“Ele não costumava abraçar e estes dias recebi um abraço tão apertado, que não tem preço”, conta a mãe de um autista

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O Jornal das Missões conversou com os pais Andrea e Fernando Benedetti sobre a rotina de Lucca

Lucca parecia um menino como outro qualquer, porém, na idade em que seu vocabulário deveria conter mais palavras ele não falava muito; quando falava, repetia a mesma frase diversas vezes durante o dia; em alguns episódios se batia, balançava os braços e gritava. Começou assim a peregrinação da professora Andrea Compassi Benedetti e seu marido Fernando em busca de um diagnóstico para o filho.

“Passamos por diversos especialistas. A pediatra indicou um otorrino, ele fez exames e apareceu que era surdo de um ouvido e moderado do outro e teria que usar aparelho. Tivemos a sorte de conhecer uma pediatra, que veio de Santa Maria, e foi ela que diagnosticou o Lucca”, conta Andrea.

A descoberta da deficiência

Aos 4 anos o pequeno Lucca foi diagnosticado como autista. A mãe conta que foi um susto e uma nova jornada em busca de informações. “Não sabíamos o que era autismo, nem o que fazer. Temos uma médica dermatologista na família, que também foi buscar informações. A médica, que o diagnosticou como tendo autismo leve e hiperativo, recomendou fonoaudióloga, psicopedagoga e duas medicações”, diz.

Com a descoberta de que o filho tinha uma deficiência, a família começou a desenvolver materiais pedagógicos para que Lucca pudesse desenvolver todas as suas capacidades cognitivas. “O autista tem dificuldades no aprendizado de pequenas tarefas diárias. Precisamos fazer um cronograma diário, dizendo que ele precisa escovar os dentes, trocar a roupa, tomar banho, comer, essas pequenas coisas que as crianças aprendem imitando, para o autista é necessário mostra e fazer junto com ele. Em oito meses, através de todo trabalho familiar, conseguimos praticamente equiparar sua idade normal e mental”, explica.

Pais devem buscar informações

Para os pais que têm crianças com este distúrbio, a mãe diz que o essencial é buscar informação e ajuda. “Ainda bem que temos condições de dar ao Lucca o apoio que ele precisa, tanto médico quanto familiar. Tivemos que nos estruturar, modificar toda a rotina. Expliquei ao meu filho mais velho que precisaríamos dar mais atenção a ele, que ele tinha esta deficiência e que agora precisaríamos mudar algumas coisas. Meu marido e eu somos professores; graças aos colegas de trabalho conseguimos adequar nossos horários para cuidá-lo. No início foi bem difícil, é necessário ser persistente, rígido e enfático com ele, não pode ser ‘8 ou 80’, porque senão ele não entende. Isto até pode causar estranheza, contudo fazemos isto para que ele possa cada vez mais ser independente”, diz.

Emocionada Andrea conta que Lucca gosta muito de música e tem grande facilidade em decorar as letras. “A primeira apresentação dele fiquei bastante apreensiva. Não sabia o que esperar, mas ele cantou sozinho, foi maravilhoso.” O pai Fernando ainda ressalta sobre cada descoberta e aprendizado de Lucca. “Estamos na luta; cada dia é diferente, cada sucesso é comemorado, acreditar sempre e ter paciência: essas são as palavras chaves, pois normal é ser diferente e hoje sou pai azul”, afirma o pai. 

Convivência social é extremamente importante

Lucca hoje tem 7 anos e frequenta a escola normal – ele está no segundo ano no Colégio Teresa Verzeri. Andrea comenta que nunca escondeu de ninguém que o filho é autista, para que todos pudessem entender algumas atitudes do filho. Segundo ela, o autista tem os sentidos mais aguçados, como tato, paladar, olfato e audição, o que dificulta a concentração e atrapalha no aprendizado, além de causar prazer ou dor. “Nosso filho quando ouvia barulho de sirene gritava, fica hipnotizado com ventilador, créditos de filmes ou qualquer coisa que girasse. Um dia não pude secá-lo após o banho porque ele disse que doía. Todos os sentidos dele são mais aguçados que os nossos, por isso tivemos que ensiná-lo a conviver com isso e aprender a conhecer diferentes gostos, texturas. Quando ele começou a ir para a escola, mandamos bilhetes para todos os pais. Instruímos as professoras que muitas vezes deveriam conter o Lucca, porque quando ele ouvia o barulho de sirene gritava, se batia ou puxava o cabelo. E seria estranho se os pais vissem a professora agarrando um aluno. Mas eu agradeço sempre a compreensão de todos da comunidade escolar, que sempre foram ótimos”, acrescenta a mãe.

Andrea fala que é extremamente necessária esta interação social e o trabalho em equipe, desenvolvido por médicos, família, alunos, pais de estudantes, escola e sociedade, para o desenvolvimento do Lucca e de outras crianças autistas. Conforme a mãe, as escolas são obrigadas a receber alunos com deficiência por lei federal. “Eu acredito que socializar as crianças com autismo é extremamente importante, para todo desenvolvimento social, cognitivo e educativo. Agradeço muito e digo que somos abençoados, pois nosso filho sempre foi convidado para eventos dos coleguinhas, então ele nunca se sentiu rejeitado. Cada conquista dele é uma grande vitória, festejamos muito. Costumo dizer que minha grande alegria, e ao mesmo tempo grande tristeza, foi que o primeiro beijo que ele deu não foi em mim, foi na professora. Ele não costumava abraçar e estes dias recebi um abraço tão apertado, que não tem preço”, completa ela.

O AUTISMO

O pai de Lucca, Fernando Benedetti, cita o médico especialista Francisco Assumpção para explicar sobre o autismo. O médico afirma que “o autismo é considerado um distúrbio do desenvolvimento e faz parte de um grupo de condições denominadas transtornos globais do desenvolvimento. Pessoas com esse distúrbio possuem dificuldades qualitativas na comunicação, interação social e a imaginação e consequentemente problemas comportamentais. Atualmente o autismo é considerado um distúrbio do desenvolvimento e faz parte de um grupo de condições denominadas, no seu conjunto, de distúrbios abrangentes do desenvolvimento ou transtornos globais do desenvolvimento”.

Segundo ele, o diagnóstico do autismo é clínico e feito através de observação direta do comportamento e de uma entrevista com os pais ou responsáveis. “Os sintomas costumam estar presentes antes dos 3 anos de idade, sendo possível se fazer o diagnóstico por volta dos 18 meses de idade. Ainda não há marcadores biológicos e exames específicos para autismo, mas alguns exames são necessários para investigar causas e outras doenças associadas”. Andrea alerta os pais que desconfiem de algumas atitudes de seu filho; quanto mais cedo o diagnóstico for dado mais chances de levar uma vida “normal” a criança terá. “Quando seu filho não olha nos olhos, tem atraso na fala, fique de olho, procure especialistas. Senti na pele e conversando com outros pais que os médicos ainda não estão totalmente preparados para este diagnóstico, por isso procure informações. E a família tem de trabalhar junto, porque senão nenhum tratamento irá funcionar”, salienta a mãe.