O PIB regional médio deverá ter recuo de três anos, voltando a níveis de 2017

0
69
Argemiro Luis Brum, professor doutor em Economia Internacional da Unijuí. Foto: Marketing/ Unijuí

A pandemia de coronavírus tem provocado abalos nos mercados globais e paralisado atividades econômicas no mundo todo. Estes impactos, invariavelmente, são sentidos no Brasil, por sua vez, atingem o estado e a região noroeste.

Para tentar conter a transmissão da doença, a população foi submetida a medidas de isolamento. No Rio Grande do Sul, uma nova metodologia de distanciamento controlado foi implementada para que comércio possa, aos poucos, retomar se ritmo.

No Brasil, medidas de restrições de circulação de pessoas começaram com a suspensão de aulas e, gradativamente foram sendo ampliadas, com a determinação também de fechamento do comércio e serviços, e com fábricas sendo obrigadas a interromper a produção ou a dar férias coletivas.

O professor doutor em Economia Internacional da Unijuí, Argemiro Luis Brum, avalia que na região, a crise se agrava porque houve uma quebra na safra de verão (mais de 50%), reduzindo ainda mais a disponibilidade de recursos para a economia girar, potencializando a recessão. “Na prática, já estamos entrando em depressão econômica, que é um estágio pior do que a recessão”, pondera.

Ainda, conforme Brum, o PIB brasileiro deverá ser negativo neste ano, variando de 5% a 10%, dependendo da extensão do problema sanitário. “O desemprego poderá dobrar, chegando a 24% da população ativa nacional. A renda média igualmente sofrerá um recuo proporcional ao PIB, com o agravante de aumentar ainda mais a desigualdade social, pois são os mais pobres que estão sofrendo mais as consequências da crise”, acrescenta.

Neste cenário, ele diz que pouco resolve flexibilizar a economia, abrindo as empresas, se a população não tem dinheiro para consumir. “Além disso, tirando as commodities agrícolas em especial, as exportações brasileiras enfrentam grandes dificuldades porque os países compradores estão fechados, importando bem menos. Soma-se a isso a pouca habilidade do governo brasileiro no que diz respeito às relações exteriores”, diz.

Nesse contexto, país deve levar entre dois a três anos para voltar ao estágio do final de 2019. O PIB regional médio, conforme o economista, deverá recuar para níveis de 2017, consolidando um recuo de três anos.

Setores mais atingidos

Conforme avalia Brum, os que sentirão os impactos da pandemia são os setores do turismo, dos bares e restaurantes, do ensino em geral, e particularmente o privado, serviços como transportes, comércio em geral e indústrias. “Os que parecem sofrer menos são os supermercados, farmácias e serviços de comunicação já que a vida passou a ser prioritariamente on-line nestes últimos tempos. Além deles, o setor bancário, pois a demanda por crédito cresce muito, e o Estado está colocando dinheiro público no mercado”, explica.

Agronegócio

Neste setor, a estiagem teve mais consequência que a pandemia propriamente, porém esta igualmente traz prejuízos. Mesmo com o preço da soja, milho e trigo elevado para os padrões médios, a perda nas lavouras não é compensada. “Assim, há menos renda. Além disso, as perdas se estendem para setores como o leite, suínos e outras atividades. Ou seja, seca e pandemia, somados, provocam igualmente uma forte redução de renda média no agronegócio”, completa.

Medidas de socorro e auxílio emergencial

Para o especialista, as medidas ajudam, mas não são suficientes, chegaram tarde, enfrentam muita burocracia e exigências bancárias. “O governo precisará liberar mais recursos. O problema é que o Estado brasileiro está ‘quebrado’ e provavelmente terá que emitir moeda para dar conta desta demanda, fato que pode provocar, no futuro, uma inflação que nos leve a elevar o juro básico novamente”, detalha.

 

Confira a entrevista completa:

Jornal das Missões: Quais serão os impactos dessa pandemia na economia nacional e regional no futuro próximo?

