levar em consideração que os alunos não estão acostumados a ter aulas a distância, e até mesmo para nós professores essa é uma realidade complicada, mas é importante ressaltar que a dedicação e o empenho dos alunos foi decisiva nesse momento difícil”, explica.

Colega na profissão e na Escola, Magali Torres, professora de Sociologia, diz que certamente método (a distância) não é suficiente para preparar os alunos para os conhecimentos acadêmicos exigidos para a vida e consequentemente para o Enem. “O impacto se dá para todos os alunos, sendo agravados para os mais vulneráveis”, reforça.

Magali lembra fala do ministro da Educação, durante reunião no Senado (“o exame não foi feito para corrigir injustiças”) para defender que a Gestão da Crise precisa definir qual o papel do Estado durante e após pandemia para a redução de danos à população. “O momento oportuniza reflexões sobre a necessidade de políticas públicas alinhadas com as realidades do país, pois qual a razão de existência de uma sociedade se não a de garantir saúde, assistência, educação e estrutura básica para todos os seus membros.”

Sobre um possível adiamento ou até cancelamento, as professoras Denise, Andreia e Magali tem opiniões semelhantes. “Não sabemos como vai ser daqui pra frente, talvez o MEC mude a data do Enem, talvez não”, pondera Andreia. “Não sabemos sequer como vai ser aplicada a prova”, acrescenta.

Denise defende que governo repense a data de aplicação, “tendo em vista que não sabemos quando voltamos com as aulas presenciais, pois estamos no meio de uma pandemia e a meu ver, a escola precisa manter o isolamento social”, reforça.

Magali cita exemplos de outros países, que tem provas parecidas e que foram canceladas. “Os alunos da rede pública, em torno de 80% dos alunos matriculados no Ensino Médio, serão extremamente prejudicados caso não haja alteração no cronograma do Enem. Vários especialistas da educação indicam a necessidade de reconstruir o cronograma, adiando as provas e viabilizando a participação equânime dos candidatos do Enem”, completa.

 

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