Os laços que unem pais sociais e filhos acolhidos

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 No Centro de Acolhimento Martinho Lutero, localizado em Santo Ângelo, não são os laços sanguíneos que unem casais e mais de 50 crianças e adolescentes, com idades entre zero e 18 anos. Nem por isso, no entanto, pode-se negar a existência de famílias. De pais, chamados de “tios”, e de mães que optaram por mudar sua rotina para atender aqueles que mais precisavam.

Foi assim com Claudio Ari Steincke, de 39 anos, e Valdir Soares, de 58 anos. Eles tiveram o apoio de suas esposas e filhos únicos para assumir o papel de pai social, passando a morar junto ao Centro de Acolhimento, em meio a oito, nove crianças. No início, habituar-se a esse novo cenário foi difícil, mas não menos encantador.

“Às vezes penso até onde devo continuar. Eu e minha família estamos aqui há mais de três anos e, posso afirmar, é difícil ser um pai social. Não pela rotina, não pelo cuidado que você tem que ter com as crianças. Mas é difícil não se apegar. É difícil não se envolver com um bebê que chega aqui desnutrido e que, por intervenção sua, acaba dando a volta por cima. É difícil demais se desligar”, comenta Claudio.

No lar, Claudio e Valdir são responsáveis, cada um, por até nove crianças. Cada família vive numa casa, sob cuidados de um casal. De acordo com o coordenador do centro, pastor Elias Renato Eidan, as crianças e jovens são encaminhados pelo Juizado da Infância e da Juventude, ou indicados pelo Conselho Tutelar, com aval da Justiça. Todos ali tiveram, de alguma forma, um direito violado.

No centro, estes pequenos refugiados têm acolhimento por tempo integral, por no máximo dois anos, até que retornem ao convívio familiar. “Nossa missão é cuidar da criança ou do jovem que precisou ficar afastado da família, auxiliando no fortalecimento de seus vínculos, no retorno para casa”, explica o coordenador.

Além dos dois personagens, o Centro de Acolhimento possui outros dois pais sociais. Para manter as casas lares, conta-se com convênios com municípios e, principalmente, contribuições vindas da comunidade – através de dinheiro ou de doações de roupas e alimentos. “Estamos sempre abertos a associados”, comenta o pastor, lembrando que os acolhidos contam com nutricionista, pedagoga, assistentes sociais e técnicos.

Construindo vidas

Durante seis dias e 24 horas, os pais e mães sociais acompanham a rotina das crianças e adolescentes. Pela manhã, os mais velhos vão à escola, depois de tomar café e arrumar o quarto. À tarde, são os pequenos que frequentam o educandário, enquanto outras atividades são desenvolvidas nas casas lares. “À noite, a rotina é a mesma em quase todas as casas: olhamos TV e fizemos a leitura da Bíblia e de um livro. Cada monitor tem autonomia para administrar sua casa”, adianta Claudio.

O pai social, que prefere e orienta suas crianças a chamá-lo de tio, tem uma filha de 14 anos, que divide o mesmo quarto com as abrigadas. Segundo ele, no início foi difícil, já que a filha sentia muito ciúmes de ver o pai tanto tempo com outras pessoas. “Era como se eu tivesse apenas um dia da semana, o da minha folga, direcionado a ela”, comenta.

Com Valdir Soares a situação foi um pouco mais tranquila. Pai de um menino de 13 anos, que também reside na casa, Valdir respeita o fato do jovem ser mais reservado. “A gente tem que dar atenção a todos. Se uma criança quebra o braço, eu sou responsável. É como se ele fosse meu filho, também”, diz.

E como bons pais, ambos precisam estar atentos aos adolescentes e aos hormônios difíceis de controlar. “A sexualidade talvez seja um dos maiores problemas. Hoje, com crianças, é mais tranquilo, mas quando há jovens, a situação complica”, concordam os pais.

A dificuldade (e até descaso) enfrentado pelos acolhidos é tamanha que alguns chegam sem noção de horários, regras, sem saber sequer manusear um garfo. “Eu diria que é até mais difícil ser pai social. Essas crianças não tiveram pai e mãe. Muitas nem podem ter contato com a família, por decisão judicial. Elas são carentes, querem estar sempre próximas, mesmo que o desejo seja de ir embora. Dói cada desligamento, cada partida. Mesmo que lutemos para que a relação não seja tão próxima”, completa Claudio, lembrando de um menino que, excepcionalmente, acabou permanecendo por sete anos no lar.