Argemiro Brum: Em ambas economias o impacto principal será o de uma recessão econômica, forte desemprego, redução da renda média das pessoas, quebra de empresas (especialmente pequenas e médias), forte endividamento daqueles que resistem à crise, e dificuldades para voltarmos ao estágio de antes da pandemia. Na região, a crise se agrava ainda mais porque tivemos uma quebra importante na safra de verão (mais de 50%), reduzindo ainda mais a disponibilidade de recursos para a economia girar, potencializando a recessão. Na prática, já estamos entrando em depressão econômica, que é um estágio pior do que a recessão. De fato, entende-se por recessão o declínio do PIB para níveis negativos por dois ou mais trimestres consecutivos. Já a depressão indica não só o declínio do PIB, mas igualmente do nível de emprego, da produção industrial, do rendimento real etc. O PIB brasileiro deverá ser negativo, neste ano, entre 5% a 10%, dependendo da extensão do problema sanitário. O desemprego poderá dobrar, chegando a 24% da população ativa nacional. A renda média igualmente sofrerá um recuo proporcional ao PIB, com o agravante de aumentar ainda mais a desigualdade social, pois são os mais pobres que estão sofrendo mais as consequências da crise. A inadimplência deverá aumentar e a disponibilidade de renda encurtar, apesar de o Estado irrigar a economia com recursos (o problema aqui é que os mesmos vieram tarde, ainda são insuficientes, e esbarram em desorganização, burocracia e falta de estrutura). Assim, pouco resolve flexibilizar a economia, abrindo as empresas, se a população não tem dinheiro para consumir. Além disso, tirando as commodities agrícolas em especial, as exportações brasileiras enfrentam grandes dificuldades porque os países compradores estão fechados, importando bem menos. Soma-se a isso a pouca habilidade do governo brasileiro, para dizer o mínimo, no que diz respeito às relações exteriores, e o quadro de dificuldades fica completo neste momento. Nesse contexto, deveremos levar entre dois a três anos apenas para voltarmos ao estágio do final de 2019, que já não era bom. O PIB regional médio deverá recuar para níveis de 2017, consolidando um recuo de três anos.

JM: Quais os setores que serão mais atingidos com esta pandemia e quais sofrerão menos?
Argemiro:
Os mais atingidos são os setores do turismo, dos bares e restaurantes, do ensino em geral, e particularmente o privado, serviços como transportes, comércio em geral e indústrias. Os que parecem estar sofrendo menos são os supermercados, farmácias e serviços de comunicação já que a vida passou a ser prioritariamente on-line nestes últimos tempos. Além deles, o setor bancário, pois a demanda por crédito cresce muito, e o Estado está colocando dinheiro público no mercado.

JM: Na nossa região, como o setor do agronegócio poderá sofrer com a pandemia?
Argemiro:
Na nossa região o agronegócio sofreu muito mais com a seca do que propriamente com a pandemia, porém, é fato que esta igualmente traz prejuízos. Mesmo com o preço da soja, milho e trigo elevado para os padrões médios, a perda nas lavouras não é compensada por eles. Assim, há menos renda. Além disso, as perdas se estendem para setores como o leite, suínos e outras atividades. Ou seja, seca e pandemia, somados, provocam igualmente uma forte redução de renda média no agronegócio, com muitas empresas também encontrando dificuldades para sobreviverem à crise. A agricultura familiar deverá sentir muito o impacto, pois o Estado não a teria favorecido com créditos especiais suficientes. Além disso, o alto custo de produção das próximas safras tende a complicar a realidade econômica do agronegócio regional, pois com o câmbio atual os custos de produção aumentam em função de os produtos e seus insumos serem importados e/ou possuírem muitos componentes importados.

