Histórias que tiveram outro rumo depois do transplante

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Maria Celoni passou por transplante de rim em setembro de 2017. Foto: arquivo pessoal

‘Graças a Deus recebi o transplante e correu tudo perfeito’

Quando tinha 38 anos, durante a gravidez, Maria Celoni de Oliveira Lemes, descobriu que tinha uma insuficiência renal crônica – que foi descoberta através de exames de creatininina-, “resultado foi infecção por IgA”, conta ela. “Não tem cura, é uma doença autoimune”, acrescenta. Maria Celoni lembra que desde o início teve o acompanhamento médico, fazia exames e fazia uso de medicamentos para estabilizar a função renal, “mas, apesar das tentativas de alguns remédios e cuidados da alimentação em geral a cada pouco perdia mais a função até que em 2017, em março, a doutora Flávia disse que tinha que começar a hemodiálise”, conta. A data ainda marcada na memória de Maria (16 de março de 2017), parecia o fim da linha. “Logo a doutora Flávia disse que o projeto para mim era o transplante”, recorda. “Apesar de sempre ter esperança, sabemos que existem muitas pessoas que sofrem há anos nas clínicas de hemodiálise esperando por um transplante para voltarem a ter uma vida normal.”

Maria Celoni fazia hemodiálise três vezes por semana, casa sessão durava cerca de 3 horas e meia. “É muito difícil, temos reações no organismo, mal estar hipotensão”, relata. “Mas como meu pai sempre dizia: não ganhamos a cruz que não podemos carregar. Temos que conseguir forças, ter fé e coragem!.”
Para entrar na fila por um transplante, Maria Celoni passou por uma série de exames, foi a Porto Alegre, na Santa Casa – que faz as cirurgias. Todo o tratamento foi feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na capital, ela conta que ouvia todos os sotaques brasileiros, “principalmente do Norte”, afirma, “o transplante pelo SUS funciona e é muito respeitada a Santa Casa, sendo referência para todo Brasil e até exterior”, relembra.

No mesmo ano que o fim da linha lhe pareceu próximo, a providência não falhou, e por uma ação divina a linha recebeu mais um ponto e seguiu o curso da vida. “No dia 26 de setembro de 2017 fui chamada as pressas para verificar se era compatível – eu era a segunda da fila-. Saí de Santo Ângelo por volta do meio dia e cheguei em Porto Alegre no fim da tarde. Lá recebi a notícia de que o primeiro da fila não era compatível com o doador, então o rim seria para mim”, lembra.

Em 5 de novembro ela voltava para casa. “Graças a Deus recebi o transplante e correu tudo perfeito.”

Assim como Maria Celoni em 2017, neste ano, no mês de junho (último com dados divulgados pela Central de Transplantes do Estado), eram 1.519 pessoas na fila por um órgãos apenas no Rio Grande do Sul. A maioria na espera por um rim (1.043), seguido por medula óssea (180) e fígado (129). No mesmo período foram 48 transplantes de rim, 14 de fígado, três de pulmão e quatro de coração.

Maria Celoni conta que dá muito valor a vida e que ora todos os dias por sua doadora, “que avisou seus familiares que queria doar órgão e também para seus familiares que, em um momento tão difícil, tiveram está nobreza de espírito! Só gratidão a Deus, a todos médicos e aos técnicos e enfermeiros em geral que trabalham nesta área”, diz.

Maria Celoni passou por transplante de rim em setembro de 2017. Foto: arquivo pessoal

Rústica incentiva a doação de órgãos

Para lembrar a e incentivar a doação de órgãos, no próximo domingo (15), ocorre a 3ª edição da Corrida de Incentivo à Doação de Órgãos, organizada pelo Hospital Santo Ângelo, por meio da Comissão Intra Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), com apoio da Secretaria de Esportes e M2 Running.

A prova, que está em seu terceiro ano, veio para dar visibilidade ao trabalho que já vinha sendo desenvolvido no Hospital e esclarecer dúvidas sobre as doações. A largada será em frente a Catedral Angelopolitana, às 8h30, deste domingo (15).

Denise Guerin, enfermeira e que atua na organização do evento, juntamente com a gerente de enfermagem do HSA Maristani Almeida, lembra que a Rústica surgiu para mostrar que o Hospital Santo Ângelo (HSA) possuía uma comissão que fazia a abertura de protocolos – termo usado para identificar quando há morte encefálica e possibilidade de doação de órgãos. “Há três anos começamos a fazer o diferencial. Iniciamos com palestras nas escolas, empresas e onde precisasse. Mas queríamos algo mais. A corrida de rua estava começando a ter mais visibilidade e aí decidimos fazer uma Rústica”, lembra Denise.

No primeiro ano, em 2017, foram 280 inscritos. Em 2018 foram 300 e neste ano, 431 (130 no solo de 15km; 19 no trio feminino; 10 para trio masculino; 16 no trio misto). “Esse ano vamos fazer um diferencial: dar espaço para as crianças, com as provas de 200 e 400 metros”, conta. Até o momento são 40 crianças inscritas.

