12h20min de serviço com a Brigada Militar

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É final da tarde de sábado, 7 de julho de 2012. São 18h, horário de troca do efetivo policial da Brigada Militar que irá realizar o patrulhamento nas áreas urbana e rural de Santo Ângelo.

O JM acompanha um grupo de sete policiais militares que compõe o Pelotão de Operações Especiais (POE), incluindo o seu comandante o Tenente Joaquim Monteiro, recebendo as instruções de trabalho. Eles irão trabalhar 12 horas corridas, sendo 40 minutos para fazer uma refeição. “Recebemos a informação de que circula na cidade um veículo clonado e um outro foi furtado. Peço que fiquem atentos. Desejo a todos um bom trabalho”, diz o Tenente Monteiro. No mesmo instante, outros policiais assumem o trabalho no Módulo Central.

A noite promete ser movimentada como acontece tradicionalmente aos finais de semana, quando vários eventos são realizados na cidade e o consumo de álcool e drogas aumenta, uma das razões que motivam a criminalidade de modo geral. As ocorrências mais comuns são porte ilegal de armas, violência doméstica, embriaguez ao volante e perturbação do sossego.

Nesta noite, as guarnições do policiamento ordinário são supervisionadas pelo Tenente Sandro Retzlaff, que é chamado de oficial de serviço. Ao seu lado, o sargento Cláudio Ribeiro, o auxiliar de serviço externo. Eles assumem a responsabilidade de acompanhar o serviço policial e quando há necessidade repassam as ações ao comandante geral do 7º Regimento de Polícia Montada.

Dez viaturas estão na rua e um micro-ônibus deve se juntar mais tarde por conta da Operação Fecha Quartel, prevista para ocorrer nas ruas de maior circulação de veículos. Cada uma deverá rodar, em média, 100 quilômetros durante o horário de serviço.

Com uma máquina fotográfica e um caderno de anotações, embarcamos numa viatura, ao lado dos soldados Geovani Volz (condutor) e Letícia Fonseca e do Tenente Monteiro, ambos do POE. O objetivo é registrar a rotina desses profissionais, que mesmo com a temperatura de 1ºC estão prontos para qualquer situação, preservando a ordem pública e prestando um serviço de segurança comunitária, enquanto milhares de outros santo-angelenses estarão na rua, em casa ou trabalhando.

Depois de interagir com o oficial de serviço, Tenente Retzlaff, no Módulo Central, às 18h46min, a viatura é levada a um posto de combustíveis. Enquanto é abastecida, o seu condutor, soldado Geovani, explica que é preciso ter um curso de condução de veículo de emergência para dirigi-la. “Devemos seguir as recomendações do Código de Trânsito Brasileiro. Somente podemos imprimir velocidade maior quando estivermos em deslocamento para ocorrências ou em caso de perseguição”, diz.

Às 19h03min, esta e outra viatura com os demais policiais do POE entram no Bairro Harmonia com os faróis desligados. É uma estratégia para que indivíduos suspeitos sejam abordados com surpresa. Mesmo assim, de longe, três jovens começam a correr ao enxergá-las. Parece que eles já identificam a presença policial através de barulho do motor dos veículos de segurança.
Na Rua Miguel Couto, eles são abordados. Após serem identificados, um dos policiais aciona a Sala de Operações e consulta se algum deles está na condição de procurado pela Justiça. Todos possuem antecedentes criminais; um deles, inclusive, é adolescente, infrator por furto e posse de drogas. Após a revista, é apreendida uma soqueira em posse de um deles.
Às 19h10min, na mesma rua, um motociclista em atitude suspeita é parado. Ele possui antecedentes por maus tratos. Também é revistado. Todos são liberados.

Às 19h26min, a viatura se desloca à localidade de Buriti para patrulhamento rural, quando ouve-se no rádio que está acontecendo uma briga entre dois homens em um prédio aos fundos do Colégio Getúlio Vargas. Outra guarnição é deslocada para o atendimento desta ocorrência porque ao retorno à área central, às 19h31min, os policiais do POE são chamados para uma ocorrência de maior risco. Dois homens usando toucas e armados invadem um mercado, próximo à URI, e fogem levando um notebook, entre outros objetos. Entra em cena a equipe de inteligência da BM.

