‘Eles dependem tanto de doações que às vezes ficam até dois dias sem comer’, relata militar sobre o Haiti

0
134

Santo-angelense e dentista Maríndia Farah integrou tropa que passou os seis últimos meses no país

Manter a ordem. Essa é a premissa básica que rege o Exército brasileiro, em sua pátria ou no país em que está realizando suas missões. Mas seus serviços vão muito além. A busca pela paz e a humanização das ações são quase palpáveis quando o tema é a missão realizada pelo Exército brasileiro no Haiti.

Um país devastado primeiro pela guerra civil e depois, em janeiro de 2010, por um terremoto que, além de fazer 316 mil mortos, levou a população para um estado deplorável, em que 80% dos cerca de 3 milhões de cidadãos vivem abaixo da linha da miséria. O Exército brasileiro se insere junto com a ONU em uma missão da manutenção de paz e também na tentativa de auxiliar na busca pela melhoria da saúde, infraestrutura e qualidade de vida. Parte disso se dá por meio de ações realizadas pelos próprios soldados e cabos, bem como pelos profissionais da saúde do Exército que se disponibilizam a atuar no trabalho de atendimento e conscientização da população.

Santo-angelense e dentista do 1º Batalhão de Comunicações (1º B Com) de Santo Ângelo, a tenente Maríndia Andrea Quarenghi Farah, 35 anos, participou do último batalhão a realizar a missão no Haiti. Ela partiu da base aérea de Guarulhos (SP) junto com outros 1.200 militares que se voluntariaram para participar da missão. “Chegando lá, nós integramos o Brabat, que é o batalhão brasileiro. Nosso principal objetivo é manter o ambiente seguro e estável para a população, já que eles tiveram uma guerra civil e agora precisam manter o ambiente seguro e estável, sem novas guerras. Como eles não têm exército, os exércitos do mundo inteiro trabalham nessa missão. No entanto, o Brasil é o que está em maior número”, relata a tenente, que passou os últimos seis meses trabalhando no país caribenho e retornou na segunda quinzena de janeiro. A missão foi iniciada em 28 de maio de 2014.

TREINAMENTO
Antes de integrarem a equipe do Brabat, os militares receberam um treinamento na cidade de Marabá, no Pará. “Passamos todo o mês de abril lá enfrentando simulações de todos os tipos de adversidades que poderíamos vir a enfrentar quando estivéssemos no Haiti”, diz.

Ela relata que foram simuladas manifestações, atropelamentos, atendimentos à saúde, problemas civis, obras de infraestrutura, enfim, todas as situações que poderiam acontecer. “Claro que não tinha como simular um terremoto, mas nós recebemos todas as orientações necessárias para atuar em qualquer situação. Nunca sabemos o que pode acontecer no Haiti; precisávamos estar preparados”, comenta.

Após o treinamento, houve o recebimento da boina azul que os identificava como membros da ONU. “Na missão, todos usávamos somente essa boina. Para mim é um orgulho poder fazer parte das Nações Unidas, da Minustah, que são as Nações Unidas para a Estabilização do Haiti”, diz.

FUNÇÃO DA EQUIPE DE SAÚDE
Membro da equipe de saúde, a tenente Maríndia relata que, no caso dos médicos, dentistas, fisioterapeutas e mesmo psiquiatras, eles vão para a missão com o objetivo de auxiliar os militares que estão na linha de frente, em contato direto com a população. “Eles não podem sentir dor ou adoecer. Eles já estão ali na frente para manter o ambiente seguro e estável, e por isso o atendimento aos militares é a nossa prioridade”, conta.

A rotina de trabalho da equipe era como no quartel, conforme o relato da tenente. “De manhã, tínhamos a atividade física e depois íamos para a sessão atender os militares. Éramos três dentistas e a cada três dias eu estava de serviço, para que não tivesse problema nenhum com os militares”, ressalta.

AS PERCEPÇÕES DE UM PAÍS RICO EM BELEZA, MAS POBRE EM ASSISTÊNCIA À POPULAÇÃO
Em suas atividades, os militares têm a oportunidade de interagir com a população e conhecer um pouco mais sobre sua realidade, cultura e necessidades. Como dentista, a tenente Maríndia trabalhou no atendimento da população por meio de atividades cívico-sociais. “Eu fazia escovação com as crianças de orfanatos e escolas, além de dar palestras de motivação e incentivo e instruções de higiene”, diz.

O Brabat realiza ainda distribuição de água e alimento à população de Porto Príncipe. A tenente relata que o país é muito pobre e não são todas as pessoas que têm acesso à educação e, por isso, o Exército oferece cursos pensando na qualificação da população ao mercado de trabalho. Entre os cursos oferecidos, estão de socorrista, pedreiro, marceneiro, barmen, serralheiro, aulas de português e curso de manutenção de ar-condicionado. “Nesses cursos, foram 7.384 haitianos beneficiados. Essas pessoas terão uma coisa a mais que o resto da população, para facilitar que achem um emprego, porque, embora lá tenha vagas, ainda há muitas coisas que precisam ser melhoradas”, afirma.

Ela frisa ainda que uma das coisas que chamaram sua atenção durante o período em que esteve lá é que todas as coisas que os haitianos ganham, eles vendem. “No Brasil, por exemplo, se você vai a uma comunidade e faz uma doação de roupas, eles ficam com essas roupas. Lá não. Qualquer doação eles vendem. Tendo duas peças de roupa, para hoje e amanhã, está bom. Eles dependem tanto de doações que às vezes ficam até dois dias sem comer”, conta.

