Dia Mundial da Religião comemora ‘esperança em tempos de desespero’

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Diretor do Instituto Missioneiro de Teologia, padre Léo Zeno Konzen, comenta sobre a data

Com o objetivo de promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre todas as diversas religiões existentes no mundo, hoje, dia 21 de janeiro, é comemorado o Dia Mundial da Religião.

A data busca incentivar a convivência pacífica entre todas as diferentes ideologias religiosas e doutrinais, evitando a intolerância religiosa. Neste mesmo dia, o Brasil comemora o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, como um reforço ao objetivo proposto pelo Dia Mundial da Religião. De acordo com o preceito do Dia Mundial da Religião, não importa se a religião é monoteísta (acredita em um deus) ou politeísta (acredita em vários deuses e entidades), quase todas buscam em essência o mesmo objetivo: a paz e o respeito entre os seres humanos e a natureza.

Para explicar como a religião pode ser definida e suas características principais,  o Jornal das Missões realiza entrevista especial com o diretor do Instituto Missioneiro de Teologia (IMT), padre Léo Zeno Konzen. Santo Ângelo possui curso de Bacharelado em Teologia, desenvolvido através da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) em convênio com o IMT, com reconhecimento do Ministério da Educação.

Jornal das Missões: Qual é a definição para a religião e qual seu objetivo?
Padre Léo Zeno Konzen: A religião é um fenômeno complexo, de modo que até sua definição é um pouco difícil de dar. Podemos dizer que religião é um fenômeno humano que se encontra em quase todas as culturas. É um fenômeno diversificado, não existe uma única religião. É uma expressão de uma dimensão do ser humano que foge aos aspectos mais imediatos, que estão sob o seu próprio controle. A religião trabalha essa dimensão na linha do transcendente, mas ao mesmo tempo, todas lutam para que essa relação com o transcendente se expresse também no concreto da vida, no imanente como dizemos. Então, é expressão do mistério do ser humano, pois não nos entendemos direito, os seres humanos não sabem direito o que são e a religião é uma expressão dessa dimensão do ser humano, que é um animal, é um ser da natureza e tem tantas coisas iguais aos demais seres. No entanto, também é diferente, e essa diferença não é simplesmente a de que ele pensa ou planeja, por exemplo, uma característica muito especial. O ser humano “sabe que sabe”. Sabe que pode planejar, por isso nós aperfeiçoamos as coisas. O ser humano dentro desta visão, do “sabe que sabe” também é diferente dos outros seres, pois existe a dimensão de que ele não sabe tudo, de onde vem, de qual é o sentido da existência, o que nos espera na vida e a religião trabalha essa relação.

JM: O que pode ser comemorado no Dia Mundial da Religião?
Padre Léo: Tem muito a se comemorar. As religiões, de modo geral, são fenômenos ambíguos, pois existe o lado benéfico e o lado fanático. Tem esse lado que ela pode se tornar doentia, pode virar fanatismo ou um espaço para jogar a responsabilidade para seres superiores quando deveríamos assumir as coisas. Esse é um lado que não se pode comemorar. Porém, eu diria que se olharmos para as religiões, veremos pessoas profundamente humanas, inspiradas na sua fé, na sua religião, instituições com missão extremamente beneficente, trabalhos humanitários de solidariedade, de educação, trabalho pela saúde, de ajudar inclusive a fazer questionamentos. Por exemplo, as culturas vão criando seus valores e as religiões muitas vezes têm um olhar diferenciado e fazem seus questionamentos,  propondo alternativas. Eu diria que as religiões têm muito a comemorar, não de uma forma triunfalista, não se trata disso, mas também sem um sentimento de inferioridade. Às vezes ficamos pensando, pois as religiões já causaram muitos problemas. Em nome de Deus já se fez muito crime, mas também em nome de Deus, podemos dizer assim, surgiram as coisas mais nobres da humanidade, grandes pessoas que se tornaram referência na humanidade, muitas foram por causa da religião, instituições que foram organizadas por religiões, e que se tornaram fontes de educação, de saúde, de consciência, em tantos espaços da vida, nesse sentido que se comemora. É a manutenção da esperança em tempos de desespero.