Marcelo Borges, administrador do HSA e corredor, diz que é um prazer poder proporcionar a toda população de Santo Ângelo e da região um evento dessa magnitude. “Como atleta, que corre a bastante tempo, para mim é muito bacana poder participar e possibilitar a população isso.

Mas também de despertar nas pessoas esse sentimento da doação de órgãos, que é extremamente importante e o nosso Hospital é uma das referências do estado para isso”, afirma.

Maira Bagatini, assistente social; Denise Guerin, enfermeira; Marcelo Borges, administrados do HS; Maristani Almeida, gerente de enfermagem do HSA; Odorico Bessa Almeida, provedor do HSA; Paula Queiroz, enfermeira. Foto: Daniele Angnes/JM

Ainda, segundo ele, um levantamento, realizado no ano passado, mostrou que, proporcionalmente, o HSA é um dos que mais faz doação de órgãos no estado, em termos de população. “Isso é algo muito importante para nós (apesar de estarmos na ponta do estado, ainda conseguimos ser um grande centro de captações). Queremos despertar essa mensagem de que a doação é extremamente importante e que salva a vida de outros”, acrescenta.

A 3ª Corrida de Incentivo à Doação de Órgãos será disputada nas distâncias 200m, 400m, 2km ,15km individual e revezamento/Trio masculino, feminino e misto.

Para a gerente de enfermagem do HSA, Maristani Almeida, da primeira edição da Rústica para esta de 2019, houve um engajamento maior das pessoas. “Acredito que as pessoas tiveram mais conhecimento, ela foi tomando mais corpo”, avalia. “O foco da corrida é a divulgação em torno da doação, para que as pessoas possam se informar sobre o assunto. Penso que conseguimos esse aumento no número de pessoas mais esclarecidas sobre”, acrescenta.

Premiação
Nesta edição, os cinco melhores na distância de 15km/ geral individual (masculino e feminino) serão premiados. O vencedor recebe R$ 300; o segundo colocado R$ 200; o 3º leva R$ 150; o 4º R$ 120 e o 5º melhor R$100. Todos ganham troféu.

Também serão premiados (em dinheiro) as maiores equipes ou assessorias que completarem a prova (2 km, 15 km e revezamento). Valor ao 1º é de R$ 500; ao 2º R$ 300 e ao 3º R$ 200, além de troféu.

No trio masculino, feminino e misto livre, o vencedor recebe troféu e os outros quatro melhores recebem medalhão.

Nas categorias 15 km e 2 km adulto, o vencedor recebe troféu e os quatro seguintes medalhão.

Categoria 2 km, infanto juvenil e mirim recebem medalha.

A 3ª Rústica de Incentivo a Doação de Órgãos tem apoio da Prefeitura, por meio da Secretaria de Turismo, Esportes, Lazer e Juventude (Setelj), M2 Running; Stock Center; Farmácia JK; Animed; Dr. Cleiton Dahmer; i-Radi; Colau química; Hardware e Cia; Unicred; Viação Ouro e Prata; Isato; Dra. Licheia Schreiber; Veiga Materiais Elétricos; Centro Regional de Oftalmologia; Cadile’s Calçados e Casa dos Consertos.

‘Família fez o certo em autorizar a doação’

Antônio Meneghetti descobriu a enfisema pulmonar em 2010. Entrou na lista para um transplante quatro anos depois e a efetiva cirurgia só veio mais de dois anos depois. Ao todo, foram mais de seis anos lutando e esperando por um doador compatível. Como ele conta, quando foi diagnosticado, o estágio da doença já era avançado e teve de fazer o tratamento na Capital, “porque aqui (Santo Ângelo) não teria mais recursos”, lembra. “Em março de 2015 entrei para a lista. Me mudei para Porto Alegre para ficar aguardando”, afirma. A espera foi longa: dois anos, um mês e 17 dias “de muitas incertezas, agustias, desespero, mas, ao mesmo tempo, de esperança que surgisse um doador”, conta.

Em 2017, ano que ele fez a operação, a Central registrou 52 transplantes (apenas de pulmão). Em abril, mês que Antônio fez o seu, foram quatro cirurgias.

Antônio esperou mais de seis anos até conseguir o transplante de pulmão. Foto: arquivo pessoal.

Hoje, dois anos e cinco meses transplantado “levo uma vida normal, com algumas restrições e cuidados”, diz. “Vida esta que devo a família do doador, que deu seu ‘sim’ e a possibilidade de outras pessoas continuarem vivendo”, reconhece.

A vida pós transplante não é a mesma. Os cuidados para a não rejeição do órgãos são grandes – principalmente um tão sensível como pulmão.

“A minha vida mudou muito. Imagine como é para uma pessoa que passava 14 horas por dia ligada a uma máquina de oxigênio, entre a vida e a morte, poder respirar sozinho novamente, não tem preço. Você aprende a dar valor as pequenas coisas, à família, aos amigos. É como nascer de novo.”

