“O historiador tem obrigação de dizer a verdade: os farrapos eram conservadores e traíram os negros”

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Em entrevista ao JM, Juremir Machado da Silva aborda temas relacionados a suas obras

O jornalista e escritor, Juremir Machado da Silva, estará nesta sexta-feira (4) na 4ª Feira do Livro de Santo Ângelo. O escritor vai proferir palestra no Teatro Antônio Sepp às 20 horas. Na ocasião abordará o tema “Crônica, jornalismo e história: narrativas do passado e do presente”. Em entrevista ao Jornal das Missões, o escritor falou sobre a sua vinda a Santo Ângelo, o momento político do país e das suas recentes publicações, “Jango: vida e Morte no Exílio” e “Revolução Farroupilha – História Regional da Infâmia”. Confira a entrevista.

JM – A palestra que será apresentada na 4ª Feira do Livro evidencia o tema “Crônica, jornalismo e história: narrativas do passado e do presente”. Como você vê hoje as narrativas feitas pelo jornalismo da atualidade, traçando um paralelo como o passado?

JUREMIR – O jornalismo de hoje é melhor do que o do passado. Anteriormente o jornalismo era mais engajado politicamente, quase partidário nas décadas de 50 e 60. Na atualidade os grandes jornais do país são mais tecnicamente distanciados desse envolvimento político. A única exceção é a Revista Veja, que é completamente comprometida com setores conservadores da direita. Podemos dizer que os principais jornais brasileiros adotam medidas razoáveis e aceitáveis, eticamente melhor do que era feito no passado.

 

JM – A morte de João Goulart no exílio, em 1976, ainda gera suspeita, principalmente depois das declarações dos uruguaios Foch Diaz e Ronald Mario Neira Barreto afirmando que o ex-presidente teria sido vítima da denominada “Operação Escorpião”. O que foi essa operação E de que forma esse plano de eliminação de Jango teria sido implementado?

JUREMIR – Ronald Neira Barreto afirma que a Operação Escorpião fez parte de uma operação bem mais ampla denominada “Condor”, que se dedicava a eliminar políticos de esquerda no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Mas são apenas declaração, sem apresentação de provas. Neira apresenta uma história instigante, evidenciando alguns elementos que fazem pensar de que Jango teria sido assassinado em decorrência de uma troca de medicamentos. A exumação do corpo do ex-presidente João Goulart talvez esclareça essa questão.

 

JM – O mês de setembro foi um período marcado pelas comemorações tradicionalistas em virtude do dia 20 de Setembro, uma data histórica para os gaúchos. Em seu livro “Revolução Farroupilha – História Regional da Infâmia” você aborda com outro olhar esse tema. A Guerra dos Farrapos foi um movimento separatista que se rebelou contra o Império, mas acabou sendo derrotado. Qual o sentido da sociedade gaúcha estar comemorando uma derrota?

JUREMIR – Pessoalmente não sou contra os festejos gaúchos cultuando a bravura dos antepassados, a atividade do campo e a vida rural. Isso é legal. Outra coisa, porém, é comemorar a Semana Farroupilha como um movimento libertador e vitorioso. Primeiro porque os farrapos não eram abolicionistas e no início também não defendiam a república. Além disso, não assinaram tratado de paz como alguns costumam pregar nesses festejos. Os farrapos receberam anistia e foram indenizados pelas perdas que tiveram na guerra e entregaram os escravos ao Império. Os farrapos traíram os negros porque eles eram escravistas. A Revolução Farroupilha nada mais foi do que uma revolta dos proprietários de terras. A maioria da população não apoiou o movimento que era extremamente conservador. Tanto que Giuseppe Garibaldi foi embora para o Uruguai decepcionado com o conservadorismo dos farroupilhas. O historiador tem a obrigação de dizer a verdade sobre o passado.

 

JM – Como você avalia as manifestações nas ruas e a mobilização nas redes sociais ocorridas recentemente?

JUREMIR – Vejo com entusiasmo as manifestações que surgiram nas redes sociais contra a mídia convencional e o sistema político do Brasil. O movimento atingiu todos os partidos de um modo geral. Espero que os protestos voltem às ruas, porque nossos políticos, acuados num primeiro momento, voltaram aos maus hábitos, agindo da forma tradicional.

JM – Como você está vendo esse novo formato de livros de história escritos por jornalistas como o 1808, 1822 e 1889 de Laurentino Gomes, ou aquele da série “Guia politicamente incorreto da história”, de Leandro Narloch”?

JUREMIR – Poderia ser boa a diluição e a vulgarização do conhecimento. Mas da forma como ocorre não é positiva. Esses escritores têm feito um mau trabalho. Os levantamentos são uma espécie de crônica social da história. Leandro Narloch é um reacionário que deturpa a história para satisfazer os gostos da direita do país. Já Lira Neto é um marqueteiro que mente para se promover. Gostava do trabalho do Eduardo Bueno, o Peninha, que fazia livros honestos sobre a História do Brasil sem os cacoetes desses outros escritores.