Adolescentes trocam bonecas por filhos de verdade

0
86

Em Santo Ângelo, cerca de 90 meninas, entre 12 e 17 anos, estão grávidas ou já tiveram seus bebês

Ser mãe na adolescência é algo não muito fácil de encarar. Lidar com o susto e as responsabilidades antes da hora pode ser difícil. A evasão escolar é somente uma das consequências desta realidade presente em Santo Ângelo.

Segundo a coordenadora técnica dos Centros de Referência da Assistência Social (Cras) e Centro de Referência Especializada da Assistência Social (Creas), psicóloga Fátima Silveira, as meninas que engravidam precocemente, em sua maioria, não têm maturidade emocional, não estão noivas e muitas vezes não têm desenvolvimento físico. “O problema ocorre não pela falta de informação, mas pela falha de formação que deveria vir dos adultos, especialmente dos pais. Mesmo com a correria do dia-a-dia, os pais devem arrumar um tempo e dialogar com os filhos, tanto com a menina como com o menino, a fim de orientá-los”, diz.

Fátima afirma que muitas vezes não é uma gravidez indesejada plenamente. “Porque a proteção é o sentimento de identidade e ser mãe se torna um projeto de vida para elas que já perderam o colo dos pais, porque não são mais crianças, mas também não são adultas. Essas meninas têm a ideia de que ser mãe é algo valorizado na sociedade”, frisa.

As adolescentes grávidas, em Santo Ângelo, estão na faixa etária dos 12 aos 17 anos. “É difícil divulgar um número específico de meninas grávidas no município, pois muitas delas se ‘escondem’ devido aos sentimentos de insegurança, vergonha e constrangimento.”

No município, a Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Cidadania desenvolve projetos em suas três unidades sociais (Cras Missões, Sepé e CSU), com atividades educativas, culturais, de prevenção e acompanhamento das gestantes e das mães, que possuem filhos na faixa etária de zero a seis anos.

CONSEQUÊNCIAS

A psicóloga Fátima Silveira destaca que a primeira reação dos familiares é de rejeição e que alguns pais, inclusive, pensam em expulsar a filha de casa. Muitas meninas param de frequentar a escola, perdem a juventude e sofrem preconceitos da sociedade. No caso dos meninos que se tornam pais, ocorre também a evasão escolar e o ingresso precoce no mercado de trabalho para ajudar a família. “A gravidez é um fator gerador de conflitos e que vulnerabiliza uma família inteira. Não atinge somente famílias pobres, mas de classe média também”, enfatiza.

Em Santo Ângelo, já iniciou um trabalho de formação dos técnicos que atuam nos Cras com intuito de melhor abordar com os jovens as questões relacionadas à sexualidade  e a gravidez.

Em cumprimento ao Estatuto da Criança e ao Adolescente (ECA) a reportagem usará pseudônimos e preservará as imagens dos menores de 18 anos.

MÃE E PAI ADOLESCENTES VIVEM JUNTOS

Há dez dias nasceu o bebê de Camila, 14 anos. O pai da criança é um outro adolescente de 15 anos que construiu uma casa de madeira para morar com a mãe e o bebê. Ela interrompeu os estudos no 7º ano e ele no 5º ano. “A gente morava no mesmo bairro e começamos a namorar no colégio. Eu não gostava muito de estudar e por isso parei, mas quero fazer o Neeja e minha mulher vai voltar a estudar ano que vem”, fala o pai do bebê.

Antes de ocorrer a gravidez, o casal fugiu de casa e foi para a residência de uma irmã do menino, porque a família de Camila não aceitava o relacionamento. Dias depois voltaram, por determinação do Conselho Tutelar. Foram morar na casa da mãe do menino. Em seguida, souberam da gravidez e construíram uma casa no terreno da mãe de Camila e vivem juntos até agora.

Para manter as despesas da casa, o menino disse que está trabalhando em uma padaria. A avó de Camila também ajuda. “Estando mais próximo da mãe ficamos mais tranquilos. Nós programamos para ter este filho porque queríamos ser pais ainda na juventude”, falou a menina.

MÃE AOS 13 ANOS

Jéssica tem 13 anos e está no quinto mês de gestação. O pai da criança é um jovem de 18 anos. Ela admite que a gravidez foi um descuido. “Namorava com o menino e quando descobri que estava grávida acabei separando dele e criando um grande ódio. No início, pensei em abortar, minha mãe adotiva ficou bravíssima, mas não permitiu que eu matasse o bebê”, conta.

A menina teve o seu corpo transformado pela gravidez. Agora está com glúteos e coxas mais avantajados, mas o rosto permanece o de uma criança. Está estudando no 7º ano do ensino fundamental e por sugestão de seu médico ginecologista diz que frequentará a escola até o sétimo mês de gestação.

A mãe adotiva diz que a gravidez gerou um problema familiar. “Meus filhos biológicos ficaram com ciúmes e não aceitam muito a gravidez dela. Quero arrumar um apartamento ou uma casa para morar com ela”, diz a mãe adotiva.

DA AMIZADE AO NAMORO QUE SE TRANSFORMOU EM GRAVIDEZ

Priscila de Lima Teixeira tem hoje 18 anos, mas aos 17 teve o seu primeiro filho. Ela conta que o pai do bebê era seu grande amigo e essa amizade se transformou em paixão temporária. “Saímos juntos e de repente começamos a sentir ciúmes um do outro, até que ficamos pela primeira vez. Não contávamos para os nossos pais sobre o nosso namoro, mas um dia engravidei e quando descobri que ele já era pai de outro filho nos separamos”, conta.

Agora voltaram a ser amigos, porém, Priscila diz que é somente por causa do filho. “Quando descobri que seria mãe fiquei muito feliz. Eu já trabalhava de babá e sabia como cuidar de criança. Nos últimos meses de gestação eu acabei parando de estudar. Eu cursava o 1º ano do ensino médio”, relata.
 

Santo Ângelo tem cerca de 90 adolescentes grávidas ou puérperas

De acordo com o vice-coordenador do Conselho Tutelar, Vilmar Rener, atualmente existe 90 adolescentes grávidas ou puérperas (que já realizaram o parto), no município. Esses casos são acompanhados pelos conselheiros tutelares.
Quando o Conselho Tutelar fica sabendo de um caso de gravidez precoce, faz o encaminhamento da menina a um médico. “Se a gravidez for ocasionada por violência ou se o pai da criança separa da menina, encaminhamos ela para o atendimento psicológico”, destaca.

O Conselho passa a fazer visitas à casa da adolescente em conjunto com uma assistente social do Cras ou Creas, acompanhando as condições em que vive a menina, bem como os cuidados com higiene, alimentação e a saúde.

No caso de evasão escolar, é feito um Termo de Compromisso obrigando os pais a fazerem com que os filhos retornem para a escola. Se se tratar de gravidez de risco, a escola deve preparar atividades diferenciadas para a gestante realizar em casa, conforme previsto na norma do Conselho Estadual de Educação.