‘Há muito o que se avançar na questão cultural’, avalia Simone Lunkes, sobre o combate à violência contra a mulher

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Coordenadora Municipal de Políticas Públicas para Mulheres comenta desafios e serviços do órgão

Nomeada na semana passada para assumir a Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres em Santo Ângelo, a psicóloga Simone Vargas Lunkes avalia que, quando o assunto é violência contra a mulher, não há classe social. Ela explica que, segundo estudos, os altos índices deste tipo de violência não estão somente relacionados com pobreza, falta de educação ou falta de informações, mas sim, que a questão mais forte é a cultural. “Uma das questões mais fortes ainda é a questão do machismo e o cenário cultural e social em que os meninos são criados, num espaço que coloca as mulheres em um cenário de submissão aos homens”, completa, ressaltando que ainda há muito o que avançar quando se fala em questões culturais e sociais. A psicóloga lembra que alguns homens ainda não aceitam quando a mulher passa a se empoderar, a criar outros caminhos e possibilidades, algo que vêm alimentando os altos índices de violência.

“Casos de violência e abuso contra mulheres são geralmente cometidos por alguém que teve uma relação afetuosa com a vítima (parceiro, ex-namorado, ex-marido), que de repente não aceitou bem aquele rompimento da relação, ou até mesmo quando ainda está dentro da relação e não consegue lidar com o fato da mulher querer ter a sua própria opinião, ter a sua própria postura ou sua independência”, afirma. Sabendo destas questões, a coordenadora ressalta a necessidade de realizar um trabalho na base disso, como a atuação em escolas, por exemplo, com foco na prevenção. Conforme Simone, a Coordenadoria que iniciar alguns projetos nas escolas de Santo Ângelo, voltados para as questões da violência, como ciclos de palestras e campanhas, “é lá na escola que começam os pequenos detalhes, quando o sujeito está em formação. Como o colega trata a sua colega, a visão que ele têm da violência contra a menina e a mulher. Queremos trabalhar de uma forma preventiva, alertando e chamando a atenção para a questão da violência”, reforça.

COORDENADORIA
A Coordenadoria de Políticas Públicas para as Mulheres (localizada na Rua Antunes Ribas, 3591) conta com atendimento psicológico para as mulheres (tanto as vítimas de violência ou aquelas que estejam em alguma situação de vulnerabilidade), assessora jurídica, que orienta as mulheres sobre os seus direitos e serviço de assistência social, com uma profissional responsável por acompanhar os casos e fazer os encaminhamentos, quando necessários, à Rede de Proteção à Vítima de Violência. “Hoje as mulheres acabam muitas vezes ficando por anos numa situação de sofrimento, de violência, por medo, por desconhecer seus direitos, por questões financeiras. São diversos os motivos de uma mulher ficar presa a uma situação de violência e não devemos nos antecipar a isso, nem prejulgar, pois cada mulher tem os seus motivos e nós de fora desconhecemos suas razões. O que cabe a nós é realmente tentar despertar nesta mulher outras opções de vida. Tentar fortalecer esta mulher para que ela possa ir buscando novos caminhos, com os nossos serviços, nossos projetos”, esclarece Simone, complementando que um dos eixos trabalhados na coordenadoria também é a questão do empoderamento, com a qualificação e capacitação das mulheres par o mercado de trabalho, já que a autonomia de uma mulher também passa por isso.

CASA ABRIGO
Simone  conhece bem o setor, sendo pioneira na instalação do departamento na gestão do ex-prefeito Eduardo Loureiro, em 2012, que depois veio a se transformar em Coordenadoria. Para ela, uma das principais conquistas relacionadas às políticas públicas para as mulheres em Santo Ângelo trata-se da Casa Abrigo, um local criado para que a vítima possa se reestruturar emocionalmente, psicologicamente e financeiramente. “A vítima de violência procurava a rede, mas não tinha um lugar pra ficar e muitas vezes não tinha uma família que a acolhia. Acabava tendo que ficar sofrendo os abusos e se submetendo a violência”, o que mudou com a Casa Abrigo. O espaço da casa é sigiloso e neutro. Só têm acesso ao local pessoas ligadas à Rede de Proteção à Vítima de Violência, como a Coordenadoria da Mulher, a Delegacia da Mulher, a Patrulha Maria da Penha, Polícia Civil e Brigada Militar. “Trata-se de um espaço estruturado que está preparado para receber as mulheres. Já tivemos, inclusive, casos de mulheres acompanhadas com os filhos. No momento que ela chega a esta casa, n´ss da Coordenadoria temos o desafio e o compromisso de acompanhar esta mulher e tentar ver as suas reais necessidades e demandas que está apresentando, sejam elas de alimentação, de creche para os filhos, de emprego, de cursos de qualificação e de necessidades habitacionais”, explica a coordenadora.

Se a mulher que sofre violência fizer um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher, este órgão faz o encaminhamento da vítima para a Coordenadoria para que tenha acesso aos atendimentos psicológico, jurídico e assistencial. Também já aconteceram casos de mulheres que foram até a Coordenadoria e o órgão municipal fez o encaminhamento para a Delegacia da Mulher. O acolhimento ocorre das duas formas. Na Coordenadoria, em um primeiro momento, as reais necessidades e demandas da mulher são avaliadas, para verificar se trata-se de um caso da própria coordenadoria ou se será encaminhado para a Rede, que será responsável por atendimentos relacionados com a saúde da mulher, educação, assistência social, alimentação, projetos sociais e habitacionais.

Quanto à Casa Abrigo, Simone revela que o local não teve muita procura, mas que a Coordenadoria está avaliando se isso está relacionado à resistência das mulheres em denunciar ou se é falta o conhecimento das mulheres sobre o trabalho realizado pela Coordenadoria.

“No passado, a criação do Departamento foi um marco importante na caminhada da mulher santo-angelense na busca por seus direitos. Desde lá, viemos avançando e marcando o nosso espaço de ter vez e voz. Que este espaço físico seja referência para continuarmos cada vez mais evoluindo nossas políticas públicas para as mulheres, algo que não há como retroceder e a questão dos números da violência é desafiador”, avalia.

Simone Lunkes lembra ainda que toda a comunidade de Santo Ângelo e região é convidada para conhecer e divulgar o trabalho realizado pela Coordenadoria, reforçando que a luta contra a violência é de homens e mulheres, sendo que já existem muitos homens parceiros nesta causa e a intenção é  agregar cada vez  mais. “Estamos de portas abertas, principalmente para acolher qualquer mulher que se sentir ameaçada, violentada, descriminada. Podem nos procurar, pois aqui é um espaço de mulher para mulher”, finaliza.

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