A realidade do trabalhador durante a pandemia

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Jonas Ferreira de Campos, 31 anos, autônomo, veio a Santo Ângelo para tentar sacar o auxílio de R$ 600. Fotos: Daniele Angnes

Em meio à fila em frente à agência da Caixa de Santo Ângelo, a família de Jonas Ferreira de Campos, 31 anos, dialoga solitária em busca de uma solução às negativas de retirada do auxílio de R$ 600 do governo. Ele, a esposa (grávida) e o filho moram em São Miguel das Missões, vivem de aluguel e a única renda da casa era a de Jonas, que prestava serviço de chapa. “Tinha bastante trabalho antes, agora tá pouco. A gente não consegue dinheiro pra viver. Procuramos ajuda na assistência, eles dizem que vão lá em casa, mas não aparecem”, diz com um nó na garganta, com medo de falar em voz alta, como se ouvir a própria história tornasse ela ainda mais difícil.

A família veio a Santo Ângelo para ver se aqui conseguiria ter respostas sobre o auxílio emergencial, uma vez que na cidade onde residem não tem conseguido. “Não estamos conseguindo dinheiro pra pagar aluguel”, diz Jonas. “Dependemos da ajuda das pessoas pra viver”, acrescenta.

A história da família de Jonas se multiplica em meio a esta pandemia. Nesta sexta-feira (1º), dia se comemoram as conquistas da classe trabalhadora (com o Dia do Trabalhador), porém a suspensão das atividades econômicas pegou muitos de surpresa. Paralisou o trabalho de grande parte da população. Quem segue trabalhando, teme pelo futuro. Quem é empregador, passa pelo temor de ter de demitir e fechar as portas.

Presidente do SindiComerciários de Santo Ângelo, Cristian Carmo Fontella diz que embora seja um ano difícil para os trabalhadores, ainda há de se destacar as conquistas históricas da classe, como o direito a férias remuneradas, abono salarial, décimo terceiro salário e licença maternidade. “Entretanto, esse ano de 2020 nos fez parar para refletir o quanto essas conquistas são valorizadas e respeitadas, especialmente pelos atuais governantes do país que, em meio ao caos da saúde pública diante da pandemia do Covid-19, desrespeita o que há de mais importante na iniciativa privada: seus trabalhadores”, ressalta.

Medidas adotadas pelo governo trazem incertezas à classe

Na mesma fila em frente a Caixa, Cleusa Ribas, 60 anos, aguardava o código que liberava o valor que ajudaria nas despesas de casa

Até então, cerca de 5 milhões de trabalhadores afetados, sendo 1 milhão aptos a receber o seguro-desemprego, outros 4 milhões tiveram seus contratos suspensos ou salário reduzido até o momento e, somando-se a isso, 200 mil sequer conseguem fazer o encaminhamento do seguro social que lhes é de direito.

Conforme o presidente do Sindicomerciários de Santo Ângelo, Cristian do Carmo Fontella, por debaixo dos panos o governo edita uma medida provisória que visa facilitar os acordos individuais entre empresas e funcionários, “permitindo que se dê a diminuição dos salários sem que os sindicatos possam se pronunciar, o que, claramente, favorece a vida do patrão e não a do trabalhador já tão necessitado de auxílio. Não bastando, temos os profissionais autônomos que ainda não conseguiram aprovação para o auxílio emergencial de R$600 proposto pelo governo ou que não conseguem sacar a ajuda devido à grande demanda nos serviços bancários.”

Thiago Alfaro Messina: “A classe trabalhadora funciona como as engrenagens que movem a máquina, e não há máquina que funcione sem suas engrenagens.”

De acordo com o advogado trabalhista Thiago Alfaro Messina, especialista em direito do trabalho e direito processual do trabalho, as medidas adotadas pelo governo federal só trouxeram incertezas, uma vez que visaram apenas trazer algum alívio aos empregadores e não diretamente os trabalhadores. “É claro que a bandeira defendida pelo governo é a manutenção dos postos de trabalho, porém, as ações previam que a crise duraria alguns meses no máximo”, avalia.

Ainda, para Messina, o governo deverá rever suas ações e adotar novas medidas de combate ao desemprego e para evitar a quebra das médias e pequenas empresas, “que também estão sofrendo muito durante esse período de crise”, destaca.

Consequências ao trabalhador

Na mesma fila em frente a Caixa, Cleusa Ribas, 60 anos, aguardava o código que liberava o valor que ajudaria nas despesas de casa. Ela, depois de sair do empego no restaurante (que fechou há cerca de dois anos), passou a fazer bicos e vender salgados. Com a pandemia e orientação de distanciamento social, viu a pouca renda reduzir. “Tenho meus dois filhos que trabalham e ai eles contribuem em casa, a gente se ajuda bastante, mas tenho medo que eles também sejam atingidos, percam o emprego”, diz.

Ela conseguiu o auxílio, mas não sem um longo processo de tentativa e espera. “Entendo que as medidas adotadas pelo governo foram tardias e apenas paliativas”, observa Messina, uma vez que a grave crise econômica brasileira já vem de antes do surgimento da pandemia. “Acredito nenhuma das medidas econômicas adotadas, sejam elas reforma trabalhista ou previdenciária, surtiram qualquer efeito prático para o aumento dos empregos, mas sim, apenas retiraram direitos dos trabalhadores, que só sentirão os reflexos dessas medidas a longo e médio prazo”, alerta.

Para Cleusa, o Dia do Trabalhador, é uma esperança (sentimento que não falta ao brasileiro). “Espero um dia melhor. Desejo que ano que vem essa situação mude, temos de ter essa esperança”, diz.

Orientações para este momento

Messina, por mais que trabalhe com a causa trabalhista, diz que é muito difícil dar qualquer sugestão neste momento, uma vez que a realidade do trabalhador é de quem necessita de seus ganhos para garantir a subsistência. “Na imensa maioria dos casos, não há reservas para se manter caso fique sem receber os salários”, avalia.

Porém, diz que uma recomendação a ser adotada em todos os casos é tentar apertar o cinto, “não creio que o momento seja apropriado para compras de coisas supérfluas, haverá necessidade de ter alguma reserva para compra de alimentos, e, inclusive, para o caso do empregado vir a ser dispensado do emprego e o empregador não ter condições de pagar as verbas rescisórias, que também tem ocorrido durante a crise”, alerta.

O advogado reforça que neste momento deve prevalecer o bom senso. Que empregados e empregadores deverão fazer concessões para manter os empregos e a saúde da empresa. “A classe trabalhadora funciona como as engrenagens que movem a máquina, e não há máquina que funcione sem suas engrenagens.”

 

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