Cruz pode remeter a novas descobertas, diz teólogo

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Encontrada há três anos, em Camaquã, a cruz considerada missioneira reacende o desejo por novas pesq

De acordo com o doutor em Teologia Édison Huttner, há muito mais por trás da descoberta daquela que seria a cruz perdida de São Miguel das Missões. O artefato, encontrado em Camaquã há três anos, abre um leque de possibilidades, até então não exploradas por pesquisadores e arqueólogos gaúchos. “As pesquisas geralmente estão focadas nas Missões, no Uruguai e na Argentina. Com a descoberta da cruz e sua legitimação, sabemos que os objetos sacros foram mais longe. Que há uma ligação forte entre os municípios, que ainda carece de atenção”, destacou o doutor, professor da PUC e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Arte Sacra Jesuítico-Guarani na instituição.

A cruz, encontrada em uma gruta por Édison e seu irmão, Éder Abreu Huttner, foi estudada desde 2010, até vir a público neste ano. Durante este período, com a ajuda da prefeitura e da Secretaria de Cultura de Camaquã, o teólogo se deteve à análise do artefato – que possui 2,2 metros de comprimento e 1,11 metros de largura. A cruz é feita de ferro e chega a pesar mais de 26 kg, mesmas características daquela que se encontraria na antiga redução jesuítica.

“O mais engraçado é que essa cruz permaneceu por anos em Camaquã, sem que alguém a percebesse. Ela estava parcialmente enterrada e, muitos desatentos sequer perceberam que havia nela um brasão e a inscrição SPHN, que é, na verdade, a abreviação de Espanha em latim. A mesma inscrição é encontrada em moedas da época, que circulavam na região”, aponta o pesquisador, que viveu em Camaquã a partir dos 6 anos de idade, sem ter percebido, assim como muitos, a ligação do artefato com o império espanhol.

A descoberta aconteceu em um retorno seu à cidade, enquanto fotografava e estudava a história do primeiro padre de Camaquã, Hildebrando de Freitas Pedroso, tema de seu livro. Em 2011, quando teve a oportunidade de visitar a Espanha e a Itália, Édison aproveitou para ir a fundo em seu estudo. “Novos fatos comprovaram que essa pode, sim, ser uma das cruzes perdidas de São Miguel. O artefato é uma cruz de campanário, conforme observei na Europa, e assemelha-se a uma litografia realizada em 1846 pelo médico pesquisador francês Alfred Demersay, responsável por revelar a estética da igreja e também de sua cruz”, detalha o teólogo.

No arquivo secreto do Vaticano, onde focou parte de seu estudo, Édison fez uma nova descoberta: que a cruz encontrada, e possivelmente pertencente à redução, não é a única perdida. Há uma outra, conforme apontam os arquivos, desaparecida e com a inscrição “salve, oh cruz, única esperança”, em latim. 

À espera da legitimação

Questionado, Édison diz que não falta muito para que sua descoberta seja legitimada e para que a cruz seja tombada como patrimônio histórico da humanidade. “Como eu disse, todos os elementos apontam para um artefato pertencente à redução de São Miguel. Já temos um relatório com 78 páginas, que apenas será estudado (e aprofundado) pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).” De acordo com o teólogo, o trabalho não deve durar mais que dois meses.

Enquanto isso, discute-se sobre qual será o destino da cruz. Já considerado patrimônio histórico de Camaquã, o artefato não deve ser levado para São Miguel das Missões. “Caberá à Secretaria de Cultura decidir como será feito daqui para frente. Por enquanto, a cruz está sendo restaurada, mas há o desejo de que ela venha a ser exposta, pelo menos por um período, na região das Missões”, destaca o teólogo, afirmando que não há pressa para decisões. “Queremos que sua segurança seja mantida”, completa.

Na opinião do doutor em Teologia, a cruz é um patrimônio do Estado, e não apenas de São Miguel, já que une a região das Missões à Camaquã e à Lagoa dos Patos. “Esse símbolo certamente chegou a Camaquã através de carreteiros, responsáveis pela rota de erva-mate”, aponta. Para o teólogo, faltam às duas regiões mais símbolos que remetam a esta produção. “Enquanto eu estudava em Camaquã, por exemplo, nunca ouvi falar de uma rota na cidade. E isso com certeza precisa ser resgatado e explorado”, comenta.

Para o teólogo, novas descobertas podem estar por vir, especialmente vindas de cemitérios litorâneos.