Fernando Gomes: 30 anos a serviço do fotojornalismo

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Ele geralmente não aparece. Quase invisível, registra os fatos de maior relevância. Está sempre presente nos acontecimentos de maior repercussão. Com sua experiência e sensibilidade, dá o destaque e o ângulo adequado aos fatos, sempre de olho no foco e na luz. Esse é o trabalho do fotojornalista, que em Santo Ângelo tem como um de seus maiores expoentes Fernando Gomes dos Santos, 47 anos, dos quais 30 atuando nessa profissão.

As três décadas atrás das lentes foram completadas neste mês. Em entrevista ao Jornal das Missões, onde começou a trabalhar em 1984, Fernando fala dos desafios da profissão, da evolução dos equipamentos e também de algumas fotos que o marcaram.

 

Como você começou a atuar na profissão?

Meu primeiro emprego foi no Jornal das Missões, em 1984. Eu precisava buscar um rumo, como todo jovem com a idade tenra, e necessitava me ocupar de alguma forma. O meu pai Ismael dos Santos falou com seu ex-colega de A Tribuna Regional nos anos 80, seu Heron Filieiro, que era gerente da gráfica: “Tenho meu filho, que é esperto, jovem, e que precisa trabalhar”. Prontamente o pedido do meu pai foi atendido.

Fiquei muito feliz. Já no primeiro dia, fiquei à disposição da área de talonagem (gráfica). Na época fui também estafeta, entreguei jornal um período curto e fui auxiliar de tipógrafo. Surgiu a oportunidade de ser “mancheteiro”, ou seja, fazer as manchetes do jornal, algo que na época era feito na montagem tipográfica. Para seguir os estudos à noite, em dia de edição do jornal, muitas vezes meu pai ia em meu lugar para eu não perder o emprego.

Também tive outra chance: todo jornal possuía um laboratório fotográfico em preto e branco. O responsável saiu subitamente e me perguntaram se tinha condições de assumir esta função. Mesmo não sabendo, disse que sim, e fiquei na sala com aquela luz vermelha, sozinho. Aprendi na marra, mas sempre com disposição e vontade. Lá fazia revelação de negativos, reprodução de fotos de papel em fotolitos e serviços gráficos.

 

E quando passou a desempenhar o papel de fotógrafo?

O começo na fotografia foi quando fui chamado à sala do diretor do JM, na época Adroaldo Loureiro, que me perguntou: “Tem uma reunião importante na cidade de Posadas, na Argentina. Tu tens condições de fazer umas fotos?”. Mesmo tendo pouca noção de como usar uma máquina fotográfica e ansioso por fazer a viagem a um lugar que não conhecia, e com um frio na barriga, não titubeei e disse que tinha condições, com certeza.

Não poupei os disparos, fiz umas imagens bem razoáveis e que renderam duas páginas. Havia outros colegas jornalistas que faziam as coberturas fotográficas do jornal. Aos poucos fui ganhando espaço, movido pelos elogios de amigos, familiares e leitores dos jornais.

Naquele tempo não existiam muitas máquinas fotográficas como tem hoje, então não podia errar de maneira nenhuma. Como explicar quando solicitado para cobrir um evento e dizer que não saíram as fotos, ou saíram com pouca ou muita luz, ou mesmo fora de foco?

 

Quando começou a trabalhar, como eram os equipamentos, sistema de revelação e os prazos para fechar seu trabalho? Quais as mudanças ocorridas daquela época para a forma de trabalhar atualmente?

Na época os equipamentos não tinham muitos recursos, usava-se filme preto e branco, que era caro (revelava-se, fixava, lavava na água e depois secava o negativo). Usávamos um filme de 36 poses com ASA 100, e com ele tinha que passar uma semana. Eu mesmo revelava, cortava e usava o “toco”, como era chamado. Para fazer a foto tinha que saber bem sobre abertura e velocidade, sem ver a imagem e com qualidade. Hoje a sensibilidade que tem uma máquina digital vai de 100 a mais de 25.000 de ISO, além de possuir cartões de memória de todos os tamanhos, chegando a ter mais de 20 mil poses conforme a capacidade e tamanho da imagem, sem falar que tu vês o resultado da foto captada instantaneamente.

Hoje se capta uma imagem e no mesmo momento, utilizando a internet, se envia ao destino na hora. Lembro-me de quando era correspondente da Zero Hora na região, fazia a reportagem aqui, levava à rodoviária às 23h e implorava para algum passageiro levar até Porto Alegre. Quando chegava lá, no outro dia, ligava para a central da ZH passando o nome e endereço da pessoa que tinha o filme para eles buscarem e usarem na edição.

 

Como você foi se adaptando às mudanças tecnológicas da profissão?

