Há 16 anos na Uganda, religiosa relata experiência da missão e o choque de culturas

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Na casa da irmã em Santo Ângelo, missionária Alaíde Mior fala sobre dificuldades e realidade do País

Uma experiência de doação e solidariedade a milhares de quilômetros de casa. Assim pode ser descrita a missão da Irmã Alaíde Mior, de 68 anos, natural de Iraí mas que possui familiares em Santo Ângelo. Há 16 anos, desde 1998, ela vive na Uganda, país do leste africano considerado um dos mais pobres do mundo. Alaíde foi a convite da Congregação Filhas do Amor Divino, que tem sede em Santa Maria, da qual ela faz parte.

Na casa da irmã Lúcia Mior, que visita a cada três anos, ela concedeu entrevista por cerca de duas horas na última semana. Alaíde fica no Brasil até 17 de julho, quando embarca de volta para a Uganda a fim de continuar sua missão de levar melhor qualidade de vida e alguns ensinamentos para a população local.

O CONVITE E A PARTIDA
“Em 1996 recebemos uma carta da superiora geral sobre uma missão na Uganda, em que ela convidava as irmãs que se sentissem à vontade para ir. O pedido havia sido feito por um padre da Croácia que já trabalhava na África”, conta, lembrando que esse foi o primeiro comunicado até a partida, dois anos depois, em 7 de outubro de 1998.

Alaíde foi com um grupo com mais quatro missionárias: Ir. Magna Rodrigues, do Nordeste brasileiro; Ir. Angelika Chyla, da Polônia; Ir. Ancilla Hett, da Alemanha; e Ir. Vedrana Ljubic, da Croácia. As cinco irmãs foram até Roma para se conhecerem e integrarem, assim como saber mais das origens da fundadora da Congregação, Madre Francisca Lechner. Para conversar, falavam o inglês, um dos idiomas oficiais da Uganda, seu futuro destino. De Roma, o grupo partiu para o país africano, conheceu a capital Kampala e se instalou em Rushooka, uma pequena aldeia no distrito de Ntungamo.

“Quando cheguei lá, não tinha água, luz, telefone, saneamento, não tinha nada. Então começamos conhecendo a realidade, a tradição, a cultura e os costumes. Em torno de três meses buscamos sentir as prioridades para ver onde começar”, lembra ela. As prioridades eram as mulheres, com ênfase nas jovens, e a grande quantidade de crianças órfãs.

Com outros missionários, o grupo de que Alaíde Mior faz parte atuou em dois locais – o primeiro em Rushooka, em 1998; o segundo em Mbarara, desde 2007 e onde Alaíde vive até hoje –, e para 2015 os religiosos já preparam uma missão na capital Kampala.

ACESSO À ÁGUA
Alaíde Mior conta que a moradia comum em Rushooka é uma casa de barro coberta com fibra de bananeira. Para ter acesso à água, os moradores buscavam nas fossas longe de casa, em especial uma bica construída pelos franciscanos, que traz água das montanhas e nunca secou. “Ainda assim é água sem tratamento. Antes de ser construída essa bica, eles dependiam apenas da chuva. Mas eles não tomam água, e sim a obucheira, um suco preparado com sorgamo, planta que dá nas áreas secas”, explica.

A alimentação básica dos moradores é a banana (matoke), própria para cozinhar, e também o amendoim, com o qual é feito molho. Nas escolas, é fornecida uma alimentação preparada com milho branco, o pocho. “Por ter essa alimentação, a maioria dos alunos fica nas escolas. A escola tem três períodos de férias por ano, mas geralmente a aula acaba quando termina o milho, independentemente da data. Os alunos também começam a estudar a qualquer dia, sem um ano letivo”, relata.

A natalidade, conta Alaíde, é muito alta, e com frequência são vistas famílias com mais de 10 ou 11 filhos. Também há muitos órfãos de pais vivos, quando uma adolescente engravida e larga a criança para outros cuidarem, e um índice altíssimo de mortes por Aids.

Onde morou na Uganda, as áreas trabalhadas são basicamente a agricultura, em que a mulher faz a capina, e o comércio em pequenos “bolichos”, onde são vendidos artigos como banana, sabão e parafina.

INSTALAÇÕES
Quando o grupo de missionários chegou a Rushooka, morou no início em uma casa alugada; somente depois foi construída uma casa própria. Os avanços foram principalmente no atendimento à saúde dos moradores, que culminou com a construção de uma unidade de saúde com referência especialmente no tratamento da Aids. Para essa estrutura, o grupo recebe ajuda do governo da Uganda e de instituições estrangeiras estabelecidas naquele país.

Também foi construído um moinho, para facilitar a disponibilidade de farinha às escolas e também destinar alguma renda às viúvas da comunidade. É lá que também é moído o sorgamo, utilizado para fazer o suco. Os moradores têm acesso ainda ao Centro da Mulher, onde as jovens são treinadas sobre artes domésticas por dois anos. “Elas aprendem como cuidar de uma casa de família, têm aulas de religião, inglês, corte e costura. Assim, quando terminam conseguem emprego com mais facilidade”, explica Alaíde.

