Letras em Destaque

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Concurso de poesia – Para marcar conquista de sua sede própria, a Academia Santo-angelense de Letras (Asle) promove o Concurso Cultural de Poesias 2020 – Troféu Sede. O objetivo é promover a produção literária no gênero poesia.

O tema é livre e terá limite máximo de 40 versos, podendo ser em Língua Portuguesa ou Espanhola. O valor da inscrição é de R$ 50,00 (por poema) e deverá ser feita até o dia 1º de julho. Cada autor pode concorrer com até três poemas.

Confira o regulamento concurso de poesias.

 

Tempo Incerto

por Isadora Fachim Heinzmann – Estudante do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Marista Santo Ângelo

Habituada em acordar com barulho, vozes, buzinas e motores, hoje despertei incomodada com o silêncio. Um evento imediato. A estranheza levou-me a examinar o lugar. Foi uma sensação anormal. Mas não estava em um lugar diferente. Estava no mesmo quarto com as paredes roxas aconchegantes que me abrigavam desde os meus 10 anos, logo após a mudança para este novo apartamento. E isso me deixou ainda mais angustiada. Era a mesma bagunça, a mesma colcha na cama, os mesmos porta-retratos. Fora do lugar, somente meu casaco, jogado por cima de minha escrivaninha, mas eu o deixara ali logo após chegar em casa depois de uma festa na noite anterior, em que tudo ainda estava corriqueiro. Porém, algo me incomodava: o silêncio.

Levantei-me e me dirigi até o quarto de meus pais, abri a porta e os observei dormindo como se nada tivesse acontecido. Percebi que a sensação de mudança estava em mim. Mesmo assim, continuei a busca incessante para descobrir o que havia de errado, e eu tinha a certeza que havia. Essa curiosidade levou-me a encontrar meu irmão na cozinha, preparando seu café. Só pela troca de olhares percebi a mesma sensação de desassossego.

Inevitavelmente, saltamos para abrir a janela. Nada. Absolutamente nada e ninguém. O silêncio reinava. E isso não era costumeiro. Não era feriado, e mesmo assim, teria pelo menos alguém fazendo atividade física na rua, alguma família levando os filhos para passear, algum carro transitando. Mas nada disso. Até o mercadinho de frente à minha casa, que abre suas portas independente do dia e do tempo, estava fechado.

Abrimos a porta e descemos a escadaria do prédio. Durante o caminho, nem o latido do Ozzy e da Luna escutamos, encontravam-se imóveis diante da nossa presença. Algo raro de acontecer. Quando nossos pés nos levaram à rua, percebemos a veemência da estranheza. Ninguém. Absolutamente ninguém. Parecia que estávamos em outro planeta. Só eu e meu irmão. Cheguei a pensar que poderíamos estar fazendo algo de errado, até avistar nossa vizinha debruçada na janela de sua casa, meio assustada com nossa “coragem” de sair, suplicando que voltássemos para casa e escutássemos as notícias da TV ou do rádio. Obedecemos. Apesar de não familiarizarmos com aquele tipo de eletrodoméstico, escutávamos palavra por palavra que ecoava daquele aparelho minúsculo e tão distante da nossa geração. A partir daí, entendemos o que estava acontecendo e, incessantemente, manchetes invadiam nossos ouvidos: “Nova pandemia atinge o mundo em escala global”, “OMS declara quarentena para a segurança de todos”. O que viria a seguir?

O tempo passou, e me encontro no dia de hoje. A pandemia continua a evoluir. Os carros continuam no mesmo lugar estacionados. A rua continua vazia. Ninguém a praticar atividade ao ar livre. As famílias não saem mais para passear com seus filhos. O latido dos cachorros aqui do prédio ressoa tristemente. O famoso mercadinho do outro lado da rua continua fechado. As vozes, as músicas altas, as buzinas, os barulhos cessaram. E eu continuo aqui, em meu quarto roxo aconchegante, com a mesma bagunça, com a mesma colcha, com os mesmos porta-retratos, sentindo saudade de tudo aquilo que uma vez me incomodou. Porém, uma coisa há de diferente. Meu casaco usual para festas não estava mais em minha escrivaninha, e sim, guardado junto com os receios deste tempo, dentro de meu guarda-roupa.

