Luta e comemoração no Dia Internacional da Mulher

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Vereadora Jacqueline Possebom comenta cenário e avanços das políticas para as mulheres em Santo Ânge

O Dia Internacional das Mulher, comemorado nesta terça-feira (8), busca marcar as constantes lutas femininas, nas diversas áreas da sociedade, num esforço para melhores condições de vida, de trabalho e de direito. A busca pelo respeito, por mais políticas públicas para as mulheres, melhores salários e maior representatividade integram a aquilo que talvez seja a principal utopia das mulheres hoje: a promoção da igualdade.
Em entrevista ao Jornal das Missões, a vereadora Jacqueline Possebom (PDT), que é uma das representantes femininas no Poder Legislativo de Santo Ângelo, comenta os principais avanços para as mulheres ao longo dos anos, assim como, aquilo que ainda precisa ser melhorado, destacando a conscientização pela denúncia em casos de abuso contra a mulher.
A vereadora é enfermeira, pós graduada em Violência Doméstica (USP/SP), Especialista em Saúde Pública com ênfase em Ações Comunitárias (Contestado/PR), foi Coordenadora da Saúde da Mulher e de Agentes Comunitários de Saúde, Conselheira do Conselho da Mulher, líder estudantil e tem qualificação em Ações Prevenção a Drogas(Unisc-SC). Além disso, é de sua autoria a iniciativa do troféu Mulher Cidadã, honraria entregue ontem pela Câmara de Vereadores, em alusão ao Dia Internacional da Mulher. A homenagem tem por finalidade prestar reconhecimento, divulgar e incentivar o prosseguimento do trabalho realizado por mulheres que contribuem para o progresso do município de uma maneira geral.

Jornal das Missões: Qual é o cenário da situação das mulheres no município e o que pode ser feito para intensificar esse busca pelos direitos e pela erradicação da violência contra a mulher?
Jacqueline Possebom: Temos envolvimento do trabalho com mulheres a longos anos já, tanto de mulheres dos bairros como também do interior e o que eu percebo é que os índices de violência contra a mulher, que é um dado que me preocupa, têm aumentado. Diariamente, nas ocorrências policiais, o que me causa estranheza é de que a cada dez casos, cinco incitam a vida das mulheres. Então elas estão pedido medidas protetivas, elas pedem ajuda para a polícia, nas igrejas, mas não é só isso. Acho que falta mais um envolvimento do poder público de ações que inibam isso, e não é só de nível local, também penso que estadual e federal. A Lei Maria da Penha veio para ajudar, mas ao mesmo tempo, é limitada. A mulher pede medidas protetivas, mas não tem como deixar uma pessoa de segurança 24 horas na casa de uma mulher, e essa mulher que sofre violência, que é ameaçada, é retirada da casa dela e colocada num abrigo muitas vezes, ou se direciona para a casa de parentes, ou seja, precisa sair do seu lar, com seus filhos muitas vezes, para não sofrer violência.
A mulher assume vários serviços, cuida da casa, cuida do seu trabalho, muitas mulheres sustentam suas casas e são provedoras de seus lares. E a mulher tem isso, consegue pensar no conjunto, dando conta de seu trabalho, de seus filhos, de sua casa e muitas vezes do seu estudo. Então eu vejo que as mulheres têm várias aspirações e conseguem buscá-las, ela só é limitada, quando nesse caminho aparece um agressor. Essa agressão pode ser verbal, moral, pode ser de várias maneiras. Uma das piores violências é aquele assédio moral e intelectual, pois a mulher fica limitada. Dizem que ela não pode, que não vai conseguir sem a presença de uma figura masculina, o que não é verdade, e a ela fica com medo. Muitas vezes escutamos “ruim com ele, pior sem ele”, o que não é verdade. Existem mulheres que não tentam sair desse vício, que muitas vezes é perpetuado de pai para filha e foi vivenciado na família dela, como casos de alcoolismo e violência. Assim, algumas mulheres acabam casando também com um homem violento. O que nós queremos é quebrar isso e que elas possam se libertar, possam falar. Só as mulheres sabem o que se passa em quatro paredes e quem somos nós pra julgar pelo que uma mulher passou? O que nos deixa preocupada é o fato de não existir uma ação mais conjunta para que isso termine ou acabe, pelo medo de que algumas mulheres têm de se expor ou de serem apontadas.

JM: Como representante da comunidade, recebe sugestões ou denúncias a respeito dessa temática
Jacqueline: Recebo muitos pedidos de ajuda, de socorro, de mulheres e também de mulheres idosas. A minha parte como legisladora é encaminhar aos órgãos competentes. Eu estou vereadora, mas também sendo enfermeira eu não posso ser negligente. Se uma senhora idosa, por exemplo, está sofrendo abuso de alguém, ou está sofrendo por falta de provimento de alimentos, eu tenho que denunciar. Nessa parte, eu preciso elogiar a assistente social que tem me auxiliado quando eu solicito os serviços dela. Tenho feito várias denúncias e tenho final feliz para todas. Mas, o que não pode é deixar isso escondido, temos que “balançar o tapete”. Das pessoas, eu percebo que muitos veem em mim uma ponte para encaminhar a denúncia, o que tem dado resultado positivo em favor de mulheres, de crianças e idosos. Temos uma maneira diferente de trabalhar, com acolhimento, com conversa, do ouvir mais do que falar, verificando se as situações têm um fundo de verdade. Muitas denúncias vêm por parte de vizinhos, que verificam se alguém está passando por necessidade, e aí a gente vai apurar a situação e encaminhar aos órgãos, que têm dado respaldo quanto a isso. O trabalho é de “formiguinha”, mas necessita de ações mais consistentes para poder inibir isso em nossa cidade.

JM: O que comemorar no Dia Internacional da Mulher?
Jacqueline: Acho que existe muito o que se comemorar. Hoje (ontem), iremos entregar o título de Mulher Cidadã na Câmara de Vereadores, para mulheres que muitas vezes fazem um trabalho anônimo, que não aparece, mas que naquelas comunidades onde atuam, em seus trabalhos de casa a casa, de grupos, seja na Pastoral da Criança, na Igreja de seu bairro, levam acalento, acolhimento e compaixão para o cenário onde vivem. É uma maneira de homenagear elas e de dizer “muito obrigado” em nome da cidade. Com esta homenagem em vida, o que nós queremos é que elas se sintam prestigiadas em serem cidadãs de Santo Ângelo, não que elas quisessem esse reconhecimento, mas nós, como legisladores temos a obrigação de dar este reconhecimento para elas.

JM: Nesta busca por melhores condições das políticas para as mulheres, o que acredita que evoluiu?
Jacqueline: Acho que evoluiu muito. O voto feminino, por exemplo, foi um grande avanço para as mulheres que estavam proibidas de votar, isso ampliou mais ainda as chances de elas estarem inseridas na política. Eu vejo que as mulheres devem responder aos pedidos das comunidades e elas sendo representantes das suas comunidades, das suas cidades na política, terão voz e vez, que é o que tentamos fazer aqui, mostrar que nós temos voz e vez também na política. É um grande avanço. Temos a ampliação do trabalho, pois onde antes não se viam mulheres trabalhando, que eram ditas masculinas, como no quartel, em postos de gasolina, nós temos mulheres caminhoneiras, mecânicas. O “batom” não está presente em vários outros meios profissionais, mas isso tem ampliado bastante e nesse ponto, acho que também estamos bem avançados.