“Golpe de 64 representou a página negra da história nacional”, diz ex-vereador Nerci Teixeira

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Em entrevista, o ex-vereador fala sobre política, liberdade, censura e democracia

O advogado Nerci Ramos Teixeira, de 66 anos, foi uma das lideranças políticas que acompanhou de perto o “Golpe de 64” dos militares, que derrubou o então presidente João Goulart. Natural de Eugênio de Castro, foi ainda jovem morar em Entre-Ijuís, onde cursou Técnico em Contabilidade. Desde jovem participou de movimentos estudantis. Aos 18 anos veio para Santo Ângelo e ingressou na Fadisa, para cursar Direito. Com o golpe militar ingressou na vida política participando da criação do MDB no município. Já em 1979 ajudou a fundar o PTB de Santo Ângelo, através da assinatura de uma ata em São Borja, logo depois que Brizola retornou do exílio. Depois ajudou a fundar o PDT no município e se elegeu vereador em 1982 junto com os candidatos João Baptista Santos da Silva, Adroaldo Loureiro e João de Oliveira Costa. Nerci ficou por 12 anos como vereador, sendo presidente do Parlamento em 1986; e ingressou no PT em 2012. Em entrevista ao Jornal das Missões, o advogado e também político conta detalhes da repercussão do golpe político na cidade.

JM – O Golpe Militar que derrubou o governo de João Goulart estabeleceu um regime linha dura no país. Como foi ser militante político nessa época?

NERCI – Em nosso país os estudantes sofreram um verdadeiro massacre nas universidades pelo Decreto 477. Não era permitido discutir política. Foi uma época difícil em que vários políticos tiveram seus direitos cassados, inocentes torturados e até hoje muitas vítimas do regime continuam desaparecidas. Eu, por várias vezes, tive que prestar depoimento no quartel de Santo Ângelo. Nos depoimentos vinham militares de outros lugares do país para nos ouvir. Éramos tachados de comunistas. Qualquer ligação com o governo deposto de João Goulart ou Leonel de Moura Brizola era considerado perigoso sob o olhar dos militares.

JM – A tomada de poder pelos militares refletiu na extinção dos partidos brasileiros. O que você lembra a respeito dessa época?

NERCI – Era um tempo difícil. Extinguiram partidos tradicionais da época como PTB, PSD, a UDN, o PL, entre outros. Os militares criaram a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o MDB. A Arena dava sustentação ao regime autoritário e o MDB fazia uma oposição contida até onde o governo permitia. Não esqueço o sentimento de medo e revolta das pessoas em Santo Ângelo quando teve o golpe. A população se sentiu desamparada. O Governo de Castelo Branco rompeu o elo existente entre o povo e os partidos. A cidadania ficou desassistida.

JM – Havia uma grande dificuldade de fazer política no período da “Ditadura Militar”. Algumas vezes, teve vontade de desistir da política?

NERCI – Sinceramente não. Permaneci na luta pelo sonho de um Brasil melhor, uma pátria livre, democrática. Um Brasil para todos os brasileiros e não como estava sendo governado por alguns sem liberdade. Porque não tem coisa pior que viver sem a liberdade de expressão, num silêncio imposto por um regime ditatorial.

JM – A política vem caindo no descrédito perante a população. Diariamente, a mídia divulga notícias relando inúmeros escândalos nas mais diferentes esferas. Muitos jovens, mesmo sem conhecer o que foi a Ditadura Militar, acreditam que naquela época não havia tanta corrupção. O que você pensa a respeito dessa questão?

NERCI – Fico preocupado quando vejo hoje jovens desinformados perplexos com a corrupção do país e exaltando a Ditadura Militar. Viver numa ditadura não é brincadeira. É preciso que os mais novos saibam que a corrupção do país hoje é fruto, também, de um hiato político criado pelo regime autoritário que impediu o surgimento de novas lideranças. Quando o país passou pela redemocratização depois do Governo João Figueiredo, as velhas raposas políticas que estiveram no poder no período da ditadura continuaram atuando no país. Naquela época havia muita corrupção, como ocorre hoje. A diferença é que antes a mídia não divulgava. Ela estava censurada. Hoje a informação circula rapidamente. O que eu posso dizer para os jovens é que conheçam um pouco mais de nossa história. Leiam, assistam filmes sobre o assunto. Eu não tenho dúvida: a pior democracia é melhor que a melhor ditadura. A única coisa que precisamos estar atentos é que a liberdade e a responsabilidade devem andar juntas como se fossem trilhos de uma locomotiva. Aqueles que só querem liberdade e agem sem responsabilidade acabam por ferir a democracia.