Comunidade de Eugênio de Castro quer transformar Lagoa da Mortandade em ponto turístico

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Para lembrar os 90 anos de um combate, estudantes e cavalarianos farão passeio até o local

O município de Eugênio de Castro fará um passeio com escolas e cavalarianos até a Lagoa da Mortandade, que fica no entroncamento entre São João Mirim e Carajazinho, a aproximadamente 20 km da sede. A ideia é que o local, que foi palco de uma batalha em 17 de outubro de 1923, entre chimangos e maragatos, seja transformado em ponto turístico (veja mais informações sobre a batalha no artigo nesta página).

A caminhada envolverá alunos de escolas municipais e estaduais e ocorrerá no dia 19 de outubro, pela manhã. O roteiro passará por uma bênção do padre ao lado da lagoa, e posteriormente um abraço da comunidade na Lagoa da Mortandade. Conforme a secretária de Educação de Eugênio de Castro, Mara Teixeira, ainda haverá uma fala de historiadores do município, Volmar Teixeira e Aloísio Vier. Eles relatarão a história de lutas que ocorreram no local há 90 anos.

“A lagoa foi arborizada, preservada e cercada, em uma parceria entre o Poder Público e a proprietária da fazenda onde está a lagoa”, explica Mara.

SECA NO ANO PASSADO

O motorista aposentado Rui Gonzalez, natural de Eugênio de Castro e hoje residindo em Santo Ângelo, lembra que em 2012 a Lagoa da Mortandade teve seu cenário mudado em função da grande estiagem que se abateu sobre a região, quando quase secou. “Meu tio Valente Secondino Gonzales sempre conta a história dessa lagoa, em que muita gente morreu e foi jogada ali, junto com os armamentos. Dizia-se que nada se criava nesse local em função disso”, conta Rui.

 

O velho combate do Carajazinho

Douglas Augusto Teixeira dos Reis, Graduado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, pela Ibes Sociesc Blumenau; e-mail: [email protected]

Edipo Djavan dos Reis Göergen, Graduando em História, pela URI – Campus de Santo Ângelo; e-mail: [email protected]

Luiz Felipe Sausen de Freitas, Graduando em Geografia, pela UFSM; e-mail: [email protected]

O Rio Grande do Sul estava mais uma vez dividido. Assim como em 35 e 93 do século XIX, os gaúchos novamente pegavam em armas para defender seus ideais ou interesses, dessa vez no longínquo ano de 1923. Não aceitando os duvidosos resultados da eleição estadual do ano anterior, a qual reelegeria Borges de Medeiros para mais um mandato, o quinto consecutivo, a oposição se revolta, prepara seus homens e vai para o campo de batalha. Dividido entre maragatos e chimangos, trazendo em seus peitos os lenços vermelho e branco, os gaúchos vão à luta, manchando de sangue os verdes campos sul rio-grandenses.

Os rebeldes, conhecidos como Maragatos, usaram em diversos combates, táticas de guerrilhas, atacando o inimigo de surpresa e se retirando o mais breve possível, até porque não tinham condições bélicas de enfrentar as forças governistas de igual para igual. Nessa tática de guerrilha, alguns nomes se destacam, como Zeca Netto e Leonel Rocha, mas principalmente Honório Lemes. O famoso Leão do Caverá era um homem rude da lida de campo, mas que também sabia comandar um batalhão como ninguém, sendo idolatrado por seus comandados e muito respeitado por seus inimigos de batalhas.

Dentre os chefes legalistas, destacou-se a figura de José Antônio Flores da Cunha, general, interventor federal e político, que mais tarde viria a ser governador e senador do Rio Grande do Sul. Flores se tornou a figura mais marcante dos Chimangos nos campos de batalha, sendo um encosto para as tropas rebeldes, estando sempre no rastro do combatente rival, Honório Lemes. Ambos se enfrentaram diversas vezes, principalmente na região da campanha gaúcha, onde Flores era interventor e Honório profundo conhecedor daqueles campos.

Apesar de defenderem ideais opostos, de estarem sempre um no encalço do outro, ambos nutriam um respeito mútuo muito grande, o qual é nítido num dos episódios finais da revolução, em que Honório mesmo se rendendo e entregando suas armas, Flores da Cunha não as aceita, em sinal de respeito à figura do legendário combatente maragato. Ambos eram idolatrados por onde andavam, paravam eventos e se tornavam a atração por onde chegavam. Flores era homem letrado, de fácil comunicação e de grande saber, já Honório, mesmo sendo um senhor interiorano, peão de estância, era um homem que portava um grande carisma. O que os assemelhava era a grande liderança, principalmente comandando seus exércitos.

Como fora citado anteriormente, os líderes militares maragatos e chimangos muito pelearam pelo pampa gaúcho. Muitas batalhas encarniçadas ocorreram, com os maragatos tendo grande número de baixas e imensas dificuldades no duelo, mesmo quando surpreendiam o oponente. A partir das dificuldades enfrentadas, Honório tenta algo novo, mudando o cenário das batalhas, migrando para a região das Missões.

Depois de algumas refregas pelos pagos de São Luiz Gonzaga, Honório toma o rumo de Santo Ângelo, visando encontrar o Ministro de Guerra Setembrino de Carvalho, o qual se encontrava naquele município. Este foi mais um dos homens enviados pelo presidente brasileiro Artur Bernardes, tendo a incumbência de negociar a paz no Rio Grande do Sul. Talvez por isso que Flores, no rastro de Lemes, não queria que o encontro dos dois ocorresse. Dessa forma, o comandante chimango apressa a marcha e adianta-se perigosamente de sua tropa, no intuito de encontrar a coluna de Honório Lemes a tempo.

