‘Discriminado em legislação que deveria garantir os meus direitos’

0
113

Surdo Willyan Jonathan da Silva relata discriminação no cumprimento da Lei de Cotas

Dados do Portal Brasil indicam que de 2011 a 2014 um número representativo de pessoas com deficiência conseguiram emprego no Brasil. O quadro é reflexo da Lei nº 8. 213, conhecida como Lei de Cotas. A legislação determina que empresas com ou mais funcionários devem incluir de 2% a 5% dos seus cargos para pessoas portadoras deficiência. Dessa forma, a determinação aumentou a fiscalização por parte do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) quanto ao cumprimento da lei nas empresas.

Porém, a legislação que na teoria têm características voltadas para a promoção da inclusão e da igualdade, não está cumprindo com seu objetivo na prática, pelas empresas de Santo Ângelo. Willyan Jonathan da Silva é surdo e relata que no município a Lei de Cotas vem sendo discriminatória com seu tipo de deficiência. “As empresas aqui em Santo Ângelo têm vagas para deficientes, divulgam no Sine e nos jornais, mas quando chego para a entrevista explico que tenho deficiência auditiva e o gerente fala que não posso preencher a vaga em função da comunicação com as pessoas”. Willyan ressalta que há discriminação dentro da lei, uma vez que as empresas disponibilizam vagas para deficientes mas não aceitam surdos. “O sentimento em relação à Lei das Cotas, num primeiro momento é de alegria de saber que existe uma lei que ampara os deficientes em conseguir uma oportunidade no mercado de trabalho” completa.

Baseado nisso, Willyan foi procurar emprego, candidatando-se como Pessoa com Deficiência (PCD). Neste momento, percebeu que existiam outros deficientes, com outras deficiências, que também se candidataram à vaga. Na hora da entrevista foi questionado sobre sua fala, “Me perguntavam ‘você fala?’ e eu dizia, ‘não, eu sou surdo’” como resposta, o entrevistador dizia que precisava de uma pessoa que se comunica, que saiba falar. Quanto a isso, Willyan comenta: “explico que posso me comunicar com auxílio de intérprete, que a Libras (Língua Brasileira de Sinais) é a minha língua, que existe uma lei que ampara o meu direito de comunicação através da Libras. Eu explico tudo isso para o entrevistador e mesmo assim ele diz que é muito complicado ter um surdo com auxílio de intérprete ou até mesmo, que a empresa não está preparada para isso”.

Ele conta que quando se trata de outra pessoa que tem problema motor ou até mesmo deficiência mínima física, mas que consegue se comunicar bem, esta será a preferida nesses espaços, “o sentimento é de total frustração porque eu estou sendo discriminado dentro de uma legislação que deveria garantir os meus direitos”.

Willyan ressalta que trata-se de uma realidade de Santo Ângelo, destacando que não passou por estas situações em outras cidades, “em outras cidades que já morei o surdo tem uma valorização maior em relação a isso, já existe uma estrutura melhor como em Porto Alegre, até em Santa Maria e Santo Ângelo não está acompanhando este processo”.

Willyan Jonathan da Silva visitou o Jornal das Missões junto da Intérprete Tatiane da Silva Campos, do professor Hed Vilson Pires, coordenador Projeto de Futebol para Surdos, e do representante da Juventude Socialista do PDT, Maurício Loureiro.