A tenente diz que percebeu também que a população está muito acostumada a ganhar e por isso, muitas vezes, deixa de procurar um emprego. “Depois do terremoto, eles ganharam muitas doações. Do mundo inteiro. E tem essa parcela da população que se acomodou com as doações, tendo famílias enormes, com seis ou sete filhos”, comenta, relatando ainda que não há consciência sobre a prevenção, pois não há incentivos do governo sobre isso. Todas as ações realizadas são feitas pela ONU.

SAÚDE
No que diz respeito à saúde, especialmente dental, da população, a tenente diz que os haitianos enfrentam poucos problemas com cáries. Sua principal dificuldade é com o problema periodontal. “Eles pouco comem e, quando comem, não escovam os dentes depois. Como eles vivem de doações, pouco comem doces, por isso os problemas de cáries são bem incomuns, apesar de existirem. A maior dificuldade é com a gengivite e procurávamos trabalhar isso por meio da conscientização da importância da escovação”, diz.

Ela relata ainda que era necessário tomar cuidado com a forma de abordagem. “Costumamos dizer: ‘Sempre escove os dentes após as refeições’. Mas como falarmos isso para pessoas que ficam até dois dias sem comer? Por isso, tínhamos um cuidado especial”, relata. Ela conta que levava, nas ações, um “bocão” de gesso para que as crianças mostrassem como faziam a escovação e, a partir do que eles mostravam, indicava qual era a maneira correta de escovar.

“Depois, os levávamos ao escovódromo que montávamos e colocávamos junto uma caixa de água. Eles realizavam a escovação e já aproveitavam para lavar o rosto e os cabelos. Até mesmo tomavam a água, pois lá eles têm um problema sério com água. Eles fazem fontes e na mesma fonte que buscam a água para beber e tomar banho, então, quando tinham contato com a água que levávamos, que era pura, eles aproveitavam bastante”, relata. Os haitianos ganhavam ainda kits para levar para casa para que mantivessem a rotina de escovação por, pelo menos, mais um mês.

SITUAÇÕES DE CONFLITO
O país está em constante descontentamento entre o atual governo, do presidente Michel Martelly, e os grupos que querem assumir o poder. As eleições seriam realizadas em outubro, mas não ocorreram e, depois disso, as manifestações se intensificaram. “Normalmente, as manifestações eram pacíficas, mas depois de outubro houve momentos em que ficaram pesadas, com depredações de carros da ONU e também pedras atiradas contra a tropa. Mas a revolta deles é contra o governo, não contra o Exército”, esclarece.

PATRULHA
As patrulhas são a maneira encontrada pelos militares de manter a paz entre as comunidades do Haiti. É um trabalho contínuo, em que os grupos fazem rodízios e permanecem patrulhando por quatro horas, cada, nas áreas dispostas pelo comandante. A tenente Maríndia foi voluntária em uma patrulha terrestre e em uma aérea. Ela conta que, se as patrulhas deixam de ocorrer, começam as brigas entre os grupos de haitianos que querem tomar o poder.

“Participei da patrulha com os urutus dentro de uma comunidade pacificada. Foi tranquilo. Às vezes descíamos nas comunidades com todo o aparelho de segurança, claro, para fazer a vistoria. Fiz também uma patrulha aérea, com o helicóptero, para vermos de cima como é a organização das comunidades. Graças a Deus não enfrentei nenhum problema durante a patrulha de que participei, mas na mesma comunidade a que fui, dois dias depois, os militares enfrentaram um problema de conflito entre gangues que queriam tomar a liderança do local”, relata.

SERVIÇOS PRESTADOS PELO BRABAT
Durante o período de missão, o Brabat realizou trabalhos para qualificar a qualidade de vida da população. Foram, por exemplo, instalados 300 postes de iluminação solar. “Lá não há iluminação elétrica. À noite, por ser muito quente e ter muito carvão, eles faziam pequenas fogueiras e ficavam em volta para poder conversar e se enxergar”, diz a tenente.

Além disso, foi realizada a construção de campos de futebol, reforma do Centro de Jovens, construção de uma usina de lixo, construção de muro de igrejas, reforma de telhados e restauração de escolas, apoio à ONG Viva Rio, que realiza trabalhos voluntários junto com a comunidade local, reformas de quadras de esporte, reformas e construção de banheiros comunitários e reformas de praça, além da construção de uma torre de observação e dos trabalhos constantes de segurança.

A tenente Maríndia conta ainda que os militares buscavam auxiliar no que fosse possível e uniam-se doando uma quantidade de dólares mensalmente para juntar dinheiro e comprar materiais para a reforma de uma creche que não estava na área de atuação do Brabat. “Os soldados e cabos, quando não estavam de serviço nos fins de semana, iam até o local e aos poucos faziam a reforma. Conseguimos reformar quase toda a creche. Nesse processo, cheguei à conclusão de que lá eles precisam de muita ajuda, porque é muito pior que aqui, e o mínimo que fazemos é como se ajudássemos a nós mesmos. Quando voltamos para casa, voltamos faceiros por saber que moramos num país rico e que não tem tanta miséria”, analisa.