No ano passado, a Comissão Intra Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) realizou o primeiro Encontro de Transplantados, Antônio estava lá e pode dizer aos familiares que “tiveram a certeza de que fizeram a coisa certa em autorizar a doação. Sem arrependimento.”

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), o Brasil é referência mundial na área e possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Atualmente, cerca de 96% dos procedimentos de todo o País são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em números absolutos, o Brasil é o 2º maior transplantador, atrás apenas dos EUA. Os pacientes recebem assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante, pela rede pública de saúde.

HSA fez 17 doações desde 2012

A doação de órgãos tem dois caminhos. Um de quem passa pelo tratamento hospitalar, na espera por um transplante. Outro da família que perde um ente querido e tem de decidir se doa ou não. Em um momento esses caminhos se encontram. A dor da perda não será superada, mas saber que pôde ajudar outra pessoa a ter uma nova oportunidade é um gesto nobre.

No Hospital Santo Ângelo (HSA), que é autorizado a fazer a abertura de protocolos para doação, foram realizados, desde 2012, 42 aberturas destes termos e 17 doações efetivas. Neste ano, de acordo com Carline Scherer, enfermeira e coordenadora da Comissão Intra Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), houve uma captação feita na Casa de Saúde.

Carline, coordenadora da CIHDOTT afirma que diálogo com a família é fundamental na decisão de doar órgãos. Foto: Daniele Angnes/JM

“A doação de órgãos é um ato de amor de alguém, depois que não tem mais vida, poder ajudar outras pessoas. Este é um momento delicado em que a família, muitas vezes, não sabe o que responder, seja por medo, por falta de informação ou por acreditar que após a morte cerebral pode haver uma reversão (que não acontece)”, diz ela.

Pela legislação brasileira, a única forma de garantir efetivamente a doação é pela autorização do familiar. “Quando a família tem conhecimento do desejo de doar do parente falecido, esse desejo é respeitado. Por isso a informação e o diálogo são fundamentais”, pondera Carline.

A enfermeira explica que a partir do momento que é diagnosticada a morte encefálica (cerebral) – por meio de uma série de testes clínicos, feitos se há doação ou não-, inicia-se o processo de diálogo da família. “Neste momento a CIHDOTT entra mais ainda com a sua função, porque, além de passar o diagnóstico de morte cerebral, conversamos sobre a doação”, afirma.

Com a autorização da família, entra-se em contato com a Central do Estado, que desloca uma equipe clínica a Santo Ângelo para fazer a captação. No HSA, são removidos os rins, os pulmões, coração, fígado e pâncreas. Sete pessoas podem ser beneficiadas com a doação. Porém, há outros órgãos que podem ser doados após a morte. Um único doador pode melhorar a qualidade de vida de pelo menos 25 pessoas.

Os órgãos captados são levados a Porto Alegre, à Santa Casa (que é a referência no estado). Lá, o paciente que receberá a doação já está internado e com os testes de compatibilidade feitos.

No dia 27 de setembro, data que marcada pelo Dia Nacional da Doação de Órgãos, a CIHDOTT fará ações especiais voltadas ao momento.

Tire suas dúvidas sobre doação de órgãos

O que é doação de órgãos?

É um ato nobre que pode salvar vidas. Muitas vezes, o transplante de órgãos pode ser única esperança de vida ou a oportunidade de um recomeço para pessoas que precisam de doação. É preciso que a população se conscientize da importância do ato de doar um órgão. Hoje é com um desconhecido, mas amanhã pode ser com algum amigo, parente próximo ou até mesmo você. Doar órgãos é doar vida. O transplante de órgãos é um procedimento cirúrgico que consiste na reposição de um órgão (coração, fígado, pâncreas, pulmão, rim) ou tecido (medula óssea, ossos, córneas) de uma pessoa doente (receptor) por outro órgão ou tecido normal de um doador, vivo ou morto.

O que é morte encefálica?

É a perda completa e irreversível das funções cerebrais, definida pela cessação das funções corticais e de tronco cerebral, portanto, é a morte de uma pessoa. Após a parada cardiorrespiratória, pode ser realizada a doação de tecidos (córnea, pele, musculoesquelético, por exemplo). A Lei 9.434 estabelece que doação de órgãos pós-morte só pode ser feita quando for constatada a morte encefálica.

Como é feito o diagnóstico de morte encefálica?

O diagnóstico é regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Em 2017, o CFM retirou a exigência do médico especialista em neurologia para diagnóstico de morte encefálica, assunto amplamente debatido e acordado com as entidades médicas. Deste modo, a constatação da morte encefálica deverá ser feita por médicos com capacitação específica, observando o protocolo estabelecido. Para o diagnóstico de morte encefálica, são utilizados critérios precisos, padronizados e passiveis de serem realizados em todo o território nacional.

Quem autoriza a doação?

A doação só poderá ser realizada, no caso de paciente em morte encefálica, se houver autorização de um familiar, como previsto em lei. Se os familiares não autorizarem, a doação não poderá ser realizada. Para ser um doador, basta conversar com sua família sobre o seu desejo de ser doador e deixar claro que eles, seus familiares, devem autorizar a doação de órgãos.

 

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