Enquanto a viatura do POE se aproxima do local do assalto, um veículo discreto acompanha os suspeitos pelo Bairro Rogowski. Às 19h33min eles são abordados, já na Rua Dez de Novembro, no Bairro Ditz. As vítimas são trazidas por uma outra viatura até este local para reconhecer a dupla. De dentro do carro elas observam os suspeitos que estão de costas. Em seguida, os PMS pedem que eles virem com os olhos fechados e fiquem de frente para as vítimas a fim de não sofrerem represálias. No final, elas acabam dizendo que não conseguiram identificá-los e eles são liberados. Ambos possuem antecedentes.

Às 20h03min, a Sala de Informações informa que um homem alto e gordo, usando uma faca, ameaça fiéis em frente a uma igreja no Bairro São Pedro. Às 20h18min, deslocamos para a Avenida Rio Grande do Sul, no Bairro São Carlos. Quatro veículos estão sendo recolhidos ao guincho: um Chevette que trafegava com o volume alto do som perturbando os moradores, e o motorista sem a carteira de habilitação; um Fiat 147 com o licenciamento vencido, uma moto sem o documento e outra moto com o licenciamento vencido.

Às 21h25min, o comandante do 7º RPMon, major Hasadias, acompanhado do sub-comandante, major Pinton, faz uma preleção no Módulo Central. Neste momento, policiais do setor administrativo também participam. Às 21h30min, na Marechal Floriano – entre as ruas Três de Outubro e 25 de Julho – uma barreira é montada para a execução da Operação Fecha Quartel. A operação visa colocar na rua o efetivo administrativo para que ele não perca a operacionalidade policial. Agora, já são 30 policiais militares na rua. O policiamento ostensivo e preventivo segue normalmente em outros pontos da cidade.

Às 21h36min, o motorista de um Corsa é parado. A suspeita é de que esteja dirigindo embriagado. Negou-se a fazer o teste que constata a quantidade de álcool por litro de ar expelido, foi multado em R$ 925 e para não ter o veículo guinchado, passou a direção para outra pessoa habilitada e que se submeteu a fazer o teste.

Às 21h55min, o motorista de um Apollo tenta ‘furar’ a barreira, na Marechal, e é abordado. Após suspeita de embriaguez é convidado a fazer o teste do etilômetro, por uma das duas equipes da Operação Etilômetro, e se recusa. É multado e o carro é guinchado.

Às 22h40min, flagramos uma cena em que um motorista relatou ter ingerido dois latões de cerveja, aceitou fazer o teste e o resultado foi 0,09 mg/l, ou seja, abaixo do nível tolerável. Por isso, não foi autuado e foi liberado. Durante a operação, vários motoristas foram convidados a fazer o teste do etilômetro. Tantos outros tiveram que retirar a película do automóvel para seguir viagem e não ter o carro recolhido, pois estavam com o nível de transparência abaixo do permitido.

Aos poucos o tráfego de veículos diminui. Através das redes sociais e torpedos, os motoristas informam que há uma barreira policial na Marechal, razão pela qual as pessoas evitam ser abordadas. Às 23h21min, o comandante, major Hasadias, determina que a Operação seja transferida para a Marquês, entre a Sete de Setembro e 25 de Julho. Alguns motoristas passam sem serem abordados. Estes fazem comemoração e alguns metros depois de onde os policiais estão, disparam, imprimindo maior velocidade em seus veículos e correm o risco de serem perseguidos.

