Felipinho e seus ‘pães’: um exemplo do amor sem preconceitos

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A multiparentalidade é o parentesco constituído por múltiplos pais, isto é, quando um filho estabelece uma relação de paternidade/maternidade com mais de um pai e/ou mais de uma mãe. Essa tese vem revolucionando o Direito de Família ao reconhecer a importância dos laços biológicos e socioafetivos sem hierarquia.

Segundo o IBGE, o Brasil tem mais de 60 mil casais em União Homoafetiva. São milhares de famílias que se formam com dois pais ou duas mães. De acordo com um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia da USP, filhos de pais homoafetivos não sofrem prejuízos psicológicos, visto que a função psíquica materna e paterna pode ser exercida por duas pessoas do mesmo sexo. Mas como será que esses pais, mães e filhos enfrentam preconceito? E por que este tema ainda gera tanta polêmica?

Para entender melhor o assunto e homenagear os pais, data que será lembrada neste domingo (9), o Jornal das Missões entrevista um casal que reside em Roque Gonzales e que vive uma relação homoafetiva. Há quatro anos se tornou pai e pai, ou como dizem os próprios entrevistados: “pães”. Eles são pais de Ângelo Felipe Zuchetto Ramos Filho, de 4 anos: o advogado e empresário do ramo fluvial, Ângelo Felipe Zuchetto Ramos, 39 anos e o empresário do ramo alimentício e enfermeiro (de formação), Juliano Lissarassa dos Santos, 32 anos.

JM – Há quanto tempo vocês vivem como um casal?
Ângelo e Juliano: Há 9 (nove anos) temos uma relação homoafetiva.

JM: Como se tornaram pais?
Ângelo e Juliano: Biologicamente (filho biológico de Ângelo), em 25 de setembro de 2016 nasceu o Ângelo Felipe Zuchetto Ramos Filho, o “Felipinho”.

JM: Como o filho surgiu em suas vidas?
Ângelo e Juliano – Surgiu como decorrência da maturidade de uma relação pública entre dois homens, conscientes da responsabilidade e que deveriam ter uma sucessão familiar a fim de dar continuidade em seus projetos, assim como dar sentido propriamente à vida.

JM – Como foi a adaptação assim que o bebê nasceu?
Ângelo e Juliano – Foi muito tranquila, à medida que facilitada pela formação acadêmica do Juliano, que é cuidar das pessoas (técnico de enfermagem e enfermeiro).

JM – Como está sendo a relação pais X filho?
Ângelo e Juliano – Uma relação de amor incondicional e, acima de tudo, baseado em ensinamentos que sempre foram valiosos no seio das famílias de ambos os pais.

JM – O que o filho representa a vocês?
Ângelo e Juliano – Parafraseando Agatha Christie, representa um amor diferente de qualquer coisa no mundo, não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho.

JM – Já foram vítimas do preconceito?
Ângelo e Juliano – Nunca sofremos qualquer tipo de preconceito, ao menos publicamente. As pessoas nos respeitam, como nós as respeitamos. Esta é a base de toda relação humana. Muitas vezes há relato de preconceito, porque há afronto público aos costumes da família tradicional, em uma sociedade heterossexual, desencadeando a partir daí a homofobia.

JM – O que esperam para o futuro? (Quando a criança for para a escola e perguntarem a ele quem são seus pais)
Ângelo e Juliano – Na verdade já vivemos essa experiência. O Felipinho iniciou na escola tradicional (Colégio Medianeira – La Salle – Cerro Largo) com dois anos de cinco meses de idade. Foi um desafio tanto para nós, pais, como para a escola, que nunca havia matriculado um filho que viesse de uma família de dois pais. O momento mais desafiador foi como abordar o Dia dos Pais e o Dia das Mães. Não permitimos a substituição da figura materna por ninguém, seja “Tata”, seja “Avó”, pois cada pessoa tem um significado na vida do Felipinho.

JM – É possível afirmar que vocês são o exemplo da família do futuro?
Ângelo e Juliano – Cremos que somos precursores da família do formato em toda região missioneira, uma vez que não conhecemos outra família, formada por dois homens que sejam pais de uma criança e vivam tão tranquilo e adaptados à realidade social patriarcal.

JM – Como será a comemoração do Dia dos Pais entre vocês?
Ângelo e Juliano – Será, na verdade, uma mesma de comemoração de “Dia dos Pais” e “Dia das Mães”. Sempre digo que somos “Pães”. O Felipinho todo o amor que um ser humano pode dar a outro, através do “Pai Fê” e do “Pai Ju”.

JM – Por fim, fiquem a vontade para contar algo mais sobre esta experiência?
Ângelo e Juliano – A nossa experiência com Felipinho é extraordinária. Ter um filho é uma experiência única, que palavra nenhuma consegue descrever. Esperamos sermos um exemplo a ser seguido por todos aqueles que acreditam no amor, independente de sexo, cor, condição financeira ou qualquer outra classificação que decorra da sociedade tradicional. Existem várias formas de amor: com pais, com esposa (o) com companheira(o), amizade verdadeira. Mas, absolutamente nenhum desses amores se coampara ao que alguém tem por um filho. Um sentimento completo, de doação total, sem esperar nada em troca, uma entrega total e irrestrita. O amor de pai é incondicional, irrestrito e completo. Agradecemos a oportunidade do Jornal, de no “Dia dos Pais” poder contar um pouco da nossa história, não perfeita, mas extremamente recheadas de desafios e descobertas proporcionadas pelo nosso filho a cada dia.

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