“Movimento militar veio num momento certo para evitar a revolução comunista”

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O ex-delegado Wilmar Bindé apenas lamenta que a ditadura ficou tempo demais no poder

 Wilmar Campos Bindé é natural de Campo Novo. Ao longo de sua carreira atuou como delegado de Polícia, iniciando sua carreira em Três de Maio e vindo para Santo Ângelo, em 1961. Mas antes fez faculdade de Administração em Ijuí e atuou também como jornalista e comentarista esportivo do “Correio Serrano”, na década de 1940. Atualmente, aposentado, é escritor com três publicações, tendo como destaque a obra “Santo Ângelo, terra de muitas histórias”. Na sua trajetória profissional acompanhou de perto o reflexo do “Golpe de 64” no município. Confira a entrevista com Bindé.

JM – No “Golpe de 64”, em que assumiu o presidente Castelo Branco, o senhor atuou como delegado de polícia em Santo Ângelo. Como repercutiu esse fato político na cidade?

BINDÉ – Quando a revolução militar aconteceu fazia pouco tempo que estava na cidade. Não tinha relação política com ninguém e procurava fazer apenas as tarefas atribuídas ao meu cargo. Na delegacia nunca teve um preso político. Sempre procurei não me envolver com política. Mas sabia que na cidade havia trabalhistas que os militares chamavam de comunistas. A comunidade, de um modo geral, era ordeira e não deu muita importância para o ato dos militares. No entanto, alguns setores políticos foram abalados, principalmente com a extinção do PTB e o PSD.

JM – Sendo delegado, os militares o procuraram para atuar em parceria no combate aos opositores do regime. O senhor confirma esse contato?

BINDÉ – Sim. No segundo mês da revolução militar veio o tenente Vitor da Rosa me mandar um recado do coronel do Exército. Ele queria falar comigo. Alguns dias depois fui conversar com o comandante. O coronel me informou que tinha instruções de Porto Alegre e perguntou se eu tinha uma relação dos “comunistas” da cidade. Eu disse que não. Fazia pouco tempo que estava na cidade e não tinha qualquer relação com políticos da cidade. Meu trabalho era técnico e não político. Seis meses depois novamente fui acionado para falar com o coronel. Na ocasião me disse que queria uma parceria com a Polícia Civil para fazer patrulha à noite e prender os “comunistas”. Expliquei que não tinha infraestrutura adequada. Apenas um policial e um Jipe para atuar. Então o coronel fez um acerto com a Brigada Militar.

JM – Em relação às prisões o senhor soube de algum caso de tortura?

BINDÉ – Sim, ouvi falar que muitos presos políticos eram maltratados. O que os militares faziam eu não sei. Lembro que pela terceira vez o coronel me procurou para colocar presos políticos no presídio que ficava na Rua Antônio Manoel, onde é hoje a Secretaria Municipal de Educação. Expliquei para ele que tinha que falar com o administrador do presídio, o tenente da Brigada Militar Mário Severo. Não era sua atribuição encaminhar presos políticos. Apenas os nomes julgados pela Justiça. Logo em seguida terminaram de construir o Presídio Regional, na Avenida Sagrada Família, no Bairro Pippi, onde foram colocados vários presos políticos. Infelizmente, na cidade, muitos militares encaminhavam presos políticos ao presídio usando meu nome. Nunca autorizei isso.

JM – A Ditadura Militar, no seu ponto de vista, trouxe alguma contribuição para o país?

BINDÉ – Sim. O Golpe de 64 veio num momento certo para evitar a “Revolução Comunista”. Lamento apenas que demorou muito: 20 anos. Os militares deveriam apenas ter ficado por uns quatro ou cinco anos e convocar eleições livres em todo o país. Nesse longo período aconteceram coisas erradas como a tortura de civis, algo que não concordo. Hoje no país militantes políticos culpam todo o Exército pelos erros do passado. Não foi todo o Exército, mas alguns generais que se equivocaram com atitudes descabidas. Acredito que a parte negativa da “Ditadura Militar” traz até hoje reflexos na segurança pública do País. Os parlamentares promovem políticas públicas que tiram a autoridade da polícia e leis que promovem a injustiça.

JM – O senhor acredita que o Regime Militar teve alguma influência no atual estágio da política brasileira, com vários escândalos de corrupção?

BINDÉ – Não tem nada a ver. O que acontece hoje é reflexo dos maus políticos que atuam no Parlamento e no Executivo federal. É difícil entender um escândalo como o “Mensalão”, em que o ex-presidente Lula não sabia de nada e um monte de parlamentares envolvidos. Esse foi um escândalo que foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal.