Bloqueio de rodovias causa prejuízos na região e preocupa indústrias

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Indústria de leite e de suínos são as mais afetadas

A paralisação dos motoristas de caminhão iniciada na última sexta-feira (20) em todo País fez com que muitas cidades entrassem em alerta devido ao abastecimento de produtos para alimentação, além de combustível. No entanto, os principais reflexos são em dois setores industriais importantes para economia do Estado: as indústrias do leite e de suínos. O bloqueio de caminhões tem evitado de que a ração, por exemplo, chegue até os frigoríficos para alimentar os animais. Recentemente, o trecho foi liberado para caminhões com carga de animais vivos, porém os frigoríficos dizem que a medida de pouco adianta, tendo em vista que não há mais espaço para armazenamento da carne após o abatimento.

Conforme o diretor do Frigorífico Alibem, Juscelino Oliveira, a situação é grave. “Estamos com mais de 400 mil suínos sem receber ração. Não temos o que fazer ou previsão para que esse alimento chegue. Também não temos como levar os animais para o campo. Eles estão morrendo por falta de comida e quanto mais o tempo passa pior fica”, ressalta. Juscelino esclarece que esse é um fator muito preocupante e que as indústrias não estão contra a manifestação, pelo contrário, acham justa. No entanto, o prejuízo para empresa está sendo muito alto. “Alto ao ponto de colocar em risco a sobrevivência da suinocultura na região. Não é como estocar soja ou milho ou ferro. Em 50h sem alimentação todos os animais podem morrer e não teremos mais o que abater. E aí, as consequências serão graves”, comenta.

A indústria leiteira bem como os produtores também estão sofrendo graves impactos com a paralisação. Os associados da Coopatrigo/CCGL, por exemplo, tiveram o recolhimento da produção de leite cancelada. A suspensão, conforme a cooperativa, é temporária e deve ser retomada após a situação ser normalizada.
A decisão foi tomada pelo responsável pela área leiteira da cooperativa, Roberto Malmann, em função de o leite ser um produto que não pode ficar muito tempo parado nas filas, evitando assim que o produto estrague antes de chegar.

O Sindilat/RS também manifestou a preocupação baseado nos relados dos associados de que haveria caminhões carregados com leite em seus tanques impedidos de seguir com o trabalho.
O problema é decorrente em diversas regiões do Estado e também do país o que levou o presidente da entidade, Alexandre Guerra, a manifestar-se dizendo que o protesto dos caminhoneiros causa prejuízo econômico à indústria e produtores e poderá provocar dano ambiental, aludindo à eventual necessidade de descarte de leite, em caso de o movimento perdurar. Em nota o sindicato afirmou entender o pleito, mas acreditar que a cadeia leiteira, bem como outras atividades econômicas, não podem ser prejudicadas, por isso, estuda entrar com uma ação judicial na tentativa de garantir a livre circulação dos caminhões utilizados para o transporte do leite.  

‘SITUAÇÃO É DRAMÁTICA’, DIZ PRESIDENTE DO SINDICATO DOS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação de Santo Ângelo e Região, Luís Carlos Machado Mousquer, ressalta que a situação gerada pela paralisação dos caminhoneiros para o setor da indústria é dramática. “O Sindicato não é contra o movimento dos caminhoneiros, e sim contra o ‘desgoverno’ que atua no país hoje” frisa.

Ele comenta que o principal problema enfrentado pelas indústrias da região é que há cerca de 500 mil suínos que já passam das 30h sem comer. “Se eles chegarem a 50h sem comer vão morrer. Isso vai gerar um colapso, pois pode ser que estará se resolvendo a situação do segmento dos motoristas e gerando outro em nosso segmento, gerando demissões em massa em toda região”, enfatiza.
Mousquer reconhece que os caminhões com carga viva estão sendo liberadas junto com produtos perecíveis, no entanto, chama atenção para o bom senso na hora da liberação. “Mesmo com a liberação dessas cargas, não tem como os frigoríficos abater os animais porque não há como armazenar a carne. As câmaras frias estão cheias e os caminhões que saem daqui são trancados no bloqueio novamente”, diz.

Outro aspecto ressaltado pelo presidente é com relação a crise em que os frigoríficos podem entrar. Para ele, em breve as unidades de Santa Rosa, Santo Ângelo e São Luiz Gonzaga podem estar fechando as portas em função da greve.

“É importante lembrar que para que nosso segmento retome o trabalho é muito mais difícil. Levaria no mínimo um ano. Por isso, peço bom senso para que deixem passar a soja e o milho que vão para as indústrias para que seja feita a ração dos animais. Eles estão passando fome e morrendo. Peço que usem do bom senso e sejam criteriosos na liberação dos caminhões. Não precisam liberar grãos para comercialização porque não estragará, mas os animais, se ficarem sem alimento, vão morrer”, esclarece. Ele acrescenta ainda que seu maior medo é ter que anunciar inúmeras demissões em breve.

INDIGNAÇÃO
Mousquer enfatiza a indignação com o governo, após o anúncio do secretário Geral da Presiência da República Miguel Rossetto que anunciou que não mudará o preço do diesel. “Ele não está preocupado nem tem noção do que está acontecendo e no que tudo isso vai implicar. Amanhã ou depois vai começar a faltar gasolina e comida e o reflexo será sentido em todos os setores”, diz.

“Estou chocado, triste e preocupado com o desfecho. Com o que pode acontecer depois dessa greve. Isso pode acabar gerando à nossa classe cerca de 40 mil demissões, mas parece que ninguém está preocupado com isso”, conclui. Ele afirma ainda que a situação tende a piorar se não houver o término da greve, podendo haver manifestações dos próprios trabalhadores da indústria em breve.