A missionária explica que é muito comum as adolescentes irem para a capital, Kampala, pensando que vão ficar ricas. “Elas acabam na prostituição e voltam três ou quatro anos depois para suas aldeias para morrer de Aids”, ressalta.

DIFICULDADES
De Rushooka até a cidade mais próxima, Kabale, são 42 quilômetros. Nesse local que eram compradas as coisas básicas para os visitantes. Já para utilizar um telefone era necessário percorrer mais de 100 quilômetros, no início de ônibus e mais recentemente de carro.

Na vila em que se instalaram não havia meios de comunicação e poucos de locomoção: apenas uma moto e algumas bicicletas em toda a comunidade. “Por mais difícil que pareceu, em nenhum momento pensei em voltar”, diz a missionária que vive há 16 anos no país. Alaíde diz que se sente realizada e integrada no meio dos ugandenses, com quem trabalhou como enfermeira e mais recentemente na formação para a vida religiosa, com o noviciado.

Para se adaptar, Alaíde diz que levou de dois a três anos, e que o maior desafio foi entender a cultura. “Os franciscanos tentaram instalar torneiras, mas para utilizar água os moradores tinham que pagar o equivalente a cinco centavos para cada 20 litros. E eles não quiseram isso”, exemplifica.

CULTURA
A irmã afirma que foi um choque cultural muito grande se relacionar com os moradores locais, em especial quando tentou ensinar um pouco de planejamento. “Eles não estimam o que vão precisar para o mês que vem, só pensam no hoje. Mas começamos com os funcionários da unidade de saúde, que recebiam salário. A maioria não tinha casa, terras, nada, hoje eles possuem isso e estão com os filhos na escola”, relata.

Ao fazer um balanço sobre o que melhorou na vida dos moradores após a chegada dos missionários, Irmã Alaíde Mior diz que muitos assumiram o compromisso com a família, com os filhos, com a comunidade civil e religiosa. “Agora eles se relacionam mais com o povo. Serão esses que poderão ajudar os outros”, explica.

Outra diferença cultural é a “venda” das filhas, através do dote. “É como se os pais vendessem a filha para outro se casar. A negra é como um objeto em uma prateleira”, aponta ela.

A falta de compromisso com horário foi algo que Alaíde e os demais missionários não conseguiram mudar. “Eles sentam, dão risada, não têm hora para levantar, não são pontuais para nada. Nas reuniões marcadas para as 9h, o pessoal chegava às 12h. Eles chegam atrasados em tudo”, lembra. “Na primeira vez que vim para o Brasil depois de morar lá, me senti perdida. Parece que aqui todo mundo corre, está sempre negociando e falando de compromissos.”

Alaíde Mior afirma que o ugandense é muito fechado e esconde a verdade por meio do castigo. “É um povo que foi oprimido por milênios”, resume. Na escola, conta ela, por qualquer indisciplina o aluno é castigado. “De acordo com o que acontece, levam o jovem para o pátio e um professor é escolhido para dar uma surra em público. Em compensação, autoridade para eles é uma coisa muito sagrada.”

RELIGIOSIDADE
“O africano é muito agradecido e ligado com Deus. No Brasil para uma celebração nós ensaiamos e escrevemos toda ela antes. Eles falam tudo de improviso, de coração, provavelmente porque nunca tinham livros”, destaca ela, lembrando que o país é de maioria católica. “Eles consideram padres e irmãs pessoas sagradas, mas não admitem que eles abandonem a vida religiosa, pois consideram que estão dando as costas para Deus.”

Alaíde Mior atualmente se dedica à formação religiosa na Comunidade Sagrado Coração, em Mbarara, cidade onde vive desde 2012. A formação é de quatro anos, depois as noviças fazem os votos temporários e vão para as comunidades trabalhar ou estudar.

Com 68 anos, Irmã Alaíde Mior diz que irá continuar na missão enquanto puder. Ela diz que pretende continuar e só volta se houver um pedido ou ficar doente. De uma família de dez irmãos, dois (Lúcia e Valentim) residem em Santo Ângelo.

“Quando somos convidados para uma missão, temos que viver o carisma da Congregação, que é ‘viver o amor filial ao Pai e fraterno aos irmãos e irmãs’, e temos a missão de tornar o amor de Deus visível ao mundo”, ressalta.

QUEM SE FORMA APADRINHA ESTUDANTES
Uma particularidade dos locais em que viveu na Uganda é o apadrinhamento de jovens formados para outras crianças que não têm condições de estudar. “As escolas são todas privadas ou comunitárias. Então para estudar tem que pagar. Quem estuda geralmente tem um padrinho, que é uma pessoa que teve ajuda, se formou e agora se sente na obrigação de ajudar outra criança”, explica a Irmã Alaíde Mior.

Ela ressalta que a pessoa formada trabalha e destina tudo para ajudar sua família, como se os demais integrantes dependessem apenas dessa pessoa que teve a oportunidade de estudar.