JM: Como a população de Santo Ângelo é dividida quanto a religião?
Padre Léo: É bem diversificada, mas basicamente em Santo Ângelo temos o cristianismo em muitos ramos. Quando se fala em religião, evangélicos, católicos, luteranos, evangelho quadrangular, assembleia de Deus, todos têm essa fé cristã. Então, nesse sentido, em Santo Ângelo em termos de religião predomina basicamente o cristianismo. Existe  também outras religiões menos presentes, por exemplo o islamismo, alguma coisa de religiões afro-brasileiras.

JM: Como as religiões se relacionam em Santo Ângelo?
Padre Léo: As igrejas cristãs têm uma organização que se chama CICSA, Conselho de Igrejas Cristãs de Santo Ângelo, mas nem todas as denominações participam. Há um bom grupo de padres, pastores e pessoas da igreja que se reúnem de tempos em tempos para realizar algum trabalho em conjunto.

JM: Quais são os principais pontos a serem destacados no assunto religião?
Padre Léo: A religião envolve várias coisas importantes, se tem um conjunto de crenças, doutrinas e seu ritos, ou seja, sua expressão de culto, seu jeito de rezar, de fazer as reuniões e em geral, também tem um conjunto de normas que orientam a vida. Acho que todas as religiões precisam estar abertas para que não percam as suas coisas fundamentais e que também se adaptem às novas exigências do momento. Na religião, nem tudo está tão fixo como às vezes as pessoas acham. Por isso, o curso de Teologia cria até mesmo uma insegurança para algumas pessoas no começo, porque muitas das coisas que pareciam tão estabelecidas, de repente ganham um contexto, que é discutido e aprofundado. Em Santo Ângelo há este espaço privilegiado de aprofundamento da Teologia, que é justamente o estudo daquilo que é, mais especificamente, o cristianismo. Aqui temos alunos de várias denominações cristãs, no momento não temos alunos que não são do cristianismo, mas têm alunos também que não se identificam muito nem com uma, nem com outra religião, mas que  querem estudar Teologia. O curso ajuda a compreender um pouco melhor qual é esse olhar que as religiões têm. Alguns também fazem uma distinção entre religião e fé, ‘eu creio em Deus mas não vou na igreja’, é uma forma de pensar, mas as religiões sempre trabalham um pouco coletivamente a fé de uma tradição e das pessoas que estão ali. Em termos de religião, é uma organização que vai trabalhando uma certa tradição e vai atualizando e renovando esta tradição. No caso do cristianismo especificamente, temos muito essa preocupação de que a religião seja vivida no dia a dia, ou seja, exercendo a profissão eu vou sempre ficar atento para qual é a inspiração que vêm da minha fé, da minha religião, para que eu ajude a construir um mundo para mim e para os outros que esteja dentro do sonho ou ideário que a religião tem.

SAIBA MAIS SOBRE RELIGIÕES
Com o cristianismo, a igreja se dividiu em três vertentes: protestante, ortodoxa e católica. Expandiu-se na Europa a partir do século XX, atingindo a marca dos dois bilhões de fiéis. Seu livro sagrado é a bíblia, e traz como forma de vida os ensinamentos do filho de Deus, Jesus Cristo.

Em razão das divergências de opiniões e dos conflitos acontecidos ao longo da história da humanidade, a Assembleia Espiritual Nacional, composta pela Comunidade Bahá´í (Pérsia) criou o dia mundial da religião, o dia 21 de janeiro, a fim de originar a adesão entre as várias religiões existentes, numa proposta de paz.

O islamismo atinge a marca de 1,2 bilhão de adeptos no Oriente Médio e na Ásia, fazendo da mesma a segunda mais seguida e também a religião que mais cresce no âmbito mundial. Seu livro sagrado é o Corão, que utiliza os ensinamentos do profeta Maomé (Muhammad). Eles acreditam que assim como Jesus recebeu mensagens divinas, Abraão, Moisés e Maomé também receberam, sendo que não existirá nenhum outro após Maomé.

O judaísmo nasceu no século XVII a.C, em Israel, seus seguidores acreditam ser descendentes de Abraão. A vida judaica é administrada pelo Tanach, seu livro sagrado, que apresenta 613 mandamentos fundamentais na Torá, seus cinco primeiros livros.

A maior nação católica do planeta é o Brasil, com cerca de 130 milhões de adeptos, que representam 73,8% da população. Mas as divergências religiosas têm aumentado o número de fiéis das igrejas evangélicas ou neopentecostais. Outro lado que tem crescido é o das pessoas que afirmam não seguir nenhuma religião. Os outros 5% se dividem entre judeus, doutrinas orientais, cultos afro-brasileiros e espíritas.