 

Balouçando novas auroras!

por Renato Schoor

Ficaram nos rastros da história,
cavalgaduras de servilidade,
no tempo, espectros condoídos,
desamálgamas embrutecidos,
permanecem feito exemplos,
lições eternas – estatuídas!

Estás qual estátua erguida
no portal do grande universo,
mulher de aço, ferro e bronze,
és berçário de ternura e vida,
peleaste em colinas e deserto,
guerreira de prata e doçura,
teus ecos ressoam ao longe,
Trazes na ilharga a bravura!

Conservas ranhuras no rosto,
marcas extremas de rudeza,
sinais indeléveis – desgosto,
escorrem gotas de aspereza!

Refletes no espelho d’água,
gotas que choraste silente,
d’esdas dantescas cavernas,
simbolizam as tuas mágoas,
as vergas – chagas ardentes,
conflitam teu “eu” moderna,
balouçando novas auroras
hás de manter-te mulher eterna,
comemore aquelas d’outrora,
adornas, nosso mundo d’agora!

 

Houve um tempo…

por Maria Elisa Dalla Costa

Um tempo em que tudo parou.
Carros não circulavam,
pessoas andavam mascaradas e apressadas.
Um tempo em que não se
ouvia a voz alegre dos adolescentes e crianças
Nos shoppings e lanchonetes.
Não escolhiam pizza para o jantar.
Nesse tempo as janelas escancaravam
ao amanhecer para que o ar,
Ainda úmido, varresse o temor.
Mas nesse tempo, apesar das lágrimas,
da dor do isolamento social,
da insegurança, da mão estendida no vazio
do abraço feito apenas pelo coração,
o olhar carinhoso entre os amigos
foi substituído
pelas mensagens nas redes sociais,
e a palavra perdão circulava sem pudor.
O ter era apenas um detalhe,
importante valoroso e real era ser mais humano
mais íntegro e mais irmão.
E Deus foi convidado para fazer parte dos segundos,
minutos dias…de todos.
Tempo para Jesus Cristo tomar assento em nossas mesas.
E nossas vidas foram iluminadas
com a luz da Santíssima Trindade.
Então a humanidade seguiu nova jornada,
mais segura, mais confiante.

 

Em tempos de coronavírus

por Adelino Jacó Seibt

Eu sei que todo texto literário deve primar
pela universalidade,
mas não tem como não tratar de uma situação
singular que é o coronavírus,
Covid-19, março de 2020.
Neste momento, o mundo está
perplexo com essa pandemia.
No Brasil, idem.
Alguns até que não, como nosso próprio
Presidente da República que se nega
a seguir as determinações da
Organização Mundial da Saúde,
bem como do Ministério da Saúde do Brasil.
Sua Excelência, presidente da República,
faz contato com populares,
não sabe usar uma máscara,
diz que vai fazer festa de aniversário
dele e da esposa, apesar de próximos
dessa autoridade já diagnosticados com esse vírus.
Para nós gaúchos, também é difícil seguir as recomendações,
temos de fazer um esforço danado para não sentar
em roda de chimarrão partilhando a mesma cuia e bomba.
É difícil imaginar um gaúcho chegar num lugar sem
cumprimentar as pessoas “assim de mão em mão”,
como diz nossa tradição.
Porém, a criatividade também aflora nestes momentos,
assim estão surgindo outras formas de cumprimento,
ou seja, cotovelo no cotovelo, pé no pé, etc.
Sugiro que os gaúchos se cumprimentem puxando
a adaga ou a faca da bainha na cintura dando
dois estalidos em cada adaga ou faca com
o corpo inclinado para frente com o pé e braço
direito estendidos para manter uma boa distância.
Ou então, que cada gaudério pegue o relho
e dê dois estalos em cada qual mantendo-se
longe um do outro para não ser atingido pelo couro curado.
Esses cumprimentos terão um som
interessante e evitarão o contágio do vírus, além do mais,
poderão se tornar nossa tradição no Sul do Brasil doravante.

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