Tive que ir me adequando, aceitando as modernidades da profissão. A qualidade das máquinas digitais na época era muito limitada. Tive que ler muito sobre os assuntos referentes a esta onda digital. Muitos colegas de profissão relutaram e não aceitavam, até pela qualidade das imagens, mas para o fotojornalismo era bem mais prático. Passei por três processos: primeiro o preto e branco, depois os jornais começaram a usar o filme colorido principalmente para uso de capas e última página do jornal. A revelação e cópias dependiam de empresas fora do jornal, cuja demora era de mais de duas horas. Notícias importantes fora do horário comercial dependiam da boa vontade da empresa em abrir e fazer todo o processo para os jornais. E o último processo é a fotografia digital, a tecnologia na área de informática e os programas de computador, que facilitaram muito a vida no fotojornalismo.

 

Durante a sua carreira, você atuou em coberturas para jornais, mas também acompanhando pessoas públicas e registrando eventos, como a Fenamilho. Quais as peculiaridades existentes em cada tipo de trabalho?

Parece que foi ontem que comecei. Nestes 30 anos de profissão na imprensa local, a maior parte dos anos dediquei ao Jornal das Missões, no qual aprendi muito com grandes profissionais, entre eles Isaac Feijó, Pedro Belmonte, Flávio Bechler, Augusto Bier, Clóvis Kuntz e outros dezenas de colegas. Depois trabalhei no jornal A Tribuna Regional, a convite do diretor João Baptista Santos da Silva. Quando pensei que já tinha passado por tudo, em 2005 tive a grata satisfação de trabalhar com o ex-prefeito Eduardo Loureiro por dois mandatos na Prefeitura de Santo Ângelo, na qual mudou um pouco o estilo de fotografar e a dinâmica do trabalho em jornais, e no ano de 2013 outra experiência, de ser assessor de imprensa na Câmara de Vereadores, na qual estou atualmente.

Nesta grande festa popular que é a Fenamilho Internacional, fui convidado sempre pelos presidentes devido aos resultados das feiras anteriores para prestar assessoria, penso eu que nas últimas cinco edições. Sobre as peculiaridades, tudo que se faz tem que ter comprometimento, respeito, empenho, profissionalismo e tentar fazer bem-feito o trabalho proposto, e no final ter um resultado positivo.

 

Cada fotografia, com certeza, guarda algumas histórias para o retratado e para o fotógrafo. Quais em especial o marcaram e por quê?

Com certeza registrei milhares de acontecimentos nestes anos, coisas boas, ruins, tristes, alegres, importantes, não muito importantes, feias, bonitas, de todos os gêneros. Muitos registros do acaso que surgiam na minha frente. Uma que marcou foi a de um assalto a um posto de gasolina em que tive medo, mas fui, movido pela adrenalina. Das 30 fotos que fiz, umas 15 saíram tremidas ou desfocadas. Um certo dia também fui fazer uma foto para a capa do jornal e encontrei mãe e filho no calçadão da 25. A mesma criança, uns anos depois, caiu no rio Itaquarinchim. Acompanhei o caso e no final fiz fotos quando a acharam dias depois.

Quando o meu filho acabara de nascer, no corredor do hospital fiz uma foto usando o flash. Fiquei com medo de deixar o “guri” cego. Também fiz muitas fotos aéreas em diversos tipos de aviões, em que há uma preocupação constante com as imagens e o medo de cair.

Sempre piores são fotos de acidentes com vítimas e homicídios. Teria um monte de histórias para contar.

 

Atualmente, com tantas câmeras disponíveis e a preços mais acessíveis que há 30 anos, o que permite que praticamente todas as pessoas tenham o seu equipamento, o que diferencia o trabalho do fotógrafo daquele feito pelas outras pessoas?

Antes, com sistema analógico (filmes), os fotógrafos tanto profissionais como amadores não tinham como ver o resultado instantaneamente, então tinha que ter noção do uso do equipamento para não errar. Hoje, com as máquinas digitais, inclusive as amadoras (compactas), pode-se fazer boas fotos. A máquina fotográfica profissional tem mais recursos para usar em qualquer situação, desde que saiba utilizar.

Não adianta tu teres uma máquina fotográfica moderna e não saber usar seus recursos.

Os preços variam: compactas, semiprofissionais e profissionais vão de R$ 200 a R$ 40 mil. A escolha depende do bolso e seu uso.

 

Na sua opinião, que características deve ter um fotógrafo para que tenha sucesso em sua carreira?

Não me considero um grande fotógrafo, mas razoável. Como se diz na gíria, “dou para o gasto”. Tem que ter um bom equipamento (máquina, lentes e flash) e conhecê-lo, dominar a luz do ambiente a ser fotografado, não ter preguiça e inovar nos ângulos das imagens. Tem que gostar do que faz, ser profissional e fazer fotos com qualidade.

O que é interessante hoje para mim é o respeito que adquiri através da fotografia diante dos profissionais da minha área e da comunidade como um todo. Já teve várias situações em que as pessoas não me conheciam pessoalmente, mas ouviram falar no meu nome ou lembraram alguma imagem feita por mim, e isso é gratificante.