“Vou lutar para que ninguém passe pela dor que é perder um filho dessa forma”, diz mãe de uma das vítimas da tragédia da boate Kiss

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Para amenizar a dor, acolher e buscar justiça, Núcleo Cidade dos Anjos é criado

Dor, perda de um ente querido e a luta incessante por justiça: como acalentar um coração com estes sentimentos? É o que busca a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), criada em 23 de fevereiro de 2013, após incêndio na boate Kiss, que vitimou 242 pessoas. A AVTSM tem como missão assegurar os direitos e interesses, garantir o auxílio e o amparo aos familiares das vítimas e aos sobreviventes da tragédia de Santa Maria. Inspirados nesta luta, núcleos começaram a ser criados em todas as regiões do Estado do Rio Grande do Sul para unir forças, dividir o luto e lutar por justiça.

Na manhã de ontem (17), os familiares das vítimas santo-angelenses estiveram reunidos na Câmara de Vereadores, juntamente com o presidente da AVTSM, Adherbal Alves Ferreira, representantes da associação e vereadores, com o objetivo de formar um núcleo da associação no município que envolva também familiares das cidades vizinhas que perderam de forma trágica seus filhos no incêndio da Kiss, no dia 27 de janeiro de 2013.

Para Adherbal, pai de Jennefer, 22 anos, estudante de Psicologia, que perdeu a vida precocemente na tragédia, a união das famílias é muito importante, pois a mesma dor está sendo compartilhada e ainda há acolhimento tanto destes parentes como dos sobreviventes. “A dor está à flor da pele, porque não houve o sentimento de justiça e, assim, não há paz. É importante criar este núcleo, que irá fazer suas ações, seu acolhimento, uma nova ação social, porém estaremos juntos no trabalho unitário em busca de justiça”, explicou o presidente da AVTSM.

Em sua fala para as famílias dos santo-angelenses Matheus Engers Rebolho, Fernando Michel de Vogarins Parcianello, Benhur Retzlaff Rodrigues, Vinícius Uggeri e Laureane Salapata da Silva, Ferreira disse que a vida não continua, ela é transformada. “Estamos como aleijados que perdem um dedo da mão. Podemos nos adequar e levar nossa vida com o restante dos dedos, contudo nossa mão nunca deixará de ser capenga. Assim estamos nós. Podemos ter outros filhos que amamos, podemos nos acostumar a levar a vida, todavia, nossa dor nunca deixará de existir. Mas temos que ter a força e coragem de mostrar a cara e continuar lutando”, afirmou.

Entre relatos emocionados estava o dos pais de Ariel Nunes Andreata, que faleceu aos 18 anos, estudante de Tecnologia de Alimentos, natural de Joia, Darci Andreata e Elizete Nunes Andreata. Mesmo sendo do Núcleo de Ijuí, eles estavam apoiando a criação deste núcleo na Capital das Missões. “Esperamos que a justiça seja feita. Cobramos a responsabilidade dos envolvidos. O poder público tinha que nos dar a voz, mas parece que estamos tendo que provar que somos vítimas”, salientou Elizete.

O santa-rosense Ariolino de Castilho Ferreira, pai de Andressa Inajá de Moura Ferreira, estudante de Medicina Veterinária, que foi vítima aos 18 anos, lembrou que a Famurs (Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul) apoiou o prefeito de Santa Maria. “Isto foi decepcionante, pois o que aconteceu foi um genocídio. Esperávamos que todos os políticos e prefeitos nos apoiassem, porém não foi o que aconteceu”, ressaltou Castilho.

As palavras e o pranto da mãe Elígia Engers Rebolho, que clamou por justiça, emocionaram todos os presentes no plenário. “Vou lutar para que ninguém passe pela dor que é perder um filho dessa forma. Eu lutarei até os últimos dias da minha vida, porque, por mais terrível que seja, estamos lutando pela vida de todos os jovens”, afirmou Elígia.

Dari Edson Conti, pai de Raquel Daiane Fischer, 19 anos, de Horizontina, falou sobre os comentários e notícias de que as famílias receberiam milhões em indenizações. “Tive que ir à rádio e perguntar às pessoas: Quanto vale a vida do teu filho? Dinheiro nenhum trará nossos filhos de volta, por isso lutamos por justiça. Para que suas vidas não tenham sido tiradas em vão”, disse.

NÚCLEO CIDADE DOS ANJOS

Ao término do encontro, foi eleita a diretora do Núcleo Cidade dos Anjos, nome escolhido pelos presentes e que abrangerá a região Noroeste do Estado. Maria Denise Uggeri será a responsável pelo núcleo, que abrangerá as famílias de Santo Ângelo, Horizontina, Santo Cristo e Santa Rosa.

A vereadora Jacqueline Possebom (PDT), que apresentou a moção de apoio aos trabalhos da AVTSM, afirmou que é importante o auxílio na implantação deste núcleo no município. “A intenção é de tratar ações sociais, uma forma de resgatar a autoestima e a cidadania destas famílias, e buscar justiça para que nossos filhos não sejam vítimas de uma tragédia como esta”, disse.

Em entrevista ao Jornal das Missões, o presidente da AVTSM declarou emocionado: “Ame seu filho hoje, porque amanhã pode ser tarde demais”.