JM: As medidas de socorro, como o auxílio emergencial por alguns meses, são suficientes ou o governo terá de pensar em outras ações?
Argemiro:
Ajudam, mas não são suficientes. Além disso, vieram tarde e enfrentam muita burocracia e exigências bancárias. Sim, o governo precisará liberar mais recursos. O problema é que o Estado brasileiro está “quebrado” e provavelmente terá que emitir moeda para dar conta desta demanda, fato que pode provocar, no futuro, uma inflação que nos leve a elevar o juro básico novamente. Na prática, o governo não tem uma política definida sobre o que fazer diante da pandemia, a não ser, em alguns setores, defender a volta das atividades econômicas a qualquer custo, especialmente ao custo de vidas. Com isso, no colocamos em um dilema de difícil solução: realizando mal o isolamento (falo do Brasil), o risco é de termos que retroceder novamente a ele logo adiante (já ultrapassamos mil mortes diárias devido ao coronavírus), fato que prejudicará ainda mais a economia, aprofundando a crise. O Rio Grande do Sul talvez venha a ser uma exceção a isso, pois fez melhor o dever de casa, porém, ainda será preciso tomar muitos cuidados, pois o interior do Estado está cada vez mais atingido pela doença. A flexibilização nesse momento deve ser muito bem controlada e a população precisa colaborar com os cuidados. Caso contrário perderemos tudo o que se fez de bom até aqui. Outros países, inclusive os desenvolvidos, já nos mostraram isso.

JM: O governo terá que socorrer a indústria, pequenas e microempresas?
Argemiro:
Já o está fazendo. Mas será preciso mais. E não vejo muito interesse e cacife econômico para aumentar esta ajuda. Um bom segmento do governo está preocupado com o aumento do déficit público, o que está correto. Porém, diante de uma situação excepcional como essa não há muito o que fazer. É preciso colocar dinheiro público para recuperar a economia, porém, o mesmo deve ser temporário, apenas para dar conta da crise. Logo em seguida teremos que voltar ao aperto monetário sob pena de a economia afundar ainda mais e não sairmos desta nova recessão. Além disso, será preciso urgentemente mudar de postura no governo central frente ao mundo, pois precisamos do capital externo e, ele, diante dos atritos e destemperos presidenciais e de alguns ministros, não só está evitando de vir ao país como está saindo rapidamente daqui. Isso explica em boa parte a forte desvalorização do Real nestes últimos tempos.

JM: País tem dinheiro para essas medidas ou terá que contrair dívida ou imprimir moeda?
Argemiro:
Não há dinheiro para isso neste momento. Isso porque não fizemos o dever de casa ainda em 2011. Pelo contrário, desde então aumentou-se o rombo das contas públicas. Faz dois anos que se começou a ensaiar uma correção de rumo, mas ainda insuficiente para o tamanho da crise que aí está. Assim, o endividamento público irá crescer, devendo atingir perto de 100% do PIB no final deste ano, além de termos que emitir moeda. Neste último caso não exatamente imprimir moeda, mas atuar na recompra de títulos públicos e estratégias semelhantes. Mas todas com forte potencial inflacionário e de aumento de juros no futuro.

JM: Na sua opinião poderá ocorrer inflação, aumento na taxa de juros ou até mesmo uma disparada maior no preço do dólar no futuro próximo?

Argemiro: Sim, mais adiante poderá haver aumento da inflação e dos juros para contê-la, dependendo de como o governo continuará atuando no combate aos efeitos do coronavírus. Por enquanto não é o caso, pois estamos com a economia quase parada há praticamente 6 anos. Com isso a inflação se mantém baixa, pois a demanda é curta, e o governo pode reduzir os juros. O problema que tal redução não chega na ponta consumidora, não servindo ao propósito principal que é animar a economia. Serve apenas para reduzir o juro da dívida pública, porém, leva o dólar especulativo, volátil, para fora do país, acelerando a desvalorização de nossa moeda. Pois esse dinheiro vem atrás de juro elevado e estabilidade política e econômica, coisas que o Brasil está longe de oferecer neste momento. Assim, a desvalorização do Real pode ainda aumentar no curto prazo, porém, tecnicamente não haveria espaço para muito mais, já que a mesma está fora de propósito (desde meados do ano passado o governo já gastou mais de US$ 50 bilhões de nossas reservas tentando segurar o câmbio). O câmbio normal, dentro da paridade de poder de compra, hoje deveria estar entre R$ 3,70 e R$ 4,00 por dólar e não os quase R$ 6,00 que vivemos. O mercado financeiro calcula que poderemos terminar o ano de 2020 com um câmbio entre R$ 4,80 e R$ 5,30 se o governo conseguir administrar, daqui em diante, a crise que temos. A questão é: conseguirá ele fazê-lo?