O encontro inevitável ocorre próximo a Estância dos Kruel, na localidade de Carajazinho, no dia 17 de outubro de 1923, num dia frio daquela primavera. Nesse período, a referida localidade situava-se ainda do interior do município de Santo Ângelo. Seus donos, eram descendentes de uma das famílias portuguesas que vieram à região em fins do século XIX, a fim de recolonizar e reocupar os antigos territórios correspondentes às antigas reduções jesuítico-guaraní.

A coluna de Honório Lemes estava acampada na região, sempre à espera do encontro com as forças governistas, as quais ao que tudo indicava não deveriam tardar a chegar. Por volta do meio-dia Honório e seus homens haviam carneado alguns animais e feito fogo. Tal ato poderia visar atrair as forças inimigas com a fumaça, escondendo-se assim no mato e pagando os de surpresa, ou então, era simplesmente a hora do almoço. A dúvida recorre nos distintos discursos de Flores e Honório em suas lembranças de revolução. Flores afirma que os maragatos nem haviam acabado de tirar o couro dos animais, já Honório ressalta que sábia que o inimigo se aproximava e usou a fumaça como tática para pegá-los de surpresa.

O fato é que Flores, muito à frente de seus homens, realmente foi pego de surpresa e perseguido por Democratino da Silveira e Mallet dos Santos, mas não se rendeu e acabou sendo salvo pelo Major Laurindo Ramos. Este último, munido por uma metralhadora na retaguarda, esperou Flores se distanciar dos oponentes e atingiu os maragatos no mesmo momento. A coluna de Honório Lemes acaba levando ligeira vantagem no início do combate, principalmente por pegar o adversário desprevenido, porém, devido às melhores condições bélicas dos chimangos, a luta se equilibra até o momento que Honório se retira com seus homens.

Depois do combate, assim que a noite chega, Flores e seus comandados usam o mesmo local antes utilizado por Honório Lemes para se acamparem. No dia seguinte, encontram um soldado aliado degolado nas margens de uma lagoa, a qual mais tarde ficaria conhecida por Lagoa da Mortandade. O soldado encontrado havia perdido a montaria no combate do dia anterior, ficando por ordens de Flores da Cunha, próximo a uma sanga, com uma espada da brigada cedida pelo mesmo, para se proteger.
A degola do soldado chimango gerou indignação entre os combatentes legais, o sentimento de vingança aflorou, ainda mais quando souberam que havia combatentes rebeldes, feridos, se tratando em uma estância nas proximidades. Flores da Cunha logo tratou de por fim no sentimento de vingança, não deixando que seus homens invadissem a estância para vingar o companheiro degolado.
Dentre os maragatos, ficaram feridos os perseguidores de Flores da Cunha no início da peleia, Democratino da Silveira e Mallet dos Santos, atingidos por balas de metralhadora desferidas pelo Major Laurindo Ramos. Mallet seguiu até Tupanciretã em busca de ajuda médica, já Democratino não aguentou os baques do transporte e ficou por algum tempo na Estância São João Mirim, de propriedade de Libindo Viana. Democratino era amigo de longa data do rival de revolução e chefe legalista, Flores da Cunha, que mais tarde visitaria o amigo em São João Mirim, o encontrando em estado precário. Tempos depois, Democratino viria a falecer em Paris, ainda em decorrência do ferimento de 17 de outubro.

Dentre as forças legais ocorreram vários registros de mortos e feridos, do qual se destacava o nome de Heitor Coimbra, com ferimento de bala no pé e também do já mencionado soldado, que feito prisioneiro pelos maragatos, foi encontrado degolado no dia seguinte. Dentre os maragatos, o número de feridos era maior, além dos já mencionados Democratino e Mallet, também foi ferido o Coronel Mingote Cunha de Uruguaiana.

O Combate do Carajazinho, como ficou conhecido, é de grande importância, não somente por nele estarem presentes grandes chefes legalistas e rebeldes, como os já citados Flores da Cunha e Honório Lemes, como também por ser um entrave para a sonhada paz da Revolução de 1923.

Depois de encontros sangrentos nas Missões, mais propriamente em São Luiz Gonzaga, Honório Lemes, tentando por fim aos combates, vai ao encontro do General Setembrino nos pagos de Santo Ângelo. O encontro acaba não ocorrendo, devido ao enfrentamento dos maragatos com os homens e Flores no Carajazinho. A revolução se arrastaria ainda por mais dois meses, culminando com a assinatura do Pacto de Pedras Altas, no dia 14 de dezembro de 1923, o qual pacificava por hora o Rio Grande do Sul, declarando paz entre Borgistas e Assisistas, ou para melhor entender, entre chimangos e maragatos.

Como marco do lendário combate de 1923, restou a famosa Lagoa da Mortandade, a qual para muitos populares serviu de túmulo a chimangos e maragatos que tombaram naquele sangrento 17 de outubro. Antigos moradores do atual município de Eugênio de Castro afirmam que o combate ocorreu cerca de 1 Km da famosa lagoa e que após o combate, os corpos dos mortos foram depositados em suas águas. Sem estudos aprofundados a cerca deste episódio da revolução, o local hoje é coberto de mitos e lendas, criando-se em seu entorno uma mística grandiosa, que merece ser explorada e respeitada, cada vez mais.