‘A recuperação do espaço da antiga estação revitaliza a alma e as raízes da cidade’

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Confira entrevista do procurador da República, Osmar Veronese, sobre a revitalização das ferrovias

A busca pela recuperação da malha ferroviária regional segue em andamento mesmo 13 anos após o seu início. O procurador da República do Ministério Público, Osmar Veronese, em entrevista ao Jornal das Missões, destaca as conquistas já alcançadas, o que está sendo feito e a importância da luta para a preservação do patrimônio público regional

Jornal das Missões: Após 13 anos de luta, está próximo da revitalização das ferrovias ser efetivada?
Osmar Veronese: A malha ferroviária existente na região é um importante testemunho da história e do desenvolvimento. Considerando que cumpre ao Ministério Público Federal a defesa dos interesses sociais e individuais indisponíveis, e do patrimônio público e social, nestes 13 anos, promoveram-se medidas judiciais e extrajudiciais. Em 2003, com ampla participação comunitária, houve a celebração de um termo de ajustamento de conduta com a América Latina Logística Malha Sul, que previa, em síntese, a retomada do transporte ferroviário na região e a recuperação do patrimônio público ligado à ferrovia.
O acordo foi descumprido, levando o órgão a entrar com ação judicial na Justiça Federal para forçar o cumprimento do acordado. Após longo período de tramitação, homologou-se um acordo judicial, visando a recuperação de parte da ferrovia regional (a linha de Ijuí a Santa Rosa, que havia sido desativada, hoje possui circulação de trens de carga, embora ainda com baixa ocupação), o estudo de viabilidade do trecho Santo Ângelo/São Luiz Gonzaga, mais R$ 8 milhões para investimentos sociais nos municípios que diretamente sofreram o abandono da prestação desse serviço de relevância pública.

Jornal das Missões: Quais municípios aqui da região terão suas ferrovias recuperadas?
Osmar Veronese: São quatro estações dos municípios de São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, Catuípe e Ijuí que serão recuperadas agora. Os demais municípios optaram por investir em projetos sociais. Santa Rosa construiu o parque Tape Porã; Guarani das Missões fez um projeto de reassento de famílias com risco social eminente; Sete de Setembro fez obras do Centro Poliesportivo e academia ao ar livre; Rolador reconstruiu a Praça da Matriz e fomentou o turismo ecológico; São Luiz Gonzaga, além da revitalização da estação, também reformou o Centro Integrado da Cidadania, fez obras da Praça Cícero e reformou o palco Cenair Maicá; Cerro Largo projetou a construção do Centro Comunitário de Loteamentos e revitalizou a Praça Matriz; Catuípe, além da revitalização, implementou obras da Praça Municipal; Giruá construiu uma praça pública, cobriu um ginásio de escola e criou uma academia ao ar livre.

Jornal das Missões: Qual foi o investimento neste trabalho?
Osmar Veronese: Conforme estipulado o Acordo Judicial, os investimentos sociais serão no montante de R$ 8 milhões, destinados aos dez municípios que ficaram sem o serviço ferroviário por um tempo.
Para Ijuí, o total destinado foi de R$ 1.415.620,71; Santo Ângelo: R$ 1.381.644,43; Santa Rosa: R$ 1.282.701,36, São Luiz Gonzaga: R$ 844.729,00, Giruá: R$ 619.751,93; Cerro Largo: R$ 571.026,84, Catuípe: R$ 519.985,19; Guarani das Missões: R$ 504.438,47; Rolador: R$ 432.766,52; Sete de Setembro: R$ 427.335,46. Total: R$ 7.999.999,92. O rateio dos valores entre os municípios seguiu um acordo entre os prefeitos, levando em consideração que 50% serão repassados de forma igualitária e 50% de acordo com o número de habitantes de cada cidade.
Além disso, o acordo previu a recapacitação do trecho ferroviário Santa Rosa – Cruz Alta, incluindo Giruá, Santo Ângelo, Catuípe e Ijuí, com investimento mínimo de R$ 6 milhões e até 7 milhões. Também, a revitalização do desvio ferroviário que dá acesso ao terminal da Cotap, em Giruá, com investimento de 1 milhão e 400 mil reais. Isso já foi implementado.

Jornal das Missões: Em Santo Ângelo, o que haverá na área da antiga ferrovia? Em que fase está sua revitalização?
Osmar Veronese: Haverá cercamento, calçadas, recuperação da casa de guarda, iluminação, recuperação dos vagões e da casa principal (o que for possível com o dinheiro disponibilizado). Só foram feitos o cercamento e as calçadas, os demais passos estão sendo decididos por uma comissão composta pelo Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado e a Prefeitura, com auxílio da URI.

Jornal das Missões: Qual a importância histórica de todo esse trabalho?
Osmar Veronese: Além de tentar recolocar os trens nos trilhos, a recuperação do espaço da antiga estação revitaliza a alma e as raízes da cidade. Muitos acontecimentos importantes ali ocorreram nesse espaço nesses cerca de 100 anos. Esse cenário resume um pouco da história inglesa (projeto arquitetônico da estação), da belga (caixa d’água importada da Bélgica), da Coluna Prestes (Luís Carlos Prestes participou da construção da ferrovia e, quando da formação da Coluna, houve reuniões na atual estação), e de tantas outras histórias de vida de santoangelenses e forasteiros que por ali passaram. Ademais, atrai olhares de turistas/visitantes, o que fomenta a economia, ajudando a desenvolver a cidade, além de injetar autoestima na população, tendo em vista que esse centro passa a pulsar com mais brilho.