Tragédia na boate Kiss: homenagens e pedidos de justiça marcam os dois anos

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Homenagens em Santa Maria ocorrem hoje. Amanhã, santo-angelenses participam de missa, na Catedral

Esta terça-feira (27) será um dia marcado por homenagens às 242 vítimas da maior tragédia do Sul do País, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, ocorrido exatamente dois anos atrás. Em Santa Maria, as homenagens serão realizadas no ginásio Franciscão, a partir das 17h50min.

Está previsto na programação um tapete de rosas com um símbolo do infinito, buscando retratar a eterna lembrança das vítimas, além de apresentação da Banda da Força Aérea Brasileira, apresentação de um grupo de violinistas, leitura dos nomes das vítimas e um momento de oração conduzido pelos líderes de igrejas e cânticos de louvores. O encerramento deve ser marcado com uma oração, seguida de bênção e soltura de 242 balões brancos com fitas verdes.

Já em Santo Ângelo, de onde eram originárias cinco vítimas da tragédia – Matheus Engers Rebolho, Benhur Retzlaff Rodrigues, Laureane Salapata da Silva, Fernando Michel de Vogarins Parcianello e Vinicius Marconato Uggeri –, uma missa será realizada para familiares, amigos e comunidade em geral, amanhã (28), às 19h, na Catedral Angelopolitana. A data de homenagens no município foi alterada em função de muitos familiares participarem da programação em Santa Maria.

NÚCLEO CIDADE DOS ANJOS
Em 2014, ano em que foi criado, o núcleo Cidade dos Anjos da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) participou de vários eventos que relembraram o acontecimento e homenagearam as vítimas. De acordo com a professora Maria Denise Uggeri, mãe de Vinicius, um desses eventos foi o Festival de Cinema de Gramado, no qual, no dia 11 de agosto, foi exibido o documentário “Janeiro 27”, com o objetivo de fazer um alerta para se evitar tragédias semelhantes.

Houve, ainda, o Seminário sobre Tragédias em Casas Noturnas, realizado em Buenos Aires, de 17 a 19 de novembro, que fez parte da programação que lembrava o incêndio da boate República Cromañón, ocorrido na capital argentina em dezembro de 2004 e que vitimou 190 pessoas. “Neste encontrou, foram discutidas maneiras de prevenir tragédias semelhantes às que ocorreram nos dois estabelecimentos. Juntos, os incêndios mataram mais de 430 pessoas. Na Argentina, o produtor cultural que administrava a boate quando ocorreu o incêndio foi condenado a 10 anos e nove meses de prisão”, diz Maria Denise. Além dessas programações, houve a Tenda da Vigília e Depoimentos do Caso Kiss. “Em Santo Ângelo realizamos também a Páscoa Solidária, na qual arrecadamos agasalhos para doar às famílias carentes”, conta.

‘A VIDA PRECISA CONTINUAR’
Denise afirma que, apesar da ausência daqueles que partiram em decorrência da tragédia, a vida dos pais e familiares precisa continuar. “Sabemos que a vida precisa continuar, porém não devemos nos deixar manipular por pessoas, instituições e interesses que desejam que esse massacre do dia 27 de janeiro de 2013 caia no esquecimento e não seja lembrado como um fato importante. Desta forma, não lembrando, é mais fácil livrar o poder público – Prefeitura, Corpo de Bombeiros –, Ministério Público e empresários de sua culpa e omissão por tudo o que aconteceu na boate Kiss. A falta que estes 242 jovens fazem somente sabe quem os perdeu”, emociona-se.

Ela relata que a fé é o que os conforta e dá certeza de que os filhos estão bem. “Junto de nossas famílias e amigos, seguimos adiante, sempre lembrando e agradecendo a Deus pelas boas lembranças que temos em nossos corações”, diz.

ASSOCIAÇÃO DOS FAMILIARES AINDA BUSCA JUSTIÇA
O presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Adherbal Ferreira, que perdeu a filha Jennefer, 22 anos, estudante de Psicologia, despede-se da presidência, junto com sua diretoria, no dia 7 de março. Em comunicado divulgado no seu perfil no Facebook, ele diz que foram dois anos intensos de muito trabalho e de uma luta que precisou ser acompanhada por advogados na Justiça para que todos soubessem o caminho a percorrer, tanto familiares das vítimas quanto sobreviventes.

“Lutamos e luto, continuo sempre, porque quero a justiça, a responsabilização de todos e a verdade também. Nunca desistirei, pois minha filha tem um valor incalculável e todos os outros 241 também”, afirma.

Já o presidente do núcleo Missões de Amigos, Parentes e Sociedade em Geral, Jorge Luís Malheiros, declara em nota que “Santa Maria e o Rio Grande do Sul têm uma dívida com a sociedade gaúcha, negligenciaram seu dever e oportunizaram a maior tragédia que este estado já viu”.

Segundo ele, há 24 meses os familiares das vítimas aguardam por respostas sobre quem são os responsáveis e quais as responsabilidades negligenciadas no caso.

Jorge salienta que as famílias estão expostas a um sofrimento que parece ser interminável, sofrendo uma tensão psicológica e emocional constante pela impunidade.

“Queremos respostas claras, honestas e dignas. O caso Kiss é um divisor de águas que marca claramente o Brasil que temos e o Brasil que queremos ter. É preciso apontar os responsáveis e as responsabilidades dos poderes públicos que levaram a essa tragédia e tirar, disso, lições que mudem posturas do poder público e da sociedade, com homens capazes de enfrentar seus medos, seus erros e apontar caminhos que nos levem a um Brasil mais justo e digno”, conclui.