Do campo do sonho à melhor realidade

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Uma festa de Dia das Crianças era um sonho do marido de Neiva de Freitas. E o sonho se concretizou

Em parte do último sábado (11), o céu trouxe chuva a Santo Ângelo e, com ela, uma incerteza. No domingo (12), porém, com o tempo limpo, a incerteza se foi, e um sonho, não de agora, não de meses, mas de anos, pôde se concretizar. “No sábado eu estava preocupada com o tempo. Pensei: ‘Deus vai me ajudar, vai ter tempo bom amanhã’. E teve. Agora posso deitar e dormir tranquila.”

A declaração é da aposentada Neiva Terezinha de Freitas, 58 anos, moradora do Bairro Panazzolo. Neiva vem enfrentando há nove anos um câncer no intestino. Ela e a família contam que as sessões de quimioterapia e radioterapia terminaram há três anos, mas a aposentada ainda não está livre da doença. Há aproximadamente 20 dias sofreu uma cirurgia para a retirada de parte do tumor, para ser feita uma biópsia, cujo resultado deverá sair em breve. “Nunca me considerei doente, nunca disse para mim que estou doente. Estou bem, estou feliz, me sinto bem. É assim que encaro tudo”, diz.

No dia 8 de novembro serão completados dois anos do falecimento de seu marido, Arlindo do Couto, que morreu aos 65 anos. Aproximadamente seis meses antes ele tinha descoberto um tumor na próstata. A enfermidade foi se agravando rapidamente.

ELE E AS CRIANÇAS
Arlindo era apaixonado por crianças. Muitas vezes, Neiva chegava em casa e deparava com o marido brincando e divertindo vizinhos pequeninos. “Meu pai era muito ‘crianceiro’. Gostava muito de fazer brincadeiras, estava sempre com a casa cheia de crianças. Ele era uma criança grande”, relata a filha Priscila Freitas do Couto, metalúrgica de 23 anos.

Promover uma festa gratuita de Dia das Crianças era um sonho de Arlindo. Mas ele e a família conversavam, ficavam de fazer, buscavam se organizar, e a festa não saía.

E a agressividade da doença e a consequente partida de Arlindo não permitiram mais que, com ele em vida, a festa continuasse a ser planejada. Mas a família não descansou enquanto o evento não saísse, como forma de homenagem a ele e às crianças, pessoas estas que sempre despertaram a admiração e a dedicação de Arlindo.

E, apesar de o clima ora chuvoso de sábado ter levado um pouco de preocupação à família quanto ao domingo, a festa, totalmente gratuita para seu público, pôde, enfim, sair, virando motivo de diversão e entretenimento para aproximadamente 200 crianças. Embora o Departamento Municipal de Trânsito, de quem Neiva obteve autorização, não tenha comparecido para fechar a rua, a família improvisou, utilizou materiais que seriam usados na decoração e, enfim, a Rua São José, em frente à residência de Neiva, se transformou no palco da alegria das crianças.

APOIO ALÉM DO ESPERADO
Foram aproximadamente dois meses de preparação, com Neiva e a família correndo atrás de apoiadores para a iniciativa. O que tinha a previsão de ser um evento de menores proporções foi tomando corpo ao longo da preparação.

Resultado: apoio de supermercados, padarias, fruteiras, pessoas físicas, e uma festa, das 13h às 18h, com camas elásticas, piscina de bolinhas, cachorro-quente, pastéis, refrigerantes, sorvetes, picolés e docinhos. Em torno de 20 pessoas, entre familiares, amigos e vizinhos, atuaram como voluntários – seja como bruxa, como palhaça, ou orientando as filas, ou servindo os lanches. “Todo mundo ajudou. Virou um festão”, analisa Neiva.

Para anunciar a festa ao seu público, houve visitas a escolas, creches e a bairros, com distribuição de convites. “Foram dois meses nos programando. Eu me sinto feliz, com o sonho realizado, com o sentimento de dever cumprido, ainda mais por termos tido tanta ajuda e a festa ter ficado ainda maior”, expõe a aposentada, complementando que, em caso de mau tempo no último domingo, a programação seria realizada no próximo fim de semana.

OS PAIS E O ORGULHO
O sucesso da festa virou – mais um, afinal – motivo de orgulho para os três filhos de Neiva. “Ela é uma guerreira. Enfrentou dificuldades e nunca desistiu, sempre lutando. Muitas vezes, temos o hábito de mais reclamar do que fazer. Ela foi lá e fez”, comenta o administrador Éder Leandro Hoch, 36 anos, fruto do primeiro casamento da mãe.

“Sempre demos apoio, e agora estamos muito felizes por ela”, diz a também metalúrgica Caroline Freitas do Couto, 25. “Temos muito respeito e admiração pela nossa mãe. Ela poderia ter ficado deitada em casa, descansando, mas correu atrás da concretização desse sonho e beneficiou pessoas que ela nem mesmo conhece”, avalia Priscila.

E, além de tudo o que os filhos aprenderam com o exemplo da mãe, o pai também deixou outra lição que eles dizem carregar sempre consigo. “Nosso pai tinha 115 quilos e chegou a ficar com 60. Mas, mesmo doente, frágil, não perdia o bom humor e a alegria. Estava sempre sorrindo, feliz, para não deixar que a gente se contagiasse. Ele nos deixou a grande lição de que quem faz a situação é você mesmo”, conclui Priscila.