JM: O Brasil fez algumas reformas (como a da previdência e a trabalhista), agora acena para reforma administrativa, tributaria e um novo pacto federativo. Mesmo com isso, por que o Brasil não atraiu investimentos diretos expressivos até agora?
Argemiro:
Primeiro, porque as reformas são recentes. Segundo porque os efeitos das mesmas, especialmente a previdenciária, acontecerão daqui 10 anos (é uma reforma de longo prazo). Terceiro porque as mesmas não foram completas, havendo muitos privilégios que não foram atingidos, e o mercado sabe disso. Quarto, porque as demais reformas não saíram do papel e do discurso, estando longe de serem aprovadas. Talvez em 2021! Além disso, tudo dependerá da qualidade das mesmas. Enfim, e o ponto mais importante, o mercado, depois de certa euforia inicial, percebeu que o Brasil não tem governo eficiente. E a crise do coronavírus cristalizou isso, assim como os conflitos constantes na área externa. Com isso, se agarrou ao ministro Guedes e sua proposta liberal de ajuste da economia, a qual é boa, porém, precisa de ambiente político para ser implementada. E isso não tem existido no país, incluindo aí a incompetência do Presidente da República. Assim, seguidamente o boato de que o ministro Guedes poderá ser demitido, como outros importantes ministros já o foram, vem à tona, deixando o mercado “apavorado”. Em um ambiente destes, no meio de uma das maiores crises econômicas da história mundial, não há capital externo que se aventure a vir para o nosso país. Para piorar, o risco-Brasil disparou nestes últimos tempos, com o mercado estimando que estamos perto de um calote da dívida.

JM: Paulo Guedes, ministro da economia, vem conduzindo bem a política econômica do país?

Argemiro: No meu entender, a proposta do ministro Guedes era coerente com as necessidades imediatas do país. Precisamos sim reduzir o déficit público e tornar o Estado mais eficiente. Para tanto, reformas estruturais como as indicadas anteriormente são fundamentais. O problema está na execução das mesmas, a qual acaba ficando incompleta, não privilegiando igualmente as diferenças socioeconômicas da sociedade, o que gera um caldeirão explosivo para o futuro próximo (veja o que ocorreu e está ocorrendo no Chile a respeito). Soma-se a isso a instabilidade emocional e a falta de preparo do Presidente da República, e de alguns de seus próximos seguidores. Mais recentemente as diferentes descobertas de corrupção e outros malfeitos em torno da família do Presidente, e o ambiente político para avançar nas reformas e nas medidas de ajustes na economia vão por “água abaixo”. Neste contexto, quem ainda está segurando o pouco de estabilidade econômica que temos é o ministro Guedes. Se o mesmo sair do governo, a crise, neste momento, ficará ainda pior. O risco é trocar o ajuste econômico por uma política desenvolvimentista populista/eleitoreira, estilo Lula/Dilma entre 2007 e 2014, como uma ala dos militares que está no governo estaria indicando com o que se chamou recentemente de Pró-Brasil. Por enquanto o mesmo está engavetado, mas…. O Brasil precisa sim de investimentos em infraestrutura, porém, o Estado não tem mais condições de fazer isso de forma adequada. Especialmente após os gastos em função do coronavírus. Um programa destes deve privilegiar o setor privado, com a gestão do Estado para que as coisas caminhem adequadamente. Mas, por enquanto, nada disso se observa. Com isso, o ministro Guedes se encontra em dificuldades, pressionado no Executivo e sem apoio suficiente no Congresso Nacional. E a aproximação do Presidente com o chamado Centrão, voltando à política do “toma lá – dá cá”, piora consideravelmente a situação. Assim, não há segurança da manutenção do ministro no governo. Esse é mais um fato que impede o capital estrangeiro de investir a contento no Brasil. E sem ele, pouco poderemos avançar positivamente nos próximos anos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here