Ocasionado pelo excesso de oferta no mercado, preço baixo do trigo preocupa produtores

0
104

Apesar da boa produtividade, valor tem deixado produtores, que não conseguem cobrir os gastos com su

 O clima favoreceu a safra de trigo no Estado, ocasionando uma produtividade acima do esperado. Em Santo Ângelo, a média chegou a 55 sacas por hectare, conforme levantamento da Comissão Municipal de Estatísticas Agropecuárias (Comea). No entanto, se por um lado a boa produtividade alegra os produtores, por outro, eles têm as suas expectativas frustradas na hora da venda do produto. 

O chefe do escritório da Emater de Santo Ângelo, agrônomo Álvaro Uggeri Rodrigues, explica que após contato com várias empresas que comercializam o grão em Santo Ângelo, no momento, não há valor definido pela saca de 60 quilos do produto. “Sabe-se que os produtores estão tentando negociar com as empresas, porém, há dificuldade para realizar a própria comercialização. Há situações em que se realiza a troca do produto trigo, a um preço combinado entre empresa e produtor, por insumos para a lavoura de soja principalmente”, afirma, explicando que a alegação principal para o baixo valor do trigo é o excesso de oferta no mercado, originado por importações realizadas de outros países produtores e a boa safra obtida no Brasil. “Desta forma, os moinhos que beneficiam o trigo tem quantidades grandes do produto em estoque e, praticamente não estão comprando, o que ‘trava’ o mercado de uma maneira geral”. 

Causas
Produtor rural e presidente do Sindicato Rural em Santo Ângelo, Cláudio Duarte afirma que negociou seu trigo com o preço de R$ 29,00 a saca. O produtor explica que o cenário que se tinha no início do plantio era de que ao final da colheita, o produto seria vendido a seu preço mínimo, que é de R$ 38,65 a saca de 60 quilos. Assim, a maioria dos produtores realizou investimentos considerados altos nas lavouras, que se aproximaram de R$ 40,00 a saca. No entanto, a importação de 850 mil toneladas de trigo do Canadá pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), “bagunçou” o mercado, fazendo com que o preço no início da colheita diminuísse para R$ 32,00. Após isso, nova importação foi feita de  R$ 1,5 milhão de toneladas. Duarte explica que o consumo do trigo no Rio Grande do Sul chega a 2,5 milhões de toneladas, sendo que a produção de trigo no Estado com a boa produtividade chegou a 2 milhões de toneladas, número quase suficiente para quitar o total de consumo. 
Com o excesso de oferta no mercado o valor do produto diminuiu ainda mais, chegando a ser R$ 10,00 mais barato que o preço mínimo. “Existem empresas que estão recebendo pelo valor de R$ 28,00”. Duarte explica ainda que a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), tentou negociar com o Ministério da Agricultura, justificando o volume e os parâmetros da colheita no Estado, “porém, nesta mesa de negociações, 70% eram representantes da indústria, que estão satisfeitos com o cenário atual”. 
Cláudio Duarte ainda ressalta que o número de toneladas ofertadas nos Leilões do Governo Federal, como o Prêmio Equalizador pago ao Produtor Rural (Pepro) e o Prêmio de Escoamento da produção (PEP), que pagam o preço mínimo do trigo (R$ 38,65 a saca de 60 quilos), deveria ser maior, “pelo volume e por não ter mercado, deveriam oferecer 1 milhão de toneladas e não 150 mil toneladas ao Estado, como está sendo feito nestes primeiros leilões”. 
O agrônomo Álvaro Uggeri Rodrigues esclarece que na safra passada, nesta data, a cotação era de R$ 32,00 a saca de 60 quilos. “Porém, a grande diferença é que foi uma safra frustrada, com obtenção de baixa produtividade e baixa qualidade do grão. Se compararmos a situação das duas, observa-se que a comercialização do anterior estava um pouco melhor, mas a qualidade e produtividade significativamente inferiores que a atual safra colhida”, afirma. Na safra 2014/2015 a produtividade média obtida em Santo Ângelo ficou em 18 sacas por hectare e na safra 2015/2016, foram obtidas 55 sacas por hectare. Segundo o chefe da Emater, a maioria destas lavouras com PH 78, o que atesta a boa qualidade do grão colhido. 

Situação dos produtores 
Sobre as alternativas que os produtores do município têm procurado, Álvaro salienta que as situações são bastante variadas, pois há produtores que conseguiram vender o trigo no início da colheita a preços entre R$ 28,00 a R$30,00 a saca de 60 quilos e há outros que estão fazendo troca do grão por insumos, além daqueles que ainda não conseguiram comercializar. “O ideal seria que todos conseguissem aguardar para tentar vender em melhores condições do mercado, porém, sabe-se que há muitos compromissos de contas a pagar, realizadas para a formação da lavoura, o que deixa muitos produtores em situação difícil. Este quadro tem se repetido frequentemente, com a cultura do trigo, o que tem causado um grande desestímulo para maiores investimentos”, destaca.
O produtor Rafael Moreno, negociou uma parte de sua produção no valor de R$ 33,00 e está aguardando as interferências do governo através do Pepro para poder comercializar o restante ao valor mínimo, pois atualmente o preço está entre R$ 28, 00 e R$ 29,00. “Até cobrimos os custos com as lavouras, mas não há lucro nenhum”, lamenta. 
Conforme Cláudio Duarte, “o que se vê é a insatisfação pela falta de políticas agrícolas que possam dar garantias aos produtores. Isso tem gerado, por exemplo, a diminuição cada vez maior da área plantada do trigo no município. Entre a safra de 2014/2015 e 2015/2016, esta diminuição foi de 28%, e este número tende a aumentar”. 
Segundo o chefe da Emater, é difícil fazer uma previsão do aumento do preço do trigo, que depende muito dos estoques, da demanda pelo grão, do volume produzido por países produtores, entre outros fatores. O agrônomo exemplifica que na safra anterior, a cotação do cereal começou melhorar no final de maio, quando os preços alcançaram R$ 40,00 a saca, e que perdurou até o mês de setembro, quando voltou a cair. “Aqueles que tiveram condições de aguardar esta situação mais favorável, obtiveram melhor resultado no negócio. Mas, vale o alerta; esta situação nem sempre se repete. O que se pode recomendar é que o produtor tente negociar com a empresa onde entregou sua produção e se mantenha informado sobre as condições de mercado do cereal”, analisa, complementando que outra informação importante é ficar alerta para os Leilões do Governo Federal, como o Pepro e o PEP. “Isto, efetivamente acontecendo, pode auxiliar os triticultores neste momento difícil”, avalia. 
Uggeri lembra ainda que pela lógica, o baixo preço do trigo deveria ter reflexos em toda a cadeia produtiva (com baixa de preços na farinha e no pão, por exemplo). Porém, até o momento, não foram constatadas mudanças significativas nos preços de derivados de trigo.