À 0h27min, um jovem é parado com a suspeita de embriaguez. Logo, ele e outros três amigos descem do carro. Um homem com cabelo branco e face enrugada, aparentando uns 65 anos, passa pelo local empurrando uma bicicleta. Percebendo que a aglomeração era por suspeita de embriaguez, ele diz: “Como vocês são bobos. Bebem e saem dirigir. Que feio. Porque não fazem como eu (retira de um dos bolsos do casaco uma garrafa com aguardente e toma um gole), bebo, mas saio empurrando a minha bicicleta”. Depois cai na gargalhada.

À 1h40min, termina a Operação. Os PMs do POE fazem a sua parada para uma refeição. Foi rápido: 20 minutos, apenas. Continuam o patrulhamento. Diferentemente de outras guarnições, o POE não tem região específica para sua atuação. Pode policiar em qualquer local, em toda a região de abrangência do 7º RPMon. Às 2h27min, é feito o deslocamento para o município de Entre-Ijuís, porém, após atravessar a ponte sobre o Rio Ijuí, que faz divisa com Santo Ângelo, são informados de que um jovem de moletom, nas cores branco e preto, quadriculado, é visto escondendo uma arma de fogo, em um canteiro na esquina da Três de Outubro com a Marques do Herval.

Em poucos minutos, o POE chega ao local e outras guarnições já fazem a revista em quinze pessoas suspeitas de estarem organizando um confronto em frente a uma festa. Todos estão na parede para serem revistados. O revólver não foi localizado, porém, um facão é apreendido.

Os suspeitos são liberados um a um, mas antes disso, o Tenente Albuquerque demonstra um gesto de que a polícia não está na rua apenas para evitar confrontos, mas para aconselhar os jovens a não se envolverem em delitos. A maioria era menor de idade. A ideia é que eles reflitam sobre a criminalidade e suas consequências.

Já são 2h57min e a sensação de frio aumenta. Um baile está sendo realizado na localidade de Cristo Rei – a mais de 25 quilômetros da área central. Para lá foram os policiais. A essa altura, muitas pessoas já estão embriagadas e capazes de provocar alguma confusão. Na chegada, flagramos os seguranças retirando do baile um indivíduo que não se comportava muito bem. A presença da BM diminuiu o risco de algo mais grave.

Os PMs ficaram por lá durante um período e retornaram à área urbana. O trabalho ficou mais calmo. A Sala de Operações já não comunicava mais. O sono começou a nos pegar enquanto a viatura andava pela cidade, mas era impossível dormir diante da expectativa de que alguma nova ocorrência pudesse acontecer. Mantivemo-nos sempre em alerta.

Eram 4h33min, um homem é flagrado sentado na escadaria em frente a um apartamento. Estacionado, na rua, estava um automóvel. Sob a suspeita de que este pudesse ser arrombado, os policiais descem da viatura e anunciam. “Mãos na cabeça”. O homem, que portava uma bolsa cheia de objetos, é revistado e convidado a ‘circular’.

Às 4h43min, uma sex shop é arrombada, na rua Andradas, quase esquina com a Florêncio. Dois homens quebram o vidro do estabelecimento para tentar furtar algemas, mas acabam sendo algemados e presos pelos policiais.

Já são 4h59min, a Sala de Operações informa que houve um acidente na rua Universidade das Missões. Chegando ao local, encontramos um Renault Sandero, com placas de São Paulo, debaixo de uma parada de ônibus, em frente a URI. O motorista havia abandonado o carro. A suspeita é de que o carro teria sido furtado.

Às 5h45min, a Sala de Operações recebe a denúncia de que um homem dirige um veículo em zigue e zague pela Perimetral Norte. Um automóvel Corsa é abordado e se constata que o motorista estava embriagado. Para não ter o carro guinchado, teve que chamar um familiar para levá-lo embora. Se negou a fazer o teste do etilômetro e foi autuado com base na prova testemunhal.

São 6h20min, fim de serviço. O domingo amanhece com uma forte geada. Hora de ir para casa. O sono só vem por volta das 8h. Mesmo que um colete balístico possa proteger regiões vitais do corpo, as sensações possíveis de registrar ao longo de um turno de serviço são de risco, emoção, medo, adrenalina.